Sociedade

Comboios circulam de hora a hora

Adalberto Ceita |

A administração do Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL) acaba de dar mais um passo na melhoria do transporte de pessoas e mercadorias.

O comboio veio desafogar a circulação de pessoas entre Viana e Luanda
Fotografia: Jornal de Angola

A administração do Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL) acaba de dar mais um passo na melhoria do transporte de pessoas e mercadorias. Desde o passado dia 11, a circulação de comboios entre as estações de Baia, no quilómetro 30, em Viana, e da Textang, na Boavista, é realizada de hora a hora, entre as  6H40 e as 18H00. O aumento de 14 para 20 viagens diárias teve um efeito imediato: entre os passageiros reina a satisfação pelo soar quase ininterrupto dos apitos das locomotivas.
Desde o passado dia 11 que Andreza Pedro tem mais de uma opção nas viagens de comboio que realiza entre as localidades de Viana, na periferia, e da Boavista, na baixa de Luanda, local onde trabalha.
Moradora da vila satélite de Viana, era obrigada a seguir no comboio do Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL) que partia da Estação de Viana para Luanda às 5h40, sob pena de chegar atrasada ao emprego. Um verdadeiro sacrifício, segundo a própria admite. Mas agora pode fazê-lo às  6h30, 6h40 ou até mesmo às 7h58.
Para chegar à Estação da Textang, estão à disposição da população dois tipos de comboios: o “expresso” e o “normal”. Este último efectua paragens nas Estações da Comarca, Estalagem, Gamek, Filda, Muceques, Rotunda e, finalmente, Textang.
“São vários os ganhos e para trás fica o pesadelo das noites mal dormidas e o receio de perder o comboio”, reconhece Andreza Pedro.
À semelhança dela, estudantes, comerciantes e outras pessoas que dependem de transportes públicos reconhecem os ganhos. Leonel Pascoal, 39 anos, não é passageiro habitual dos comboios do CFL. Vive na Estalagem e não possui viatura. Para se deslocar ao trabalho de “candongueiro” desembolsa 300 kwanzas. O pior é o regresso, quando tudo se torna difícil. Então a alternativa passa por se sujeitar aos caprichos dos homens dos carros que ostentam as cores azul e branca. Contas bem feitas, os gastos diários variam entre 600 e 800 kwanzas, sobretudo no período chuvoso.
À reportagem do Jornal de Angola Leonel Pascoal disse que soube do novo horário de circulação dos comboios nos noticiários. E, em função do que presenciou, acredita que não existem razões para duvidar dos benefícios que a medida trará. Leonel Pascoal viajou no comboio “expresso” de passageiros. “Estou convencido que saí a ganhar, porque senti conforto. Não paramos no engarrafamento e consegui economizar”, disse.
Quem viaja no comboio normal de passageiros, desembolsa 30 kwanzas, enquanto para o comboio expresso a tarifa fica em 200 kwanzas.
Salomão Joaquim, 35 anos, que encontramos na Estação da Textang, realça que o aumento da frequência das rotas vai estimular a confiança das pessoas.
Sentado no banco colocado à disposição dos passageiros, aguardava pela partida do comboio “normal” de passageiros ou “rafeiro”, tal como os próprios passageiros o apelidaram. Para cima de 90 pessoas faziam-lhe companhia. O ruído das locomotivas conforma o local. Aos poucos, a população vai-se familiarizando com o novo horário.
Salomão Joaquim revelou que cresceu na comuna da Canhoca, província do Kwanza-Norte, onde ganhou o hábito de andar de comboio. Admite que é complicado fazer o mesmo em Luanda, mas está consciente que o comboio é melhor opção que o carro, já que as hipóteses de ficar retido no engarrafamento são remotas. Salomão Joaquim quer apenas que sejam melhoradas as condições dos comboios normais de passageiros, os acessos e a higiene em redor de algumas estações.

Melhorias no trânsito

Andar nos comboios do Caminho-de-Ferro de Luanda, não é virtualmente um mar de rosas. Acontecem situações boas e más. Leonel Pascoal e Joana Celeste são testemunhas disso.
Leonel Pascoal viajou no comboio “expresso” de passageiros e adiantou que a sua opção se deveu às condições do referido meio de transporte. Considera que um aumento de comboios expresso pode atrair maior número de passageiros e influenciar na melhoria do trânsito automóvel na via Viana-Luanda. Esboça um sorriso tímido e faz um reparo: “Se aliarmos o conforto à segurança nas imediações das instalações ferroviárias, o sucesso está garantido. Se de hora a hora houver um comboio, penso que não existirão razões para suportar os engarrafamentos no trânsito”, acrescenta.
Para Joana Celeste, o “candongueiro” faz parte do passado. Há cerca de um ano, uma colega convenceu-a a experimentar o comboio e ficou agradada. Funcionária pública, realça que o importante é poupar nos gastos, mas confessa que por vezes é desconfortável devido ao mau comportamento de determinados passageiros.
Naquele dia aparentava um rosto fechado. Tem dias assim. A viagem não estava a correr bem. O seu desconforto tinha origem no cheiro desagradável que exalava da bacia de uma passageira que se encontrava sentada próximo dela. Todavia, para situações do género ela tem uma receita. Tão simples quanto isso: “Proibir as pessoas de viajar com produtos perecíveis”.
O director comercial do CFL, Aurélio Russo, disse que de segunda a sexta-feira estão disponíveis comboios com intervalos de uma hora. Anteriormente, referiu, eram feitas 14 viagens.
O tempo de espera para os passageiros era longo e o número foi aumentado para 20 viagens. Lembrou que a entrada em circulação de mais dois comboios normais de passageiros, com oito carruagens cada um, alterou o quadro.
“Significa que aumentámos a capacidade de frequências na ordem de 50 por cento e a receptividade da população tem sido positiva, particularmente nas horas de ponta”, disse.

Implantação da linha desviada

A introdução de mais comboios no trajecto foi tecnicamente possível devido à conclusão dos trabalhos de implantação da linha desviada na sub-estação da Textang, que conta apenas com uma única linha-férrea, explicou o director comercial do CFL. Aurélio Russo referiu que é um pensamento antigo da administração que visa encurtar cada vez mais o tempo longo de espera.
“Todos os comboios que descessem, sobretudo da Estação dos Muceques para a Estação da Textang traziam obrigatoriamente duas locomotivas, já que não podiam fazer a inversão da marcha”, disse.
Aurélio Russo avançou que a implantação da linha desviada libertou duas locomotivas e possibilitou a entrada em circulação de mais carruagens. Se as razões justificarem, disse, vão aumentar as frequências de comboios que em média circulam a uma velocidade de 40 quilómetros por hora, numa distância de aproximadamente 21 quilómetros entre as duas estações principais.
“Com a anarquia dos populares a atravessar a linha-férrea não prevemos aumentar a velocidade a curto prazo”, desabafou.
Aurélio Russo anunciou que o CFL tem disponíveis passes para viagens mensais, com descontos em relação às tarifas diárias. Aproveitou a ocasião para criticar os passageiros que se furtam ao pagamento das passagens e avisou que a fiscalização vai ser redobrada.

Problemas e anarquia

Apesar do esforço que tem vindo a ser feito pela administração do CFL e por agentes da Polícia Nacional para garantir o funcionamento e a segurança na circulação dos comboios, volta e meia acontecem actos de vandalismo nas estações e no traçado da linha-férrea.
Na Estação dos Muceques, por exemplo, os populares chegam mesmo a transitar por cima da linha-férrea, ignorando eventuais perigos. Nesta estação, mesmo próximo da passagem aérea, parte da vedação foi vandalizada para facilitar a passagem de peões.
Mariana Massango, uma moradora das proximidades, disse não compreender a atitude das pessoas que transitam sobre a linha-férrea, às vezes, na altura da passagem do comboio. Este tipo de comportamento por vezes acaba em atropelamentos mortais.
“Existem também pessoas que depositam lixo junto ao cercado da estação. Em diversas ocasiões já foram advertidas, mas por teimosia insistem em fazê-lo”, acrescentou.
Para inverter a situação, a administração do CFL avalia com as autoridades municipais a melhor forma de pôr fim à invasão. Outro constrangimento que tira o sono ao pessoal de operações é a desobediência ao sinal de paragem do guarda de nível.
Na segunda-feira passada um comboio embateu contra uma viatura ligeira, porque o automobilista desobedeceu ao sinal. O acidente, que ocorreu na passagem de nível da Frescangol, município do Cazenga, não causou danos no comboio, enquanto a viatura, ocupada apenas pelo motorista, ficou parcialmente destruída.

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