Reportagem

Zona Verde 3 com falta de quase tudo e em risco de ser engolida pelas ravinas

César Esteves

Zona Verde 3, no Distrito Urbano de Cabolombo, município de Belas. Um bairro modelo em termo de autoconstrução dirigida. Ruas largas, com casas, cuja beleza arquitectónica é de encher os olhos, mas peca por falta de asfalto, saneamento básico, água corrente e electricidade da rede pública. Há ainda falta de hospitais públicos, escolas e recintos de lazer.

Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro

Arquitectada em 2003, mas de lá para cá, a Zona Verde vai decaindo aos pedaços, por conta das ravinas que vão progredindo. 70 por cento dos 49 quilómetros quadrados de extensão territorial estão afectados pelos buracos. 

Boa parte das ruas foram engolidas por água parada e lama à mistura, em consequência das últimas enxurradas que caiu sobre Luanda.
Devido a essa situação, que se torna mais grave quando chove, muitas ruas encontram-se, neste momento, intransitáveis, situação que tem dificultado a normal circulação de viaturas na área.
Em 2017, a zona beneficiou de um trabalho de terraplanagem profunda, que permitiu o melhoramento de algumas ruas, mas, de lá para cá, nunca mais houve uma intervenção ainda que seja paliativa.
A administradora do Distrito Urbano do Cabolombo, Cecília Laureano, esclarece que o trabalho de terraplanagem foi feito, na altura, pelo Governo Provincial de Luanda e não pela administração distrital. “As máquinas utilizadas da empreitada também não são nossas”.
Cecília Laureano apontou as ravinas como um dos problemas que mais afligem o seu território. “Elas impedem-nos de realizar algumas visitas de campo”, frisou.

Água e energia
Criado com base na Lei 18/16-17 de Outubro, lei da nova divisão politica administrava, o Distrito Urbano do Cabolombo enfrenta ainda problemas de fornecimento de energia eléctrica e de água potável.
As famílias aí residentes dependem, na sua maioria, apenas de água das cisternas. O projecto do precioso líquido apenas abrangeu um número insignificante da população.
Os camiões cisterna cobram, por tanque de água 12 mil litros, 21 mil Kwanzas, conta a moradora Isilda Domingo, que considera um gasto exagerado, porque, nalguns casos, compra-se o líquido duas vezes por mês, o que torna difícil para quem tem de desembolsar outros valores para pagar propinas, transporte, hospital, etc, etc.
“Não é fácil morar neste bairro, tudo é caro. Água é dos piores problemas e é importante que o governo tenha em atenção este aspecto. Não podemos continuar a viver assim, como se não fizéssemos parte desta comunidade”.
Quem corrobora é João António, nome feticio, morador do bairro há dez anos. Diz que é difícil viver de cisternas, sem que se saiba de onde veio a água. “Vivemos porque há um Deus que nos ama, porque, de resto, estaríamos todos mortos”.
João Manuel receia da água cisterna, porque muitos abastecem os camiões em locais impróprio para o consumo humano, mas não tem outra alternativa senão optar em consumir o líquido.
Tal como os demais habitantes da zona Verde 3, Miguel Joaquim não tem dúvida que a água é um dos grandes problemas, aliado a energia da rede pública, dois componentes essenciais para as comunidades. “Vamos continuar a viver assim até quando?”.
Perante lamúria da comunidade, a administradora informou que está em curso, na zona, um projecto de distribuição de água, denominado CD Cabolombo”, que vai permitir a chegada do líquido ao distrito. “Já está a 50 por cento avançado. A garantia é que ainda este ano ficará concluído”, garantiu a responsável.
Este projecto, prosseguiu, vai beneficiar 338 mil famílias não só do distrito do Cabolombo, como os dos vizinhos Vila Verde, Ramiros e Morro dos Veados.
Em relação ao fornecimento de energia eléctrica em apenas alguns bairros do distrito do Cabolombo, a administradora garantiu que as áreas que não foram contempladas vão beneficiar do serviço na segunda fase do projecto ligações domiciliares, que deve arrancar a qualquer momento.

Delinquência
A delinquência é outro problema que muito aflige os moradores daquele distrito. Alguns falaram à nossa reportagem, na condição de anonimato, e contaram que as principais vítimas dos meliantes são os motoqueiros.
“Eles também entram nas casas", frisou um dos moradores. Os motoqueiros, segundo um morador, não circulam muito de noite, porque os meliantes ficam nas esquinas para receber as motorizadas.
Os moradores disseram ainda que o índice de delinquência no distrito, com destaque para o bairro Zona Verde 3, tende a aumentar nos últimos dias, porque há fraca iluminação em algumas ruas e muitos terrenos abandonados, que servem de esconderijo dos marginais.
Cecília Laureano reconhece que houve momentos que a situação estava insustentável, mas disse que nos dias de hoje o índice de criminalidade no distrito já não é tão preocupante.
Para combater a onda de delinquência no distrito, a administração, em colaboração com a Polícia Nacional, tem realizado encontros de auscultação sobre segurança pública, aos sábados, com os moradores, no sentido de se resolver o problema.
A administradora explica que com este esforço complementar, o nível de delinquência baixou consideravelmente, o que faz com que a população ganhe confiança no trabalho que está a ser desenvolvido para atenuar a onda de criminalidade.
Em relação à pouca iluminação em algumas ruas do distrito, a administradora disse tratar-se de uma tarefa que ultrapassa as suas competências. Esclareceu que a responsabilidade para colocar postos de iluminação nas ruas é do Governo Provincial de Luanda.
“O que temos feito é sensibilizar as famílias a colocarem lâmpadas fora de casa, para desincentivar a delinquência”, realçou. Sobre os terrenos abandonados no distrito, muito dos quais servem de esconderijo dos marginais, Cecília Laureano disse que têm notificado os seus donos, no sentido de darem alguma utilidade aos espaços.
O chefe do posto policial da Zona Verde 3, que compreende o Distrito Urbano de Cabolombo, inspector-chefe Luís Catete, disse que se comparado com o passado, o ambiente que se vive hoje é de muita calmia.
Entretanto, reconheceu a falta de iluminação pública em muitos bairros, bem como vias de difícil acesso, que condicionam, em alguns casos, a realização de certas operações na zona. “Também sofremos com as ravinas”, realçou.

Falta de escola pública

Outro problema que muito aflige aquela circunscrição de Luanda é a escassez de escolas públicas. Com uma população estimada em 42. 930 mil habitantes, o distrito, com seis bairros, só dispõe de duas escolas públicas: uma no bairro Sossego e outra no Luquembo. A administradora distrital admitiu tratar-se de uma situação que prejudica o distrito.
A Zona Verde 3, que é o maior bairro do distrito, não tem nenhuma escola pública. Cecília Laureano anunciou a construção de uma escola pública nessa localidade, cujas obras devem arrancar, provavelmente, este ano.

Distrito Urbano
O Distrito Urbano do Cabolombo compreende algumas áreas anteriormente pertencentes à comuna do Benfica. Está constituído por seis bairros, nomeadamente Zona Verde 3 (o maior de todos), Luquembo, Sossego, Camama 2, Tanque Seco e Canhanga. Foi criado no âmbito da nova divisão política e administrativa.

Segunda fase da ligação domiciliar está dependente de novo financiamento

As famílias do Distrito Urbano do Cabolombo, que não foram abrangidas na primeira fase do projecto das ligações domiciliares, financiado pela linha de crédito da China, vão ser contemplados na fase posterior, garantiu, ontem, em Luanda, o técnico da Empresa Nacional de Distribuição de Energia (ENDE) Pedro Francisco.
Em declarações ao Jornal de Angola, o engenheiro electromecânico informou que a segunda fase do projecto está dependente de um novo financiamento técnico da ENDE e faz parte do programa de electrificação e ligações domiciliares da província de Luanda.
Pedro Francisco disse que, no âmbito da primeira fase do projecto das ligações domiciliares, o Distrito Urbano do Cabolombo foi contemplado com 34 PT, que beneficiaram cerca de 13 mil famílias.
O técnico esclareceu que o projecto não abrangeu mais famílias porque a fatia destinada ao município de Belas não permitiu e lembrou que a circunscrição foi contemplada com 106 PT, que permitiram à ligação domiciliar de 32 mil famílias.
"É programa do Governo fazer chegar a energia a todas as famílias de Luanda", frisou, para acrescentar que o distrito do Cabolombo só dispunha de oito PT, mas, com a chegada do projecto de ligações domiciliares, recebeu mais 34, uma subestação e redes de média tensão.
Com isso, explicou, o distrito passou a contar com um activo que vai permitir dar sequência ao processo de electrificação de mais casas, sem depender do arranque da segunda fase do projecto das ligações domiciliares. O projecto de electrificação e ligações domiciliares, de acordo com Pedro Francisco, foi consignado em 2016 e ficou orçado em 675 milhões de dólares.
Foi concebido para a construção de novas subestações e mini PT com potências diferenciadas, que permitiu cerca de 300 mil ligações na província de Luanda.

 

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