Sociedade

Agente da Polícia detido por suspeita de assassinar a mulher e ferir enteada

Roque Silva

Uma mulher de 35 anos e mãe de 10 filhos foi morta a tiro, no final da tarde de sábado, e o principal suspeito do crime é o próprio marido, um agente da Polícia Nacional, detido no mesmo dia, na moradia em que viviam, no bairro Bita Tanque, adjacente à Cidade do Kilamba, município de Belas, província de Luanda.

Familiares afirmam que, nos 10 anos de relacionamento, o casal brigava constantemente.
Fotografia: Edições Novembro

A mulher, identificada como Verónica Makiesse Ngombo, foi baleada em casa, mas morreu no Hospital Geral de Luanda, onde também deu entrada a filha de 13 anos, por ter sido também atingida pelo disparo feito pelo agente da Polícia Nacional, identificado como José Manuel, de 53 anos.

Mãe e filha, enteada do agente, foram atingidas por um único disparo feito de forma aleatória pelo efectivo da Polícia Nacional, no decurso de uma discussão com a mulher, por esta não ter lavado um uniforme da corporação, orientação que havia recebido do marido ainda no período da manhã.
O agente da Polícia Nacional, quando regressou a casa, por volta das 15 horas, visivelmente embriagado, informação de que uma irmã da malograda, que falou ontem ao Jornal de Angola, tomou conhecimento através de vizinhos, entrou em discussão com a esposa depois de ter ouvido da companheira que, por ter tido outros afazeres domésticos, ainda não tinha lavado o uniforme.

A discussão aconteceu no quintal e na presença de filhos e enteados do agente da Polícia, um dos quais a menina de 13 anos, que, para evitar o pior, por saber que o pa-drasto estava armado, ficou no meio do casal, tendo de seguida levado a mãe para dentro de casa, no interior da qual o agente não entrou por a enteada ter trancado rapidamente a porta que dá acesso à sala.

Vizinhos ouviram o disparo

“Os vizinhos ouviram um único disparo”, contou ao Jornal de Angola Madalena Ngombo, que disse terem alguns vizinhos chegado à casa da irmã, em cujo quintal encontraram o agente sentado e a pistola no chão. Depois de terem visto na porta os estragos causados pelo disparo, alguns vizinhos arrombaram a porta da sala da moradia e outros impediram que o agente da Polícia Nacional fugisse do local. Mãe e filha foram encontradas deitadas. O único tiro feito pelo agente da Polícia Nacional atingiu a senhora no abdómen e ficou alojado no tórax da menina, depois de ter perfurado um dos braços.
Mãe e filha foram transportadas por uma viatura de serviço de táxi para o Hospital Geral de Luanda, onde a primeira acabou por falecer, depois de ter sido submetida a uma cirurgia de emergência, encontrando-se, até hoje, a menor internada na unidade sanitária pública e fora de perigo de vida.

Hospital Geral

Madalena Ngombo, enfermeira do Hospital Geral de Luanda, acentuou que a irmã não resistiu aos ferimentos, por ter perdido muito sangue, desde a moradia em que vivia até à unidade hospitalar pública. “Houve também alguma demora, porque a viatura alugada pelos vizinhos avariou várias vezes”, explicou a irmã, que disse terem as vítimas sido colocadas, depois, numa ambulância do Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola (INEMA), a bordo da qual chegaram ao Hospital Geral de Luanda, si-tuado no município do Ki-lamba Kiaxi.
A menor baleada, de acordo com a tia, “está clinicamente estável, mas assustada e deprimida por ter vivido uma cena de terror”.
Segundo Madalena Ngombo, o casal teve uma relação de 10 anos, com brigas constantes, incluindo agressão aos enteados, que eram, assim como a mãe, ameaçados constantemente de morte.
A irmã da malograda ilustrou, por exemplo, duas cenas de violência, na primeira das quais, registada no ano passado, o agente da Polícia Nacional fez tiros para o ar quando ameaçava a mulher, filhos e enteados e, na segunda, em Fevereiro último, efectuou disparos para o chão do quintal.
Madalena Ngombo acentuou, na conversa com o Jornal de Angola, que só depois da morte da irmã é que tomou conhecimento ao pormenor da relação turbulenta que Verónica Makiesse Ngombo teve com José Manuel, terceiro subchefe da Polícia Nacional, destacado na unidade da Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo.

“A minha irmã sofreu calada durante anos”

“ A minha irmã, afinal, sofreu calada”, lamentou a técnica de enfermagem, que, citando filhos da malograda, disse ter a irmã recebido do marido ameaças de morte ainda no período da manhã do dia em que foi assassinada.
O marido da vítima foi leva-do por vizinhos até à esquadra do sector Mukula Ngola, pertencente ao bairro Bita Tanque, onde está localizada a moradia em que ambos viviam, tendo sido depois transferido para o Comando Municipal de Viana, de onde saiu para uma cela provisória da Direcção Provincial do Serviço de Investigação Criminal (SIC) de Luanda, aguardando transferência para a Cadeia de Viana.
Ontem, ao telefone, o porta-voz do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional, intendente Hermenegildo de Brito, declarou que a Polícia vai pronunciar-se, nos próximos dias, sobre mais um caso envolvendo um efectivo da corporação, depois de, no ano passa-
do, um agente ter assassinado a mulher e colega, encontrando-se, até hoje, foragido.
A malograda Verónica Ngombo foi mãe de 10 filhos, cinco dos quais de uma relação anterior. O número de filhos é resultante do facto de ter gerado três pares de gémeos, dois dos quais frutos da relação conjugal que teve com o agente da Polícia Nacional. Os filhos mais pequenos são gémeos, do sexo feminino, e têm um ano e seis meses, enquanto o primogénito tem 17 anos.
Os restos mortais de Verónica Ngombo vão a sepultar às 10h00 de amanhã, no cemitério da Camama.

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