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Covid-19: Estudo desvenda mistério da perda do olfacto como sintoma frequente

A perda de olfacto (anosmia) é um dos sintomas mais comuns associados à Covid-19, estimando-se que afecte entre 30 por cento a 80 por cento das pessoas infectadas.

Fotografia: DR

No entanto, a causa deste sinal de alarme tão emblemático da infecção pelo novo coronavírus tem sido um mistério. Agora, um grupo internacional de investigadores, liderado por neurocientistas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, levantou um pouco do véu - e acabou por ter uma surpresa.
A equipa, que foi coordenada por Sandeep Robert Datta, da Harvard Medical School, descobriu que, ao contrário do que se suspeitava, não são os neurónios do sistema olfactivo que o vírus infecta, mas um grupo de células específicas que lhes servem de sustentação na cavidade nasal e que demonstraram ser susceptíveis à infecção pelo Sars-cov-2. Os resultados da investigação foram publicados na revista científica Science Advances.

“Os nossos dados indicam que o novo coronavírus altera o sentido do olfacto nos doentes, não por infectar directamente os respectivos neurónios, mas por afectar a função das células que lhes servem de suporte”, afirmou o coordenador da investigação, citado num comunicado da sua universidade.
Para a equipa, este pode ser um bom indicador de que a perda de olfacto nos doentes de Covid-19 não será permanente. Tudo indica que as células neuronais do sistema olfactivo existentes na cavidade nasal não são afectadas pelo vírus. Já as que ali são infectadas têm uma grande capacidade de regeneração.

“Penso que são boas notícias, porque, uma vez passada a infecção, não é necessário substituir aqueles neurónios, nem reconstituir o sistema olfactivo”, adianta Sandeep Robert Datta, sublinhando, no entanto, “que são necessários mais estudos e dados para confirmar em definitivo esta conclusão”.
A descoberta está, de resto, em consonância com o que se tem verificado nos doentes de Covid-19 com anosmia, que na maioria recuperam o olfacto em poucas semanas depois de passada a infecção.

Um sintoma inesperado

Os primeiros relatos de doentes infectados pelo novo coronavírus que perdiam o olfacto de um momento para o outro surgiram logo em Fevereiro, em pacientes da China, país onde a doença emergiu no final do ano passado.
Com a expansão da doença a outros países asiáticos, à Europa e ao resto do mundo, no entanto, começou-se a perceber que aquele era um sintoma que se repetia. Em Março, o padrão já se tinha tornado visível, com os estudos a confirmarem-no.
Nessa altura, os especialistas em otorrinolaringologia fizeram as primeiras recomendações sobre a necessidade de as pessoas com perda de olfacto fazerem quarentenas preventivas e realizarem o teste para a infecção pelo SARS-CoV-2.

Um dos colégios de especialistas que alertou para a questão logo em Março foi a Academia de Otorrinolaringologia Americana, que, em meados desse mês, publicou no seu site informações sobre a perda de olfacto associada à Covid-19, chamando a atenção para que isso sucedia com frequência em pacientes infectados sem outros sintomas. A Sociedade de Rinologia Britânica emitiu indicações idênticas nessa mesma altura.
Na ausência de um quadro de alergias, rinites ou sinusite, estes sintomas, sublinhava a Academia de Otorrinolaringologia Americana, a anosmia é um sinal de alerta para rastrear estes pacientes e “justifica seriamente a recomendação para o auto-isolamento, seguido do teste”.
Confirmou-se entretanto o que os especialistas já então apontavam: em muitos casos, a anosmia é mesmo o único, ou o mais preponderante, sinal de alerta para a infecção de Covid-19. Esses são os chamados doentes assintomáticos, e a proposta dos especialistas, de se fazer o isolamento preventivo nesses casos, para impedir os contágios, era completamente acertada.

Células susceptíveis ao vírus

Apesar de este ser um sintoma que cedo se confirmou estar associado à Covid-19, o que está na sua origem não era até agora claro. Uma das hipóteses em cima da mesa, para explicar este sintoma, era a de que os neurónios do sistema olfactivo que existem na cavidade nasal estariam a ser afectados na sua função, pela infecção, mas os novos dados vêm agora descartar essa possibilidade.

Porquê? Porque o que os cientistas verificaram, até com alguma surpresa, foi que aquelas células neuronais não são suscetíveis à infecção pelo novo coronavírus: elas não têm sequer o gene ACE2, que codifica o receptor de que o SARS-CoV-2 se serve para entrar nas células e aí dar início ao processo de infecção. Para chegar a esta conclusão, a equipa passou em revista os genes que são expressos nos muitos tipos de células diferentes que existem na cavidade nasal dos seres humanos e noutros primatas, e também nos ratinhos, e focou-se especificamente em dois: o ACE2, que codifica o tal receptor celular que o coronavírus utiliza para entrar nas células, e um outro chamado TMPRSS2, que, por sua vez, dá instruções para a produção de uma enzima que se sabe ter um papel importante na forma como o Sars-CoV-2 se instala na célula e a infecta.

O estudo mostrou que aqueles dois genes são expressos nas células do epitélio olfactivo e em algumas outras que servem de suporte, na cavidade nasal, a alguns milhões de neurónios do sistema olfactivo. Já estes neurónios não expressam nenhum daqueles dois genes, como a equipa verificou.

De acordo com a análise dos investigadores, as células do epitélio olfactivo expressam o gene ACE2 a um nível idêntico ao que ocorre nas células das vias respiratórias inferiores, o que sugere uma vulnerabilidade daquelas células à infecção pelo coronavírus, e que poderá ajudar também a explicar o facto de a anosmia ser afinal um sintoma tão frequente nos doentes de Covid-19.
Os cientistas confirmaram, igualmente, a presença das proteínas expressas por aqueles dois genes nas referidas células, o que reforça a hipóteses de que são elas, e não os neurónios que nelas se apoiam, as afectadas pelo SARS-CoV-2.

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