Sociedade

Altas tarifas de água deixam consumidores agastados

Augusto Cuteta

António André está, há cerca de hora e meia, numa fila na agência da Empresa Provincial de Águas de Luanda (EPAL), sediada na Cidade do Kilamba, para ver explicada a razão da subida vertiginosa da tarifa doméstica de Junho, que atingiu os 23 mil kwanzas, quando nunca tinha dívidas acumuladas.

Quase todos os dias a agência da EPAL na Cidade do Kilamba regista grandes enchentes
Fotografia: Paulo Mulaza|Edições Novembro

No mês anterior, o  morador do bloco U afirma ter pago 1.700 kwanzas, valor que era cobrado nos primeiros meses do ano passado. Mas, desde finais de 2017, as contas vão oscilando e, às vezes, de forma assustadora. É o que lhe acontece exactamente nesta altura.
Por causa disso, quase todos os dias, com maior realce para as manhãs de sábado, a agência da EPAL do Kilamba regista grandes enchentes. Além dos que vão efectuar o pagamento das contas, a grande maioria dos utentes acorre ali em busca de esclarecimentos sobre os altos valores das tarifas.
Nessas idas e voltas à agência, conta, muitos encontram respostas sobre o valor das cobranças feitas pela operadora, mas grande parte dos moradores sai insatisfeita, uma vez que os técnicos em serviço parecem nunca estar capacitados para esclarecer com rigor os procedimentos que ditam as tais tarifas do consumo de água.
Por causa dessa situação, António André dirige-se com frequência para a sede da EPAL, no Largo do Pelourinho, mas, ali a surpresa foi ainda maior. O operador em serviço apresentou facturas de Dezembro de 2017 a Maio deste ano, quando  já estão pagas, como provam as cópias passadas pela agência do Kilamba.
Estupefacto, o cidadão voltou à agência e pagou  23.000 kwanzas, para evitar a multa de 20.000 kwanzas, caso lhe fosse cortado o abastecimento. “Para voltarem a ligar a água, seria obrigado a pagar essa tal multa, além dos actuais 23.000. Desse jeito, paguei só os valores de Junho, mas vou atrás desse assunto até esclarecerem bem o que se passa”, adverte.
Enquanto isso, a agência da EPAL do Kilamba continua a receber dia após dia centenas de moradores daquela zona em busca de esclarecimentos.
Fineza António diz que nunca mais teve facturas com valores abaixo dos 5.000 kwanzas, o que considera um “absurdo”. Ela explica que “na minha casa, somos cinco, mas eu e o meu marido saímos cedo e só voltamos à noite. Os nossos filhos são meninos e passam a vida na escola”.
Dona Fineza recorda que já chegou a ter notas de cobranças mensais que excederam os 11.000 kwanzas.
“Até hoje, não consigo entender os valores tão altos que pagámos, quando os do Sequele e de outras partes de Luanda pagam muito menos que nós!”, lamenta.

Tarifário nacional
Os moradores sentem que o Plano Tarifário da Água Potável, recentemente aprovado pelo Executivo, não está a ser aplicado a nível da Cidade do Kilamba.
    O documento realça que, na categoria doméstica social, a cobrança de consumo é de zero a cinco metros cúbicos, para habitações com famílias de baixa renda, cujos consumos diários não ultrapassam os 166 litros.
Para esse caso, explica António André, que tem cópia do Diário da República em mãos, a tarifa variável para a província de Luanda seria de 117 kwanzas por metro cúbico, enquanto a fixa mensal não passaria dos 250 kwanzas.
O morador, professor de profissão, avança ainda que a nível da categoria doméstica-escalão 1, a tarifa variável do consumo dos cinco a dez metros cúbicos seria de 211 kwanzas, para a fixa mensal chegar aos 400 kwanzas.
Além desses dois escalões, o diário esclarece que há o consumo doméstico-escalão 2, que tem a ver com os superiores aos dez metros cúbicos, em que a tarifa variável é de 267 kwanzas e a fixa mensal é de 760 kwanzas.
“Pedimos a intervenção dos ministérios das Finanças e da Energia e Águas, assim como do Instituto de Defesa do Consumidor, para que se inverta a situação. Estamos a sentir que isso se trata de uma roubalheira”, desabafou António André. “Este   problema está a deixar-nos bastante agastados”, rematou. 

EPAL em silêncio
O Jornal de Angola, por mais de duas semanas, esteve em contacto com o Gabinete de Comunicação e Imagem da EPAL, mas esta área mostrou-se incapaz de esclarecer o assunto.
A explicação do porta-voz, Vladimir Bernardo, em conversa mantida via telefónica, era de que o assunto das cobranças tem a ver com a área comercial e, até sábado, este departamento da EPAL ainda não tinha respondido a todas as questões que o jornal enviou.

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