Sociedade

Betão substitui relva em espaços para árvores

César Esteves

Lugares projectados para espaços verdes, na província de Luanda, encontram-se completamente desprovidos de relva, plantas e árvores, constatou o Jornal de Angola, numa ronda efectuada a várias zonas da capital.

Na maioria das artérias de Luanda, a areia e betão ocuparam lugares que seriam para relva
Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

Uma fonte que falou para o Jornal de Angola apontou a falta de irrigação permanente e de uma programação para o tratamento dos referidos espaços como dos principais motivos para o desaparecimento do aspecto verde desses lugares.
A ausência de reservatório de água e de canalização, em muitos desses locais, que serviriam para irrigar a relva e as plantas, confirmam as declarações da nossa fonte.
O processo de rega dos espaços verdes, prosseguiu a nossa fonte, era feito com água transportada por camiões cisternas, que terão deixado de fornecer o líquido por eventuais falta de pagamento.
Como consequência disso, actualmente, conservando apenas o vermelho do areal, os espaços construídos para emprestarem à cidade capital aquele toque de mágica, aguardam pelo regresso do verde, mas sem a mínima esperança de quando é que isso se tornará real.
Nos poucos lugares onde ainda se pode vislumbrar algum vestígio de relva, esta já não conserva o verde natural que lhe é característico. Está completamente acastanhado e a clamar por substituição.
É o caso, por exemplo, do Largo Samora Machel, localizado em Talatona. Ali, apenas alguns eucaliptos, a volta do lugar, como que a guardá-lo, continuam firmes, conservando um verde já com dias contados. O mesmo cenário é verificado em vários largos e separadores dos municípios do Kilamba Kiaxi, Cacuaco, Luanda, Viana e distritos do Sambizanga, apenas para citar estes.
Como senão bastasse, muitos dos espaços que dariam jeito para implementação de relvas, em vários ponto da cidade capital, estão cobertos de betão.

Excesso de betão

O ambientalista José Alexandre Epalanga disse haver, em Luanda, mais espaços de betão do que verdes e segundo afirmou a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cidades metrópoles tenham no mínimo 12 metros quadrado de área verde por habitante.
“Luanda, infelizmente, ainda não vive essa realidade”, frisou a fonte.
José Epalanga referiu que, depois do conflito armado e quando se começou a reestruturar o país, não se privilegiou um bom planeamento urbanístico e optou-se por se pavimentar áreas que dariam para espaços verdes.
“Por falta de uma visão de futuro, não se olhou para a questão urbanística e ambiental”, realçou o ambientalista alertando que do ponto de vista da saúde, a ausência de espaços verdes pode provocar às pessoas, sobretudo aos grupos mais vulneráveis, como idosos e crianças, problemas de foro respiratórios.
“Há estudos que revelam que a inexistência de espaços verdes tendem a tornar as pessoas mais stressadas”.
A título de exemplo, o especialista disse que no Brasil os terrenos localizados em áreas com espaços verdes custam mais em relação àqueles que se encontram áreas não arborizadas.
José Alexandre Epalanga disse que esse desconforto ambiental pode afugentar turistas que queiram visitar o país. “As pessoas, hoje, querem ter mais conforto ambiental”, frisou.

GPL preocupado

António Mutunda, director de Ambiente e Gestão de Resíduos e Serviços Comunitários do Governo da Província de Luanda, disse ao Jornal de Angola que o estado em que se encontram muitos espaços verdes da cidade capital também os preocupa.
O responsável referiu que no programa elaborado para este fim, que vai vigorar este e o próximo ano, consta um capítulo que trata da revitalização dos jardins dos eixos principais da cidade.
Segundo António Mussunda há em Luanda muitos espaços que foram passados para a gestão privada, cujso responsáveis agora estão a ser chamados paulatinamente para esclarecimentos.
António Mussunda revelou haver alguns contratos onerosos que dificultam o GPL de honrar e, noutros casos, as pessoas que tinham a responsabilidade de tratar dos espaços verdes deixaram de o fazer por motivos que estão a ser apurados.
Icolo e Bengo e Quissama são os municípios mais verdes da província de Luanda.

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