Sociedade

Chuvas impedem as crianças de assistir às aulas no Cazenga

José Bule

Desesperados. No período normal de aulas, dois alunos, Filipe Baião e Paulo Rodrigues, estão sentados no chão, no passeio da escola do ensino primário nº 3015, na zona 18 do Cazenga. A professora está presente. Não pode dar aulas. As salas estão inundadas.
Ambos estudam a 3ª classe na sala 7. O primeiro tem dez  anos e o segundo apenas oito. Chegam às 7 horas à escola e saem às 12h00.

A chuva que fustigou Luanda na semana passada impediu os alunos da escola primária 3015 do município do Cazenga de terem aulas
Fotografia: José Bule| Edições Novembro

Estão descalços. Despem as batas e colocam-nas no interior das mochilas, encostadas à parede. Passam o tempo conversando sobre desenhos ou bonecos animados disponíveis nos pacotes de Televisão por satélite.
“Descalçamos os sapatos para não se estragarem na água da lagoa. Quando chove, fica difícil sair de casa para escola. Muitas vezes não estudamos, como hoje, porque entrou muita água nas salas”, afirma Baião.
Há uma lagoa mesmo à entrada da escola. Na rua do Kima Kieza, as águas pluviais correm em direcção ao estabelecimento de ensino, que funciona desde 1985. Sempre que chove, o átrio fica completamente alagado e as salas ficam inundadas.
Sentado à entrada da sala 4, o professor Domingos Oliveira tem as calças dobradas até aos joelhos. Atravessou várias lagoas antes de chegar à escola.
Não há alunos. As salas não oferecem condições para aulas. As carteiras estão afundadas na água. “Assim não é possível trabalhar”, lamenta o professor Domingos Oliveira. Outro professor, Silvino Miguel, defende maior intervenção da Administração Local do Estado na resolução de problemas como estes. “É uma situação que enfrentamos há alguns anos. Mas, infelizmente, até agora não há sinais de melhoria. Parece que a situação piora de ano para ano”, quixa-se.
João Pedro Quiassungo, chefe da secretaria da escola, calça botas de borracha. Olha para a barreira construída no portão com apoio dos encarregados de educação e abana a cabeça para lamentar o triste cenário.
“Quando a chuva cai com grande intensidade essa barreira não serve para nada. Temos de encontrar outra solução”, diz o responsável. Na escola 3015 os alunos mais afectados estudam no mesmo bloco onde funcionam as salas 4 até a 10, as que mais sofrem com as inundações.
Com mais de mil e 400 alunos matriculados da 1ª à 6ª classe, a escola necessita de cinco professores. Tem 25, no total, três dos quais são do Módulo 3 do Ensino de Adultos. “Se continuar a chover, não vamos atingir os objectivos do trimestre”, sublinha o subdirector pedagógico da escola, Tomás Cassua.

Constrangimentos
Logo à saída da escola, um grupo de jovens reflecte sobre os estragos provocados pelas chuvas no Cazenga.
Arsénio Romeu e Osvaldo da Fonseca estão sentados a poucos metros do local onde funciona a Administração Comunal. Os jovens afirmam que a estrada de betão construída nos últimos anos, na 7ª Avenida, dificulta o escoamento das águas que antes iam parar à lagoa de São Pedro, nas imediações da Igreja Católica de Santo António, no bairro Hoji ya Henda.
“A estrada não tem valas de drenagem. Por isso não facilita a passagem das águas que ficam paradas em quase todas as ruas da zona 18. Aqui as lagoas estão em todo o lado. Já não sabemos mais o que fazer”, lamentam.
O cenário é idêntico nas ruas da Sonef, Maia Loureiro, 11 de Novembro (Luz) e 7ª Avenida. Com as chuvas, os grandes montes de lixo estão ensopados, submersos nas lagoas.Cheira mesmo muito mal. Um verdadeiro atentado à saúde humana. Torna-se cada vez mais impossível combater a malária e as doenças diarreicas, por exemplo.
Automobilistas com viaturas com tracção às quatro rodas recuam. Os que andam em camiões parecem perdidos à procura de melhores caminhos para passar. Paulino da Cruz coloca os pneus da viatura de marca Toyota Fortuner, de caixa automática, no sítio certo. Atravessa as grandes lagoas do Cazenga sem aplicar a tracção ao veículo. Está sempre tranquilo. Até mesmo quando a água atinge o nível do capô. Coloca a cabeça fora da viatura. Tenta olhar para o fundo da lagoa.
Nada vê. Continua a marcha. “Conheço bem essas ruas. Passo por elas com e sem água. Vivo neste bairro há mais ou menos 40 anos. Tinha apenas um ano quando os meus pais vieram viver aqui”, conta.
O Cazenga está mesmo mal. A população reza para que a chuva não volte a cair, enquanto as ruas da localidade não são asfaltadas e construídas valas de drenagem para o escoamento das águas residuais e pluviais.

Administração inundou
A menos de 300 metros da escola 3015, há um pântano que cobre boa parte do território que envolve o edifício da Administração Comunal. A água transbordou para o interior da instituição e, neste momento, ninguém está lá a trabalhar.
Todos os serviços da Administração Local do Estado foram transferidos, provisoriamente, para a rua Maia Loureiro, num edifício que pertence à Organização da Mulher Angolana (OMA). Também é impossível atravessar a rua onde está localizado o posto de Registo Civil da zona 17 do Cazenga.
“A administração não faz nada. A instituição tem um tractor com uma cisterna de cinco mil litros que só fica mesmo ali parada. Será que não dá para fazer nada com aquilo?”, questiona  André Miguel. O jovem coordena o grupo de voluntários que, com enxadas e pás, abrem as valas que permitem escoar as águas das moradias para as ruas e destas para bem longe dos seus locais de residência. “Com aquele tractor e uma motobomba é possível minimizar o problema”, sugere.

  No Tala Hady o sofrimento dos moradores é permanente

A chuva de terça-feira impediu que muitos alunos fossem às aulas. Alguns trabalhadores também faltaram aos seus locais de serviço. Na rua dos Porcos, no Tala Hady, município do Cazenga, Maria Iracelma, 12 anos, está parada no portão. Sacode forte os sapatos  que engordaram com a lama.
“As ruas estão muito alagadas. Pisei muita lama”, diz. No interior da residência, a irmã ouve o barulho e corre para abrir. Coincidência ou não, Octávio João sai. Eunice Camavo abre a porta à Iracelma, que regressa mais cedo da escola. “Voltei. Não consegui chegar até à  escola. As ruas estão cheias de água. Os meus colegas também estão a voltar”, afirma. Octávio João, 28 anos, trabalha na Logística Transporte Integral (LCT). São 14h15 e só agora vai ao serviço. “Vou mesmo só agora. Choveu muito. Devia estar no serviço no período da manhã. Mas, o meu colega que vive próximo do serviço, em Cacuaco, estava escalado para o turno da tarde. Liguei para ele e lhe convenci a trocarmos de turno.
Ele foi de manhã e eu vou agora”, explica. Claudina Rosa Mbizi, que vive há mais de sete anos no Tala Hady, afirma que além da rua dos Porcos, outras como a da Liberdade, Doentes, USA, e Fumaça, também ficam muito alagadas quando chove.

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