Sociedade

Bié: Missão de Chissamba enfrenta dificuldades para recuperar prestígio

João Constantino | Chissamba

Criada para educar, evangelizar e garantir cuidados de saúde à população local e do município de Catabola, de forma geral, a Missão Evangélica de Chissamba tornou-se referência na província do Bié, particularmente no período que vai de 1928 a 1967.

Fotografia: DR

A proeza coube ao médico canadiano Walter Strangway, que realizou mais de 40 mil cirurgias durante o tempo que esteve em serviço no hospital afecto à instituição. Localizada a 55 quilómetros a leste da cidade do Cuito, e cinco a sudeste da sede municipal de Catabola, decorridos 134 anos desde que entrou em funcionamento, ter acesso à “missão” não se afigura tarefa fácil.

A viagem pode consumir duas horas em estrada de terra batida e alguns troços acidentados. Contudo, o que nos últimos tempos mais inquieta os gestores da instituição são as inúmeras dificuldades para manter o seu funcionamento e recuperar o prestígio que ostentou no passado. O líder espiritual da Missão Evangélica de Chissamba, pastor Paulo Sangueve, diz que muito tem estado a ser feito para recuperar, de facto, o espaço de ouro granjeado no seio da população até finais da década de 60.

“As dificuldades são inúmeras para um lugar que formou quadros para o nosso país e ainda quer continuar a formar”, considerou. Embora muito há por fazer, alguns sinais começam a ser visíveis. Por exemplo, depois de vários anos às escuras, a energia eléctrica tornou-se regular. Paulo Sangueve considera de mais-valia as escolas primária e do primeiro ciclo, o Colégio Reverendo Lumbo, o hospital, a igreja e a casa do pastor, entre outras estruturas que tem sob tutela. Mas, em sentido contrário, lamenta a escassez de recursos próprios para fazer face às despesas correntes.

“O apoio que recebemos do Governo foi para construção da nova escola missionária, quando estávamos com a governadora Cândida Celeste. Tem ainda verbas que serve para gestão do hospital e apoio aos técnicos, tal como os professores que são pagos pelo Governo”, informou. Paulo Sangueve conta que o trabalho missionário é difícil e requer empenho para lidar com as dificuldades e os poucos recursos.

Referiu que dependem essencialmente do contributo dos próprios membros e, inclusive, até mesmo para pregar o evangelho tem valido o espírito de sacrifício dos membros. “Apesar dos contratempos, temos pregado o evangelho. Faltam transportes e outras condições, mas estamos em-penhados porque é realmente a nossa missão, o nosso compromisso”, disse.

Desprovida de internatos

Propriedade da Igreja Evangélica Congregacional de Angola (IECA), a Missão Evangélica de Chissamba está temporariamente privada de internatos e da escola de artes e ofícios, dois elementos primordiais do processo de ensino. “Os professores, enfermeiros e outros funcionários deixaram de ter um espaço para pernoitar caso queiram.

Estávamos a construir uma casa de passagem para a igreja, mas as obras estão paralisadas por falta de recursos”, disse. Por outro lado, o pastor en-tende que o despovoamento ao redor da estrutura deixa-a vulnerável e a mercê dos marginais. Lamentou o estado de vulnerabilidade a que está ex-
posta a missão de Chissamba e salientou não dispor de dinheiro para contratar uma equipa de segurança. “Os meliantes volta e meia realizam as suas acções na missão. É raro passarmos um mês sem assaltos”, denunciou.

Chissamba acolheu ilustres personalidades

Parcialmente destruída no período da guerra civil, o processo de reconstrução da Missão Evangélica de Chissamba emociona quem lá estudou antes da Independência Nacional e tem estado a testemunhar o esforço para se reerguer. É o caso de David Alfredo, 77 anos, que aproveitou a ocasião para revelar ao Jornal de Angola que foi colega de duas grandes personalidades da política angolana.

“Estudei com o Presidente João Lourenço e o ex-presidente da UNITA, Isaías Samakuva. Naquela altura, éramos crianças e eu como mais velho cuidava deles”, disse. David Alfredo, que actualmente lecciona aulas de alfabetização, recordou ainda que várias vezes foi tratado e medicado pelo médico-cirurgião Walter Strangway.

“Foi um médico muito querido pelos habitantes da região. Eu sofria de constantes dores no estômago e muitas vezes fui tratado por ele, porque estudava e vivia no internato da missão”, disse. Sequeira Lourenço, pai do Presidente da República, João Lourenço, é outra personalidade que emprestou o seu saber ao Hospital Missionário de Chissamba no período compreendido entre 1928 a 1967, conforme atesta no quadro de pessoal de enfermagem da instituição.

Vandalização de instituições escolares

A escola e o colégio da Missão Evangélica de Chissamba são constantemente vandalizados. Portas arrombadas, vidros partidos, enquanto as carteiras, quadros e outros artigos foram roubados. É o cenário que as duas instituições escolares apresentam. Professora há 12 anos no colégio missionário, Mara Mimi Jamba mostra-se triste com os recorrentes actos de vandalismo.

“Não temos segurança, de dia tudo bem, mas à noite se torna muito perigoso devido aos assaltos. Como podem ver, as salas não têm porta e tudo aqui tem sido vandalizado”, lamentou Mara Mimi Jamba, ao mesmo tempo que distribuía o programa de aulas aos alunos. Segundo constatou o Jornal de Angola, o estado actual da escola é extremamente preocupante.

À semelhança das portas e janelas, os processos individuais dos alunos foram destruídos. “Nesta altura, seria ne-cessário repor tudo que foi vandalizado. Precisamos de condições para higienização, não temos água e como estamos em fase da pandemia da Covid-19, o material de biossegurança é essencial”, afirmou Mara Mimi Jamba, realçando que as quatros salas de aula e o auditório foram totalmente vandalizados.

Tempo

Multimédia