Sociedade

Covid-19: Juntos e misturados, clientes às compras e vendedores a facturar

Nilza Massango |

Juntos e misturados, agrupados e sem protecção alguma. Assim andam, mesmo nestes dias, os vendedores e os clientes, nos vários armazéns do Hoji ya Henda. Numa ronda, a nossa reportagem constatou que a pandemia do Covid-19 não é ameaça para muitos e nem impede centenas de pessoas de se agruparem, sem máscaras, e manterem contacto próximo umas com as outras nesses lugares.

Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

Numa ronda, a nossa reportagem constatou que a pandemia do Covid-19 não é ameaça para muitos e nem impede centenas de pessoas de se agruparem, sem máscaras, e manterem contacto próximo umas com as outras nesses lugares. Na rua Porto Moniz, que mais parece um “formigueiro humano”, André, um jovem zungueiro, desprotegido e ignorando todas as medidas de protecção contra o Coronavírus, acredita que Deus está com ele, que nada há-de acontecer-lhe. “Por isso, não vejo necessidade de me proteger”, frisou.

O cenário é igual ao de há oito meses: um aglomerado de pessoas, que ficam juntas e misturadas, que circulam de um lado ao outro, sem qualquer protecção, mesmo depois dos inúmeros apelos públicos sobre a importância de se prevenir do coronavírus. Muitos dos vendedores estão mais preocupados em saber se os armazéns vão ser encerrados. Contavam-se as pessoas que circulavam com máscaras no rosto, como o caso de Caetano de Almeida, que usava até luvas. O jovem, que vive no Kilamba, estuda no Morro Bento, foi ao Hoji ya Henda para pegar uma encomenda e sair rápido, porque tem noção de que é perigoso estar num ambiente com mais de 200 pessoas.

A rua Porto Moniz é comércio total. Devido à multidão, num entra e sai das lojas, poucos carros circulam. Aos sábados, fica pior com muita gente, entre vendedores e clientes que procuram de tudo um pouco, desde a roupa ideal ao bom preço. Mais um pouco e o Hoji ya Henda transformava-se por completo num centro comercial. Uma boa parte daquele distrito do Cazenga está invadido por lojas e armazéns, em cada rua, esquina, beco e travessa. Cada vez mais, ruas alinham ao negócio do comércio, com a venda de vários artigos como roupas, calçados e electrodomésticos. Na rua do Funchal e Porto Moniz contam-se os moradores que resistem à sedução dos “Mamadu”. 

As mais de 30 casas existentes na rua Porto Moniz foram arrendadas por estrangeiros e modificadas, tomando feição de estabelecimentos comerciais. Só algumas de um andar conservam a estrutura inicial da parte de cima da casa, mas que também serve de depósito. O Hoji ya Henda já foi um dos bairros residenciais mais chiques de Luanda.

Um santuário da moda

Hoji ya Henda é hoje o "improvável santuário" da moda. Há muitos que, às escondidas e ainda mais em tempos de crise, recorrem àquele mercado para actualizar o guarda-roupa. Pena é que ninguém quer ser taxado como usuário das roupas baratas do lugar.  A venda de roupas é o negócio que mais se expande naquela zona do município do Cazenga. São dezenas de estabelecimentos, grandes e pequenos, que despacham a grosso e a retalho para outros mercados, províncias e até boutiques chiques da zona urbana de Luanda.

Hoje, pela grande procura, os armazéns do Hoji ya Henda revelam-se dos maiores fornecedores de roupas para revendedores dos vários mercados, praças e vendedeiras ambulantes da cidade capital. Até ao momento, segundo vendedores, sem se identificarem, ainda há mercadorias em stock, mas temem que nos próximos tempos, por causa da situação do Coronavírus, com o cancelamento de voos, fronteiras, a realidade venha mudar totalmente. Os preços das roupas na rua Porto Moniz não variam muitodos praticados há oito meses, quando a nossa reportagem lá esteve.
A rua Porto Moniz é um autêntico corredor de lojas e armazéns só de roupa masculina e feminina, de marcas diversas e outros acessórios, como sapatos, chapéus. Original ou não, como soe dizer-se, o certo é que até boutiques chiques da Baixa da Cidade também apelam às peças do barato do Hoji ya Henda. Aqui, a exclusividade na moda deixou de ser um diferencial.
“Eu já vi, o meu produto numa boutique da Mutam-ba”, afirmou Anzumana Tirera, gerente de um dos armazéns de roupas masculina, de origem chinesa, na rua Porto Moniz.
Nos armazéns encontra-se de tudo um pouco, no que diz respeito ao tipo de vestimenta. Roupas de todo o tipo de tecido, desde leve e pesado, de origem chinesa, turca, francesa, italiana, tailandesa, para todos os gostos, tamanhos e bolsos. Há fatos para eventos sociais, casamento, vestidos para festas, roupa desportiva e até íntima. Todos os dias, há pessoas a comprá-las, tendência que há muito deixou de ser apenas por necessidade de se manter vestido.
O armazém do Anzumana Tirera, por dia, factura cerca de 40 mil kwanzas, também dependendo da época, e tem calças e camisas, com preços de 2.000 a 3.500 kwanzas. No Mamadu Irmãos, os fatos sociais, de duas, três peças, de origem tailandesa e do Dubai, variam de 15 a 22 mil kwanzas. Os de tecido algodão são os mais procurados e mais caros. Os vestidos de festas custam de sete a dez mil kwanzas. Aqui, são mais as mulheres que compram, sem dúvidas.
Na rua do Funchal, o armazém Escondidinho Jaxy vende roupas produzidas na China, exclusivamente para crianças, despacha a grosso, para revendedores do mercado do São Paulo, Praça Nova, Praça do Kikolo e outros. Tem marcas que são autênticas imitações da Adidas, Fila, Tommy e de desenhos animados da Disney: Princesa Sofia, Patrulha Pata e Porquinha Pepa.

Um trabalho bem feito

Com o trabalho da Fiscalização do distrito, reduziu consideravelmente aquela zaragata de pessoas, escolhendo nos amontoados de roupas, lutando pela mesma peça, o puxa daqui e dali, a gritaria do arreou, a exposição de roupas pelas paredes das ruas. Agora, o comércio está mais organizado. A venda é somente dentro dos armazéns e lojas. Um e outro vendedor ambulante é que ousam desafiar os fiscais e a Polícia. As ruas estão limpas. O que mais se vê na venda ambulante, fora dos armazéns, são pequenas coisas, como peúgas, lenços, cintos, sacos de compra e outros. Só no final do dia é que a confusão volta a instalar-se, quando não mais estão sob o olhar das autoridades.
O trabalho da administração tem se focado em organizar as ruas, orientar a Polícia e na Fiscalização.

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