Reportagem

Virei ataca emergências para sair do vermelho

Rosalina Mateta

Mais de mil animais mortos, entre gado bovino, caprino e ovino, é o balanço dos efeitos da seca no município do Virei, província do Namibe. Como medida de emergência, em breve, serão abertos sete furos, avaliados em 136 milhões de kwanzas. Até agora, pastores e animais migram à procura de água e pasto. Os produtos agrícolas também escasseiam

Fotografia: Rafael Tati | Namibe | Edições Novembro

De Moçâmedes ao Virei, percorremos 131 quilómetros para “in loco” reportar os males que a seca está a causar naquele que, dos cinco municípios da província do Namibe, é o mais afectado. Muito distante da comuna sede, a mais ou menos 55 quilómetros antes do Virei, uma manada de bovinos, que seguia a norte, em pleno deserto, captou a nossa atenção.
Muandamatela, o proprietário dos bois, mais dois pastores saíam de Ptchomaleva, Hekia, e rumavam para a Huíla em busca de água e comida para os animais. Naquela longa e desesperada caminhada, o homem procurava salvar a vida das mais de 100 cabeças que lhe restavam. Contou que já tinha perdido 50. Mas, sabendo que os cuvales não estimam o seu gado contabilizando, mas sim pela cor do pêlo de cada animal, admitimos que ele teria perdido mais ou menos que isto. Era sábado, 8 horas da manhã. Quantos dias de caminhada homens e animais fariam até ao destino? De que se alimentariam?
Muandamatela levava quase nada como mantimento, com ele vimos apenas uma garrafa plástica com água. Para trás, deixava duas mulheres e cinco filhos. A chuva irá determinar o seu regresso a casa. “Não sei quando vai chover” disse num português ao seu jeito. Logo, o regresso também é uma incógnita. Como um bom pastor, tudo tentava fazer pelo seu rebanho, sua riqueza.
O Braz, nosso motorista, intérprete e cicerone ofereceu ao homem um pacote de bolachas salgadas e eu uma garrafa de água mineral e despedimo-nos. Nós de carrinha para o sul, em direcção ao Virei, e os três pastores, a pé para o norte, numa transumância antecipada por falta de água e de pasto para o gado. Estava ali desenhado o prenúncio do que mais tarde confirmaríamos.
Já na comuna sede do Virei, achámos um boi adulto meio desfalecido. O pescoço hirto garantia que ainda estava com vida. Foi deixado para trás pelo seu rebanho e pastor. Estava bastante debilitado. Não conseguiu alcançar a cacimba que ficava a menos de 100 metros do local em que perdeu as forças. Entendidos em gado estimaram que entre dois ou três dias seria cadáver. Uma baixa para alguns dos pastores.
No centro da sede da comuna do Virei, avistámos mais de 10 pastores e as suas respectivas manadas à volta de três cacimbas. A nascente maior não teve água este ano. Entre as duas mais pequenas, uma tinha um pouco mais água do que a outra. Os animais magros e sedentos mostram-se impacientes, queriam alcançar o único bebedouro existente. Bovinos, caprinos e ovinos eram acalmados pelos pastores. Ali, tinha que se respeitar a vez de chegada. No interior da cacimba, uma mulher passava os baldes com a água.
Os pastores que eram dos arredores da sede municipal, adivinhando que a água em breve acabaria, faziam planos para migrar para o norte ou leste. Por isso, queriam as guias que a administração comunal emite para ter o controlo de pastores e de gado que sai da região. Presenciámos dois pastores a pedi-las a um responsável da instituição. Era urgentíssimo deixar a vila. O sinal já marcava a cor vermelha. A seca estava visível no aspecto do gado, nos rostos das pessoas, nas ruas, na vegetação e pela escassez de legumes e cereais no mercado local. Hora de partir.

Estiagem nunca vista

Com uma população estimada em 38,538 habitantes, o Virei tem 30 mil pessoas afectadas pela estiagem extrema. Mais de 145 mil bovinos, mais 500 mil caprinos e mais 260 mil ovinos que dependem de pasto natural correm o risco de morrer ou parte já terá morrido.
Cipriano Ngalangunga vive ali há 31 anos e garante que nunca assistiu nada igual. “Os mais velhos que nunca saíram daqui acreditam que isto é coisa de outro mundo. Nunca viram isto.” Reforça que, pelas suas contas, já não chove como tal há 17 anos, embora alguns estimem que as chuvas estejam a faltar há sete anos. “Aqui no centro do município, a chuva deixou de cair, devidamente, em 2002. Na periferia chovia. Mas este ano não choveu. É um problema sério”, avalia.

Vítimas

Mais ou menos tempo, o facto é que o problema é mesmo sério. A seca já matou estimadamente 478 bovinos, 237 caprinos e 315 ovinos. Desta última espécie, uns morreram pela seca outros por uma doença desconhecida que há três anos vem dizimando, inclusive, animais saudáveis.
“As autoridades sanitárias, embora estejam a par da situação e tenham levado as amostras, ainda não determinaram a doença, nem a causa da morte repentina dos ovinos”, esclarece Cipriano Ngalagunga, administrador municipal adjunto para a área Política, Social e da Comunidade do Virei.
A situação actual é bastante penosa. “A seca desta vez é um pequeno fim do mundo. Se não tiver uma intervenção rápida do Governo, a seca não só vai dizimar os animais como também as pessoas”, alerta esta autoridade local, sustentando que, se este escassearem, as crianças que se alimentam do leite de cabra e os adultos da carne dos animais não terão o que comer, nem para permuta ou venda noutras localidades. Logo, haverá registo de vítimas humanas.

Pastores migram

Com a seca sem precedentes, até sábado, 4, 101 pastores de gado já tinham sido forçados a migrar para outras localidades ou províncias consideradas mais favoráveis. O gado não foi contabilizado. O município do Virei tem uma extensão de 15,092 e o administrador adjunto, Cipriano Ngalangunga, prevê que, como a estiagem tende a agravar-se a cada dia, “nenhum gado vai ficar aqui. Até Agosto ou Setembro, em todo o Virei não terá gado. O que for encontrado é fantasma.” A movimentação de pastores cimenta a sua tese. Neste processo, rapazes pastores, em idade escolar, seguem as manadas, deixando as salas de aula mais vazias.
A seca extrema está a provocar uma migração atípica de homens e gado para o norte. Cipriano Ngalangunga observa que no passado não era frequente a transumância para o norte. “Era habitual a transumância para o leste, quase ao município vizinho que é Tchiange, ou para sudeste que é Curoca. Agora, a rota é para leste. Os pastores estão a levar, principalmente, gado bovino. O outro fica para trás.”
No roteiro da transumância, geralmente ente Bibala/Kaito, vão, como de costume, acontecer rixas pela disputa das áreas com água e pasto. Também poderá registar-se roubo de gado. Afinal, é cultura os cuvales adquirirem gado por “houpa” - herança- ou “ehako” - desenrascar.

Furos custam milhões

Confirmado o mau presságio pela comunidade de pastores de gado e mesmo pelas autoridades do município do Virei, agora há que se buscar uma saída urgente para debelar os reais efeitos da seca. cereais e sete furos de água deverão ser abertos, nos próximos dias, como medida de execução imediata.
As localidades de Mbeua, Leonkheyama,Tchitundu Hulu, Nandundo, Malola, Tchacuto e Mumbe serão as beneficiadas, porquanto são as mais afectadas, segundo Cipriano Ngalagunga. Os furos vão custar 136 milhões de kwanzas. A verba já existe.
No seguimento desta medida, a Administração do Virei pretende recuperar os furos artesanais existentes ao longo do rio Bero. Ao todo, serão necessários 250 furos para acudir 2.550 agricultores uma vez que estes também estão a ser seriamente afectados pela estiagem.
A seis quilómetros da comuna sede do Virei, na direcção de Cavelokamue, na povoação de Wetambore, encontrámos um furo convencional que bombeia água para as torneiras acopladas e serve a população e os animais locais. Apesar deste benefício, a água que sai das torneiras das 9 às 14 horas, é insuficiente para ajudar no plantio de qualquer cultura. Na zona, também não há pasto para o gado. Ali, um cabrito estava a ser permutado por comida. Há fome na região.

Acções em curso para acudir a situação

Cumprindo com as orientações do Executivo central, a Administração Municipal do Virei pretende actuar com base na emergência. Assim, tem como necessidade prioritária a aquisição de quatro camiões-cisterna com capacidade de 20 metros cúbicos para o abastecimento de água às localidades afectadas. Detalhe: os camiões escolhidos são da marca Mercedes.
O município do Virei também tem necessidade de adquirir 375 mil quilos de milho, 17 mil 550 quilos de feijão, 19 mil e 500 sacos de arroz de 25 quilos cada. A concretizar-se o financiamento para cobrir esta pretensão, os produtos serão distribuídos por fases, num período de três anos.
Até agora, o que existe em termos de bens alimentares são 250 sacos de arroz de 25 quilos cada, 250 caixas de massa alimentar, com 20 pacotes cada, 100 sacos de fuba de milho, com 25 quilos cada e 250 caixas de óleo alimentar, com 12 garrafas cada. Estes produtos chegaram ao município do Virei por intermédio da Protecção Civil e Bombeiros local que os recebeu da Comissão Provincial de Protecção Civil. “Infelizmente, esta quantidade de alimentos estimados por agregado familiar é insuficiente para beneficiar mais de 30 mil pessoas, é insuficiente. Por isto, ainda não foram distribuídas... ”, explica o administrador adjunto do Virei para a área Política, Social e da Comunidade.

200 milhões para o Virei

De acordo com Cipriano Ngalagunga, dos 1000 milhões cabimentados à província do Namibe, 200 milhões caberão ao município do Virei. O valor ainda não está disponível, mas está destinado à compra de cereais e à abertura de 30 furos convencionais de água, implementação do sistema solar e bombas volantes.
À espera da materialização das intenções, a população, o gado e a agricultura do Virei terá ainda que depender de si mesma para reviver, apesar do empenho pessoal do Presidente da República, João Lourenço, que no dia 3 visitou a Vala do Curoca e constatou os efeitos da seca naquela localidade.
Às 11 horas da manhã, deixávamos a sede da comuna do Virei, o sol queimava a valer, secando mais a terra, naturalmente árida. Em segurança, fizemos bem os dois trajectos. Vimos os mulolas (riachos) secos. Apenas nos indicavam os caminhos que as águas das últimas chuvas seguiram. Apreciámos a resistência dos cactos do deserto que tem a Welwitscha Mirabíilis como ex-líbris.
Também, algures no deserto, deparámo-nos com uma jazida de mármore, enormes pedras já tinham sido extraídas. Pensámos: estas “pérolas” negras, se exportadas e vendidas em moeda forte dariam um bom dinheiro para pagar os furos de água. Embalados nas nossas teorias deixámos o Virei.
Estava quente, sem o nevoeiro das 6 horas da manhã, reparámos que o túmulo de Ruy Duarte de Carvalho estava à direita da estrada que dá entrada para o município, no sentido cidade de Moçâmedes, como que a proteger a comunidade de pastores que ele muito estimava. Numa lápide, está escrito: “Vou lá visitar pastores”, como o título do seu livro dedicado à comunidade pastorícia Cuvale. Este também é o nosso desejo. Oxalá, a vida da população mude para trazermos boas notícias.

 

Tempo

Multimédia