Sociedade

Controlo da poliomielite depende da vacinação

Miguel Gomes

A vacinação oral é a única forma de controlar o surto de pólio que afecta o país, alertou, ontem, em conferência de imprensa realizada em Luanda, o secretário de Estado para a Saúde Pública, Franco Mufinda. Uma nova campanha de vacinação contra a pólio vai decorrer de 13 a 15 de Dezembro.

Franco Mufinda, Celso Malavoloneke e Hernando Agudelo orientaram o encontro
Fotografia: João Gomes |?Edições Novembro

Para que o efeito de rebanho - que garante imunidade mesmo àqueles cidadãos que não são vacinados - da vacina da pólio seja efectivo, 90 a 95 por cento da população necessita de ser imunizada.
Os 49 casos de pólio reportados por Angola nos últimos meses (ao todo são 177 em todo o mundo, no presente ano) resultam das carências que continuam a ser registadas nas diferentes iniciativas de vacinação, sobretudo com as dificuldades de acesso a determinados bairros, aldeias ou regiões do país.
As más condições sanitárias (falta de saneamento básico, falhas na recolha de lixo e deficiente acesso à água potável) também potenciam a transmissão da doença.
A resistência das populações às vacinas e sobretudo a inexistência de cuidados básicos de saúde de qualidade fazem com que uma boa parte não tenha acesso à vacinação de rotina (que inclui a pólio e vacinas contra outras doenças preveníveis, até aos 15 meses de idade, que são distribuídas de forma gratuita em todo o país).
Para combater surtos específicos são realizadas campanhas alargadas de vacinação, para além da vigilância sobre epidemias, que é realizada pelo Ministério da Saúde.
“O problema é que a vacinação de rotina tem uma cobertura baixa. Há regiões mais protegidas e outras menos e muitas famílias não cumprem o plano de vacinação por diversas razões. Os casos de pólio, que foram reportados nos últimos meses, tiveram origem antes da campanha de vacinação e nas regiões com baixa cobertura de rotina”, explicou Alda de Sousa, coordenadora do Programa Alargado de Vacinação (PAV).
Até ao momento, todos os casos registados são do tipo 2 da doença, que, normalmente, é menos perigoso, ainda que também possa causar paralisia.

Vírus selvagem erradicado em 2015
Angola, tal como o restante continente africano e o resto do mundo, com a excepção do Paquistão e do Afeganistão, já erradicou (em 2015) o vírus selvagem da pólio, a versão mais perigosa que pode afectar os membros inferiores dos doentes, levando à paralisia.
Sobre o relatório que deu origem a suspeitas sobre a ligação entre as vacinas e os novos casos de pólio, Hernando Agudelo, delegado da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Angola, aproveitou a ocasião para esclarecer algumas dúvidas.
“A vacina é tão efectiva que passamos de mais de 500 mil casos nos anos de 1980 para um número irrisório de casos registados actualmente”, frisou o responsável da OMS.
“O que acontece é que após ser administrada a vacina, que é composta por vírus amortizados da doença, o vírus vivo reproduz-se nos intestinos da criança durante um curto período de tempo. Depois o vírus é expulso nas fezes” onde outras pessoas podem infectar-se, disse Hernando Agudelo.
A experiência mundial mostra que a única maneira de interromper a circulação do vírus do tipo 2 é através da implementação de duas ou mais rondas de vacinação, segundo a OMS. É o que vai acontecer entre 13 e 15 de Dezembro, com forte incidência em Luanda e noutras províncias onde as campanhas de vacinação não atingiram níveis de cobertura acima de 90 por cento.
Só em 2019, o país investiu cerca de 18 milhões de dólares na compra de vacinas para alimentar o programa de vacinação de rotina, disse Alda de Sousa durante a conferência de imprensa. Desde 2003 que o país financia o programa com recursos próprios e sem recorrer à cooperação internacional.

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