Sociedade

Covid-19: A corrida contra o tempo perdido e o papel das Forças Armadas Angolanas

Matadi Daniel *

A pandemia da doença COVID-19, provocada pelo vírus SARS-Cov-2, o famosíssimo coronavírus, veio pôr a nu a capacidade de resposta do sistema de saúde mundial perante uma situação de catástrofe humanitária global, com particular realce para países com graves debilidades nos seus serviços de saúde, como os casos dos africanos e de Angola em particular.

O país vive um dilema: não conhece verdadeiramente, em toda a sua plenitude, a dimensão da epidemia ao nível do território nacional
Fotografia: DR

É por isso uma luta frenética contra o tempo, pois, o país não está preparado, nem tem condições, para suportar o “stress italiano da Covid-19” e até mesmo um “stress minor” seria catastrófico, caso isso viesse a acontecer. Daí que cada um deva assumir as suas responsabilidades. Distanciamento Social Obrigatório é o único meio verdadeiramente eficaz de combate, que temos em mãos , não há que ter ilusões.
Porém, o país vive um dilema: não conhece verdadeiramente, em toda a sua plenitude, a dimensão da epidemia ao nível do território nacional, por se terem verificado falhas gritantes na fase de preparação, fundamentalmente ao nível da vigilância epidemiológica e não realização da análise laboratorial massiva dos contactos e dos suspeitos, provavelmente por questões logísticas.
A pergunta que ocorre amiúde, quer ao nível dos profissionais de saúde, da sociedade civil , assim como dos decisores políticos: qual a real dimensão da pandemia em Angola? Na maior parte das situações não sou pessimista e como diz o velho ditado "uma pessoa pessimista é, geralmente, uma pessoa bem informada" e a resposta a essa pergunta é que não sabemos a real situação da pandemia em Angola. Comparando o perfil epidemiológico da doença com a dos países nossos vizinhos, constituímos uma ilha, pois Angola registou dez vezes menos casos, e o “pessimismo” permite-me afirmar que não devemos ficar descansados e ainda bem que há essa luta frenética contra o tempo, por parte da Comissão Interministerial contra a COVID-19 e, em particular, do Ministério da Saúde. Reconheça-se.
Estaremos somente numa situação de casos importados ou já na fase de mitigação da epidemia, com transmissão comunitária? Não sabendo com exactidão o nosso perfil epidemiológico, por haver “inadvertidamente” sub-registos de casos, foi prudente ou não a instauração do estado de emergência? Julgo que foi prudente essa abordagem, com vista a mitigar o impacto das falhas verificadas na fase de preparação, fundamentalmente ao nível do epicentro do combate: o aeroporto 4 de Fevereiro e nos locais de quarentena, pois a instauração daquele pressuposto permitiu ganhar tempo, reavaliar a metodologia de actuação e, acima de tudo, tornar os erros risíveis, porque o inimigo é feroz e não sabemos como se comportará num teatro operacional como Angola, um país com elevado défice de saneamento básico, existência de doenças infecciosas e parasitárias endémicas, com impacto na morbimortalidade das populações, tais como malária, tuberculose, SIDA, subnutrição das populações, associando-se, igualmente, a coexistência de patologias não infecciosas como a hipertensão arterial, a diabetes mellitus, assim como as neoplasias, fundamentalmente as da próstata, que tornam o presente quadro “explosivo” e o equacionamento urgente da entrada de outros actores, com papel perfeitamente definido, na hierarquização das acções de combate, nomeadamente, as Forças Armadas Angolanas (FAA) e outros Órgãos de Defesa e Segurança. Repito, é uma corrida frenética contra o tempo, não devemos permitir que o pico epidémico se aproxime do cacimbo, porque apesar de não haver evidências clinicas irrefutáveis, o calor que se faz sentir no actual epicentro da epidemia; Luanda, tem ajudado, levando, hipoteticamente, a uma diminuição da carga vírica aquando da transmissão. Talvez isso justifique que mesmo havendo casos de eventual infecção comunitária não catalogados, eles sejam praticamente assintomáticas, o que ocorre amiúde em 89% dos casos, segundo a Revista Science.

Então, que papel fica reservado às Forças Armadas, nesta fase crucial do combate, em que está em vigor o estado de emergência, decretado pelo Presidente da República?

A primeira constatação, dez dias após o Decreto Presidencial, é a de que as Forças Armadas não devem ser mobilizadas para exercer o trabalho da Polícia. Elas não estão vocacionadas para isso. Seria demasiadamente redutor e perder-se-ia a eficácia da acção nesta fase crucial do combate à COVID-19. Há, por isso, que definir os objectivos da sua acção no contexto do Plano de Contingência contra a COVID-19 e, fundamentalmente, no contexto do estado de emergência.
O objectivo primordial da entrada em acção das Forças Armadas é o de permitir o confinamento das populações, fixando-as em condições mais ou menos condignas e de sobrevivência, para que haja o Distanciamento Social Obrigatório, não permitindo, por isso, a propagação da doença, fundamentalmente neste palco principal de combate e que constitui o epicentro da epidemia, a capital do país, Luanda, porque será aqui que se ganhará estrategicamente e em tempo útil a batalha contra este monstro invisível, a COVID-19. A definição de um sistema de quadrícula, com unidades perfeitamente definidas, é como se fosse uma luta anti-guerrilha, cujo objectivo principal consiste no isolamento das populações contra o inimigo e, aqui, o inimigo tem um nome, mas não possui rosto, é invisível, daí a necessária assertividade na proporcionalidade dos meios empregues, para sermos demolidores. É que não deveremos perder esse combate, porque o país não suporta uma longa situação de stress, por razões óbvias. E, para isso, algumas questões deverão ser colocadas;

Quem deverá ser o Órgão Operacional na capital como coadjutor da Comissão de Combate ao COVID-19 ao nível das Forças Armadas?
Na minha modesta opinião, deveria ser o Comando do Exército, pelo nível de meios humanos e materiais que possui, devendo utilizar meios aéreos como helicópteros, em caso de necessidade.

Que acções deverão ser executadas pelas Forças Armadas?
a) Liderar a distribuição de água potável por camiões cisternas às populações utilizando meios próprios, liberando as Reservas Estratégicas do Comandante-em-Chefe, assim como pelos meios disponibilizados pela Comissão Interministerial. A distribuição de água potável para a higienização das populações é um passo crucial .
b) Liderar a distribuição de mantimentos ( essencialmente alimentos), meios de higiene como sabão azul, gás de cozinha (venda ) nas zonas mais problemáticas e periurbanas, porque as populações estão desprotegidas e só têm saído das suas casas por questões de mera sobrevivência.
c) Reescalonamento e mobilização das unidades militares, de pessoal médico, técnicos, enfermeiros e sanitários, com responsabilidades perfeitamente definidas, para reforçar os Centros de Saúde e Postos de Saúde dos municípios e bairros, que trabalhariam 24/24 horas, com vista a permitir o tratamento de outras patologias “in-situ”, evitando-se, desta forma, deslocações às unidades sanitárias de nível terciário e exposição desnecessária ao vírus.
d) Reforço das unidades de vigilância epidemiológica e, em alguns casos, liderando-as.
e) Colaboração em programas de desinfestação, na luta anti-vectorial e anti-larvar contra o mosquito, dada a imprescindibilidade da luta simultânea contra a malária, pois, não sabemos como se comportará o Coronavírus em presença do paludismo, diminuiríamos por isso a sua incidência, com estes meios eficazes de luta. O paludismo mata todos os dias mais de 100 angolanos.
f) Por último, julgo que o Hospital Militar Principal deveria ser desdobrado em hospital de campanha, tornando-o igualmente um hospital de referência para o diagnóstico e tratamento da COVID-19, com um laboratório com capacidade para a testagem de casos suspeitos ou até para servir de contra análise, porque o ideal seria obter sempre informações em mais de uma fonte, para a credibilização dos dados estatísticos.

O estado de emergência nacional deverá ser prorrogado pelo Presidente da República ou a Declaração de um eventual Cordão Sanitário para Luanda ?
A definição epidemiológica de Cordão Sanitário consiste na delimitação de um determinado local, que deverá estar isolado do resto dos territórios circunvizinhos, em que a situação epidemiológica é compatível com Transmissão Comunitária Activa, quer dizer que o risco de transmissão se encontra generalizado.
Ora, se os pressupostos que estiveram na base da Declaração do Estado de Emergência se mantiverem, mesmo não tendo havido aparentemente Transmissão Comunitária Activa à data da Declaração e o motivo de mitigar situações complicadas, por estarmos em presença de um inimigo feroz e desconhecido, a prorrogação parece-me a mais indicada, até pela explanação do secretário de Estado da Saúde, Dr. Franco Mufinda, segundo a qual é expectável o início do pico epidémico para meados de Abril. Se a situação epidemiológica mantiver Luanda como o epicentro, a segunda opção, na minha modesta opinião, e a que me parece mais adequada, até por razões económicas, será necessário alargarmos rapidamente os testes a todos os contactos, para podermos aferir a nossa real situação. Fazer os testes de forma aleatória em mercados, sem uma base de sustentação epidemiológica evidente, vai ser um desperdício. A busca activa dos contactos parece-me imprescindível.
Um reparo, os bancos comerciais têm de ser criativos e perspicazes no fornecimento da massa monetária às populações, não é concebível que o combate se resuma à Comissão Interministerial, todos temos de contribuir para o Distanciamento e Isolamento Social Obrigatório das populações, que é o meio estratégico mais importante de luta que possuímos. É necessário que todos nós compreendamos que o país não suporta uma situação de stress, será o caos sanitário.
Essa pandemia, a COVID-19, veio igualmente alertar para a necessidade imperiosa da existência de outros actores institucionais, nomeadamente o Conselho Nacional de Saúde e o Observatório Independente do Serviço Nacional de Saúde.

*Coronel reformado, médico especialista em doenças renais (no activo)

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