Sociedade

Covid-19: Especialista alerta para o risco de aumento de mortes por outras doenças em África

Filomeno Fortes, director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), sedeada em Portugal, alertou para o “grande risco” de aumento de mortes por doenças não Covid-19 em África, potenciado pela concentracção de esforços no combate à pandemia.

Filomeno Fortes, director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).
Fotografia: Edições Novembro

“Temos o impacto directo da pandemia neste momento e vamos ter um impacto indirecto a médio e longo prazo, com grandes repercussões” na mortalidade associada a várias outras doenças, disse Filomeno Fortes, em entrevista à agência Lusa.

Em causa, estão, segundo o médico angolano, as designadas “doenças não-Covid-19”, que incluem doenças transmissíveis endémicas (malária HIV/Sida e Tuberculose), doenças tropicais negligenciadas e transmitidas por mosquitos (dengue, chicungunya, febre-amarela e zika) e doenças crónicas não transmissíveis (hipertensão, diabetes e cancros do colo do útero, mama e próstata). “Preocupa-nos que os doentes deixem de ter seguimento, diagnóstico e tratamento. O risco de a mortalidade aumentar por causa dessa situação é grande”, disse. Filomeno Fortes equacionou ainda a possibilidade do aumento da transmissão da leptospirose, doença transmitida pelos ratos.

“Quando há fome no continente africano, uma das tendências é a população começar a alimentar-se de ratos, que, além da leptospirose, podem transmitir um elevado número de outras doenças”, adiantou. O director do IHMT apontou ainda como outro eventual efeito colateral a redução da cobertura de vacinas, motivada, por um lado, pela diminuída resposta dos serviços de saúde e, por outro, pela retracção da população em ir às consultas de seguimento de grávidas e crianças. “Então, vamos criando aqui uma população susceptível a doenças como a poliomielite, o sarampo ou a febre-amarela. É um risco a médio prazo”, disse.

Situação não tão severa 

Filomeno Fortes, que falava à agência Lusa sobre a evolução da pandemia de Covid-19 no continente africano, considerou que os dados apontam para uma “situação não tão severa” nos países africanos, quando comparada com os outros continentes.

África regista mais de 95 mil casos de infecção pelo novo coronavírus e perto de três mil mortes em 54 países, o que representa cerca de 2% de todos os casos registados globalmente e uma taxa de letalidade próxima dos 4%, comparativamente com a média mundial, que é de 7%. “Em relação aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), a situação é ainda menos gravosa”, disse, manifestado “preocupação” com a Guiné-Bissau, que já ultrapassou os mil casos (1.089), incluindo seis mortes, e com São Tomé e Príncipe, que tem 258 casos e regista 11 óbitos.

“Em São Tomé e Príncipe, as condições de assistência médica são muito débeis, além de que só agora é que vai ser instalado o aparelho de diagnóstico da doença”, disse, numa alusão à chegada ao arquipélago, na semana passada, de um laboratório para testes enviado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar dos números relativamente optimistas, o especialista em saúde pública não descarta “o risco de África poder ser assolada por uma vaga de infecções com consequências imprevisíveis”.

“Continuamos sem ter a certeza se as nossas capacidades de diagnóstico e de vigilância epidemiológica estão a dar conta da informação estatística real no terreno. Podemos colocar a possibilidade de haver alguma desinformação, devido à indisponibilidade dos testes de diagnóstico e até da fragilidade dos próprios sistemas de saúde”, admitiu Filomeno Fortes. O director do IHMT adiantou, por outro lado, que existem em África factores que, “até prova em contrário”, parecem contribuir para uma menor gravidade da doença.

“A densidade populacional no continente africano é muito baixa, a idade da população (maioritariamente jovem) pode dar muitas infecções assintomáticas e pouco visíveis e a temperatura, que continua a ser um factor preponderante e cada vez mais provado a nível dos estudos feitos”, disse. A isto somam-se as medidas de contingência, tomadas “em tempo útil” pela maior parte dos países. 

“África tem um passado histórico de luta contra epidemias e a população está mais ou menos habituada a este tipo de pressão”, disse Filomeno Fortes. Ainda assim, reconhece que, devido ao impacto socio-económico dessas medidas, a tendência da população é respeitar cada vez menos as imposições de confinamento e distanciamento.

“A população prioriza normalmente a questão alimentar. Por exemplo, quando distribuímos redes mosquiteiras para conter as picadas (de mosquitos) da malária, as redes eram desviadas para a pesca”, recordou. Por isso, defende, “os governos têm de continuar a fazer um esforço na melhoria da resposta epidemiológica e na criação de condições assistenciais” aos doentes e populações em geral.

Entre os países africanos que têm o Português como língua oficial, a Guiné-Bissau lidera em número de infecções (1.089 casos e seis mortos), seguindo-se a Guiné Equatorial (719 e sete), Cabo Verde (356 e três ), São Tomé e Príncipe (258 e 11), Moçambique (156). O país lusófono mais afectado pela pandemia é o Brasil, com mais de 18.800 mortes e mais de 291 mil infecções.

Em África, há 2.997 mortos confirmados, com mais de 95 mil infectados em 54 países. A nível global, segundo um balanço da AFP, a pandemia já provocou mais de 328 mil mortos e infectou mais de cinco milhões de pessoas, em 196 países e territórios. Mais de 1,8 milhões de doentes foram considerados curados.

Mais envolvimento das universidades

O director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), Filomeno Fortes, pediu aos governos dos países africanos lusófonos mais envolvimento das universidades no combate à pandemia de Covid-19 e acesso aos dados sobre a doença.

“Há necessidade de um maior envolvimento da academia dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O apelo seria que os políticos procurassem trabalhar mais estritamente com a academia, que é fundamental nesta fase, para evitar 'fake news' e identificar as boas práticas”, disse Filomeno Fortes, em entrevista à agência Lusa.

O responsável do IHMT e especialista em saúde pública assinalou que, em regra, existe nos governos uma separação entre as áreas da ciência e tecnologia, onde se encontram as universidades, e da saúde e pediu, por isso, um trabalho mais próximo dos dois sectores. “Há necessidade de uma ligação entre os serviços de ciência e tecnologia e os serviços de saúde, mas tem de ser uma ligação real. Não pode haver dificuldades, por exemplo, no acesso aos dados”, disse.

“Se a academia não tiver acesso aos dados e às equipas de terreno, vai ser difícil implementar estudos de investigação”, acrescentou.
O Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) criou, em parceria com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma plataforma 'online' para reunir conteúdos científicos em português sobre a pandemia de Covid-19, o Centro de Informação COVID 360/­IHMT/­NOVA/CPLP.
Está ainda a trabalhar com os países da África lusófona na realização de estudos simultâneos sobre o novo coronavírus.

Interacção

O IHMT/NOVA, que é observador consultivo da CPLP, quer, através da plataforma, fomentar a interacção com técnicos e especialistas do espaço Lusófono, em especial dos países africanos, facultar ferramentas de apoio aos seus planos de contingência e disponibilizar informação científica actualizada.
A organização tem também vindo a realizar uma série de seminários virtuais sobre a pandemia, que tem como público-alvo os profissionais de saúde e investigadores dos países lusófonos.

O próximo evento está marcado para hoje e vai abordar o aparecimento e desenvolvimento da pandemia na Ásia e Europa. Para 29 de Maio, está prevista nova sessão, esta dedicada ao aparecimento e desenvolvimento da pandemia na África lusófona.

Estudos simultâneos do vírus

Os países africanos Lusófonos vão avançar com estudos simultâneos sobre o novo coronavírus, para perceber a sua carga viral e fazer o sequenciamento, disse o director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical. “Estamos a trabalhar com Angola, Cabo Verde e Moçambique, para ver se iniciamos estudos, em simultâneo, em todos os países, para podermos comparar os dados e os resultados”, disse Filomeno Fortes, em entrevista.

“Temos as equipas criadas e os protocolos estabelecidos e estamos a ver se, nas próximas semanas, podemos começar a receber algumas amostras (em Lisboa), para apoiarmos alguns países no sequenciamento” do vírus, acrescentou. O especialista em saúde pública sublinhou a importância de perceber se o vírus que está a circular em África e, nomeadamente, nos países lusófonos é o mesmo que está a circular em outros continentes, qual a intensidade da carga viral e a resposta aos tratamentos.

“Na possibilidade de se introduzir uma vacina daqui a um ano, vai ser importante saber que tipo de vírus circula ou terá circulado nestes países, porque terá de ser específica para esse tipo de vírus”, disse. Por outro lado, Filomeno Fortes encorajou os países a fazerem também estudos de imunidade, para perceberem qual a percentagem de população infectada e que possa estar imune.

Como exemplo dos progressos na investigação da doença, apontou Moçambique, onde foi já possível perceber que 75% dos infectados com o novo coronavírus são assintomáticos. O IHMT está também a trabalhar com países lusófonos no estabelecimento de protocolos ligados à vigilância epidemiológica, adiantando que é preciso encontrar respostas para várias interrogações que estão a ser levantadas com a propagação da doença.

“Porquê é que em muitos dos casos que aconteceram em Angola não houve transmissão domiciliar? Um indivíduo estava infectado, conviveu com a família durante vários dias até ser identificado e não houve transmissão da doença. É uma questão epidemiológica de interesse para percebermos este fenómeno”, disse.

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