Sociedade

Casos de doença dos rins provocados por malária

César Esteves

Maria Paciência (nome fictício), de sete anos, dorme debaixo de um silêncio infinito, numa das camas da Unidade de Cuidados Intensivos e Hemodiálise do Hospital Pediátrico “David Bernardino”, recentemente inaugurada.

Médica Luena Fialho diz que muitas crianças precisam de fazer transplante de órgãos
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Ligada a um sistema de soro, que repõe proteínas em falta no organismo, a menina trava uma árdua batalha para voltar a ver os seus rins a funcionarem bem. Há 15 dias, foi-lhe diagnosticada uma insuficiência renal aguda, no Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino, mas não podia ser assistida lá, porque não havia antes uma área que tratasse do caso.
Com isso, teve de ser assistida no Hospital Josina Machel, onde chegou a fazer duas sessões de hemodiálise. Com a inauguração, no dia 15 deste mês, da área de hemodiálise, no David Bernardino, a menina passou a ser acompanhada já nessa instituição.
No princípio, não urinava, mas, fruto do tratamento, começou a fazê-lo normalmente. “Ela está com uma boa evolução”, garantiu Luena Fialho dos Santos, médica colocada na Unidade de Cuidados Intensivos e Hemodiálise.
Segundo a pediatra, se o quadro dela continuar a evoluir, já não haverá necessidade de se voltar a fazer hemodiálise e poderá ser transferida, a qualquer momento, para a enfermaria, onde já terá direito a visitas.
À semelhança de Maria Paciência, outras seis crianças, padecendo da mesma enfermidade, encontram-se internadas naquela área. “Tirando uma que tem 14 anos, todos estão abaixo dos dez anos”, realçou.
De acordo com Luena Fialho dos Santos, constam, nesse momento, da estatística da instituição, 21 doentes com insuficiência renal, que fazem hemodiálise, seis em diálise peritoneal, na Clínica Girassol, e 13 em tratamento conservador, um método que dispensa hemodiálise, pelo facto de os níveis renais do paciente serem aceitáveis. />A especialista ressaltou que, de 2018 até a data presente, o Hospital Pediátrico de Luanda diagnosticou 47 crianças com insuficiência renal aguda, sendo que algumas delas recuperaram positivamente após o tratamento.
“Se a criança, com necessidade de hemodiálise, for levada cedo ao hospital, evita-se o tratamento. Ela apenas é submetida a uma terapia à base de fármacos”, frisou.
Luanda, com 32 casos de crianças com insuficiência renal, lidera a lista, seguida das províncias do Cuanza-Norte, Cuanza-Sul e do Zaíre, todas com dois casos, enquanto que Benguela, Bengo e Malanje têm um caso cada, totalizando 21 rapazes e 19 meninas.”O género, para essa doença, não é determinante”, garantiu a médica.

Malária na origem

A médica pediatra disse que mais de 50 por cento dos casos de insuficiência renal diagnosticados no Hospital Pediátrico de Luanda David Bernardino foram provocadas por malária, numa altura em que muitas crianças necessitam de transplante.
“Se prevenirmos a malária, estaremos, também, a combater a insuficiência renal”, ressaltou, para acrescentar que muitos pais só levam os filhos ao médico, quando o quadro já está muito avançado”, alertou.
Luena dos Santos aconselha os pais a levarem os filhos ao médico sempre que este estiver a urinar pouco ou se os olhos estiverem inflamados, sem justa causa.
A diarreia, prosseguiu a pediatra, é também uma das causas que provoca insuficiência renal nas crianças, sobretudo quando não é bem tratada, bem como as más formações congénitas do aparelho urinário, diabetes e hipertensão arterial.

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