Sociedade

Água de vala residual é vendida para uso doméstico em Luanda

Rodrigues Cambala |

Mal a viatura da reportagem do Jornal de Angola se aproxima a uma distância de 200 metros, vemos um grupo de mais ou menos 20 rapazes de calções e cuecas, ensopados de água da vala de drenagem, a fugir como se visse o “rei da selva”.

Na zona de enchimento das cisternas há muitas mangueiras que retiram diariamente água insalubre de uma vala localizada na zona industrial do Kikuxi
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Uns penduram-se à  pressa  para retirar brutalmente as mangueiras do orifício das cisternas dos dois camiões ali estacionados e outros correm em desespero para o meio de uma mata verde com capim alto e fechado. O “sprint” não é para premiação, mas para desligar as motobombas.
Em poucos segundos, as seis mangueiras, iguais àquelas de combate a incêndio, deixam de jorrar água. A tarefa é difícil para quem está por cima da cisterna. Além de desconectar a mangueira do camião, tem de se atirar ao chão e fugir como ladrão.
Já estamos a 100 metros. Um motorista de camisola de alças gesticula com todas as garras e formas ao seu alcance. Levanta os braços. Olha para trás. Debruça-se e tenta ajudar a puxar as mangueiras. Corre à volta do camião. Parece muito nervoso. Encontra uma solução: abre a porta do camião e arranca em bólide num troço íngreme, levando consigo um coração latejado de medo. Um outro homem adulto, de calções e chinelas de borracha, abandona a sombra de uma árvore frondosa e se põe na mata. Agora só resta um camião já sem ninguém ao lado. As mangueiras estão jacentes no terreno húmido e lamacento.
A fuga dos vendedores da água da vala não travou a objectiva de Eduardo Pedro. Disparava de todas as maneiras e por todos os cantos. Os mais corajosos espreitavam à distância para tentar perceber o que se passava. Quem não foi a tempo de consumar a fuga, fixa o olhar atentamente para nós. E lá estava o engenheiro químico Sebastião da Costa com um bidão, persuadindo um jovem para encher. O jovem de calções desportivo está no interior da vala de drenagem. Ele teve a “nobre” missão de desligar as motobombas invisíveis, por culpa do capim alto. “A motobomba está no meio, ali é fundo, porque a água é mais limpa”, responde um jovem com uma voz de catraio, impedindo o fotógrafo de lá entrar.
Quando no dia 24 de Julho de 2014, o Jornal de Angola fez uma reportagem sobre esse local, denunciando que os proprietários de camiões cisternas vendem água insalubre, retirada directamente da vala que drena águas residuais, pensava-se que a situação estivesse já resolvida. Mas não. O canal está a menos de 400 metros da Via Expresso, sentido Cacuaco-Benfica.
À primeira vista o engenheiro Sebastião Costa avaliou a nocividade da água. Quis, talvez, o Zé, gerente de uma das motobombas, com um diálogo ameaçador ouvir do engenheiro que aquela água era potável. “Enchemos uma cisterna a mil kwanzas e não sei a quanto revendem”, explica, de forma muito lacónico.
Encontramo-lo sentado debaixo de uma árvore. Nem se assustou, nem arredou daí as nádegas. “Vocês não podem fazer fotos. Eu não autorizei”, avançou, num tom duro, olhando para Eduardo Pedro, o nosso fotografo, que se afasta, fazendo ouvidos de mercador.
Passamos uma explicação miúda e baralhada. Deu certo. O engenheiro, o fotografo e, claro, o nosso motorista Fontoura, avisam o repórter dos riscos da nossa presença. Os vendedores de água continuavam a monte.
A reportagem está inconclusiva. Uns miúdos aproximam-se. Um parece ter um tronco na mão.
“Eles estão a pensar que viemos estragar o ganha pão deles”, pensa o engenheiro, merecendo unanimidade de outros companheiros. Que solução!!!!!!!! O repórter lança um concurso para a lavagem dos pneus do carro. Dois candidatos ganham a selecção a troco de 500 Kwanzas. A paz está decretada com os homens da vala.
De seguida, oferecem-nos um saco pintalgado com umas sete mangas. O Profeta António e Hossi Cassoma limpam com esmero o carro. Profeta? “Sim, é meu nome”.
Ainda bem que não passa só de nome, pelo menos não vai prever nada. Falou, apenas, que é natural de Luanda, tem 16 anos e vive com o pai. Quer o rosto quer a voz são opostos à malícia.
“O Zé e o outro moço são donos destas motobombas”, confidencia em surdina. “A polícia aparece aqui e levam os donos dos camiões num canto e cobram dinheiro”, confessa Profeta, que vê a sua palavra reforçada por Hossi, um rapaz de Benguela com uma musculação que nos remete para Mandume, Rei dos Kwanhamas, cujos feitos de resistência são repartidos entre Angola e a Namíbia.
“Os polícias cobram  dinheiro e depois vão embora”, conta Hossi, de cueca azul e tronco nu. Mas Zé corrobora: “os polícias pedem 200 kwanzas e depois vão”, conta, com um sorriso fechado.
Na zona de enchimento dos camiões cisternas há muitas mangueiras. Dizem que há abelhas, ao invés de trepar, eles jogam pedras para saborear a fruta. Zé, só diz o seu nome quando estávamos em pé para nos retirarmos. Tem a barba e suíça desenhadas a preceito. Sentamo-nos nalguns bancos improvisados. A cadeira de Zé parece confortável. É uma velha cadeira de carro. As suas costas só terminam no encosto, onde as molas de arame são visíveis. Fala e olha com alguma desconfiança e desprezo. “Os camiões vendem nas obras”, insiste, sem dizer que obras.
Se há três anos informámos que os camionistas, depois de abastecerem as suas cisternas com esta água, colocavam lixívia e vendiam-na como potável aos pacatos cidadãos, nos dias de hoje a cena se repete. Informam os jovens vendedores de água da vala que alguns introduzem cloro, em grandes quantidades, para eliminar o cheiro e baixar algumas partículas. “Com cloro fica limpa, o lixo fica em baixo e uns vendem essa agua”, explicam os jovens.
A maioria dos jovens é proveniente de Benguela. Hossi, por exemplo, mora naquela mata com muitos outros miúdos da sua idade.
Sem receio, aponta para um colchão, sórdido e velho, como sendo a sua cama.
“Os donos da motobomba pagam-nos, por dia, mil kwanzas e, desta forma, fazemos a nossa comida”, conta Hossi, sem largar o balde preto de água.
A vala drena água das indústrias localizadas naquela circunscrição e da Estação de Tratamento do Kikuxi. Quinze minutos depois, o homem adulto de calções e de chinelas de borracha, provavelmente já na casa dos quarenta, passa por nós. Faz uma saudação tímida e fria. Caminha até à vala e, de seguida, abre a porta do camião, saindo em velocidade com o tanque quase vazio. Ah! É o motorista que estava em fuga.

                                                              “Devia haver água suficiente para consumo humano”
O engenheiro químico
Sebastião da Costa assevera que a água da vala é imprópria para o consumo humano, por apresentar cheiro e uma cor amarelada.
Olhando para a vala, coberta de capim, explica que, dentro das características da água, o precioso líquido deve ser insípido, inodoro e incolor. Em relação à introdução de cloro ou outros produtos químicos por parte dos proprietários de camiões cisternas, diz que a potabilidade da água não é definida a olho nu, mas tem de se ter em conta os parâmetros para evitar os elementos nocivos à saúde do próprio homem.
Sebastião da Costa disse que, em termos de consequência, deve-se, primeiro, chamar a responsabilidade de quem de direito, visto que “a vala recebe águas residuais de indústrias e da Estacão de Tratamento do Kikuxi.
“Não se sabe que tipo de produtos as indústrias cá situadas atiram nesta água”, diz, acentuando que a mesma água não pode servir de uso doméstico, mesmo que eles coloquem sulfato de alumínio para facilitar a sedimentação das partículas e torná-la clara.
A OMS diz que a água para o consumo humano deve ter uma concentração de 0,2 a 0,5 miligramas de cloro por cada litro, para garantir que não haja agentes patogénicos.
Para acabar com o consumo de água imprópria, o engenheiro químico defende que, primeiro, deve haver água suficiente para o consumo humano, mormente ao domicílio. “Esta gente faz este trabalho de venda de água insalubre, porque uma fatia da população carece deste bem precioso”, supõe, lamentando os níveis baixos de acesso à agua potável.
Ao admitir ser um atentado à saúde pública a venda e consumo de água imprópria, acrescentou que a água para consumo humano deve observar os parâmetros organolépticos e físico-químicos, microbiológicos e concernentes a substâncias indesejáveis.

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