Sociedade

Capital do Namibe volta a ser Moçâmedes

Manuel de Sousa | Namibe

Moçâmedes, capital da província do Namibe, comemora a 4 de Agosto  o 167.º aniversário da sua fundação. Nos últimos anos, a cidade regista avanços significativos no capítulo das infra-estruturas e programas de impacto social, com destaque para as estações de tratamento de água para consumo e residuais.

Nos últimos anos a cidade tem registado avanços significativos em vários domínios com destaque para os sectores de água e saneamento básico
Fotografia: Afonso Costa

A capital da província do Namibe registou grandes melhorias na qualidade de ensino, a que se vem juntar a Academia de Ciências do Mar, em fase conclusiva, o reavivar do sector pesqueiro, o aumento de unidades sanitárias, modernização do porto comercial e outros ganhos, que conferem dignidade e orgulho aos munícipes.
A mudança do nome de Namibe para Moçâmedes, recentemente aprovada pela Assembleia Nacional, foi consensual entre os membros do Governo da província, do Conselho Auscultação e Concertação Social e pela sociedade civil, apesar de alguma controvérsia. A localidade foi baptizada em 1485 com o nome de Tchitoto Cho Patua, depois Mussungo Bitoto. Em 1775, chamou-se Angra dos Negros e, mais tarde,  Pinheiro Furtado, de Baía de Mossâmedes, na altura com “ss”, em homenagem a José de Almeida Vasconcelos de Oliveira Soveral de Carvalho, Barão de Mossâmedes.
A cidade foi fundada em 1840 e passou, em 14 de Novembro de 1956, a escrever-se Moçâmedes com “c” de cedilha, até 1975, quando passou a chamar-se Namibe. Em 27 de Junho do corrente ano, o nome voltou a ser alterado por decreto-lei para cidade de Moçâmedes. O município de Moçâmedes tem uma extensão territorial de 8.016 quilómetros quadrados e conta com 282.050 habitantes, de acordo com o censo populacional realizado em 2014.
O município é limitado a norte pela Baía Farta, província de Benguela, e internamente pelos municípios do Camucuio, Bibala, Virei e Tômbwa. Ao oeste, é limitado pelo Oceano Atlântico e conta com três comunas, Lucira, Bentiaba e Namibe.
Existe vontade da governação local de voltar a ter as comunas de Moçâmedes, Torre do Tombo, Saco-Mar, Forte Santa Rita e o município do Lucira, processo que se encontra em andamento no sentido de se repor as denominações que existiram até ao ano 2000.

De Namibe para Moçâmedes

Detentora do terceiro maior porto comercial do país, baluarte de desenvolvimento da região sul de Angola, o Caminho de Ferro de Moçâmedes, o deserto, a planta rara Welwitchia Mirabilis, um mar rico em peixe e marisco, belas praias, sítios e monumentos históricos e um povo acolhedor, a província do Namibe, também denominada   “terra da felicidade”, tem registado nos últimos anos grandes avanços, nos mais diversos sectores, com realce para o turismo, com um aumento considerável de visitantes nacionais e estrangeiros, sobretudo, aquando da realização das Festas da Cidade, em Agosto, e do Mar, em Março.
O mais-velho Ernesto Milocas vive na cidade há mais de 50 anos, proveniente da província do Cuanza Norte. Chegou ao Namibe devido ao Processo dos 50. O ancião conta que, antigamente, os moradores de Moçâmedes eram muito mais unidos, havia um espírito de inter-ajuda, o  que não se regista nos últimos anos, apesar do desenvolvimento no capítulo das infra-estruturas sociais, que outrora não existiam, como escolas e postos de saúde.
O espírito a que o mais-velho Milocas se refere era visível nas Festas do Mar, que, além do agradecimento e pedidos para maiores capturas de pescado, juntava munícipes e visitantes num clima de paz e harmonia. O retorno ao nome antigo pode incentivar o resgate dos bons hábitos dos citadinos, augurou.
O armador Mário Faria, 65 anos, natural do município de Moçâmedes, disse não haver comparação possível entre o Namibe de ontem e a Moçâmedes de hoje, na medida em que se registam muitos avanços no saneamento básico, com o projecto de tratamento e distribuição em curso na maior parte da cidade, escolas, hospitais e outras infra-estruturas.
“Apesar deste desenvolvimento todo que se regista na cidade de Moçâmedes, ainda temos dificuldades no abastecimento de energia eléctrica, que precisa de ser mudado", afirmou.
O empresário salineiro Fernando Solinho acredita que a mudança do nome da cidade  traz  consigo mais alegria, participação da população nas actividades agendadas pelo Governo da província, uma cidade mais eufórica, hospitaleira e sempre a receber visitantes que levam boas memórias.
“Nós, como população, já existimos há muitos anos e não é o nome que nos vai mudar, mas é sempre bom para os filhos da terra, que sempre se envaideceram como naturais de Moçâmedes e não do Namibe. Estes estão regozijados, mas um jovem de 20 anos vai defender que é natural da cidade do Namibe. Bem-haja a decisão do Governo da província, apoiada pelo Conselho de Auscultação e Concertação Social”.
Fernando Solinho manifestou compreensão em face dos transtornos provocados pelas obras para melhorar os sistemas de saneamento básico e o abastecimento de água.

Melhorias no saneamento

O administrador municipal de Moçâmedes, João Guerra de Freitas, afirmou que as estradas afectadas pelas obras relativas aos projectos de saneamento básico e distribuição de água à cidade vão ser reabilitadas pelo Governo da província. O antigo sistema encontrava-se em estado obsoleto e já não respondia à procura devido ao crescimento urbano.
Com o surgimento de novos bairros sociais, com destaque para o 5 de Abril, o maior da cidade, Torre do Tombo, Saidy Mingas e do Aeroporto, revelaram-se exíguas as capacidades das duas estações de distribuição de energia eléctrica à cidade, a do Tchitoto e a central do aeroporto.
João Guerra de Freitas chamou a atenção dos munícipes para a necessidade de cada vez mais contribuírem para a melhoria do saneamento básico da urbe, que não é responsabilidade única da administração da cidade. “Para podermos ter um saneamento básico adequado, é necessário termos os meios técnicos para recolha, transporte e o depósito lixo em local próprio”, disse o administrador. Moçâmedes não dispõe de aterros sanitários adequados, pelo que os resíduos sólidos são descartados a céu aberto, sem os devidos cuidados.
“É uma preocupação, mas, enquanto isso, vamos apostar no trabalho que está a ser feito pelos funcionários da Administração e os nossos parceiros, que tudo fazem para manter a cidade limpa e aprazível e aguardar pela finalização da construção do aterro sanitário”.
O trabalho feito pelas organizações religiosas, juvenis, partidárias e algumas empresas na limpeza da cidade foi realçado pelo administrador, que apelou a outras instituições a fazerem o mesmo, sobretudo, neste período em que a cidade comemora mais um aniversário.
Os residentes, amigos, visitantes e estudiosos que escalarem a província neste período podem desfrutar da beleza ímpar dos principais sítios históricos e monumentos, como o Boinene, em direcção à povoação do Caraculo, a fortaleza de São Fernandes, as pinturas do Laia,  a arte funerária Mbali, as inscrições da Torre do Tombo, primeiras deixadas pelos navegadores europeus, as figuras rupestres do Tchitundu Hulu, que concorrem a património internacional da humanidade, patentes no Museu Provincial.

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