Sociedade

Criação de casas de trânsito para doentes abandonados defendida por especialista

Rodrigues Cambala

O director para a Área Social do Hospital Josina Machel disse, ontem, em Luanda, ser necessária a edificação de casas de trânsito, em todas as províncias, para acolher os doentes abandonados pelos familiares nas unidades hospitalares.

Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Alfredo Quilulo explicou que, caso houvesse uma casa de trânsito, seriam evitados os congestionamentos nos hospitais com doentes que têm alta médica, alguns vindos de outras províncias. “Os pacientes de outras localidades devem estar fora da unidade sanitária, enquanto tratam dos procedimentos para regressar à família ou à zona de residência”, defendeu Alfredo Quilulo.
Apreensivo com os elevados casos de abandono de doentes, o especialista em assistência social propôs que a casa de trânsito seja multidisciplinar, com a inserção de técnicos dos ministérios da Saúde, Família e Acção Social, Comunicação Social, Transportes, da Administração do Território e Governos provinciais.
Alfredo Quilulo inclui, neste projecto de casas de trânsito, psicólogos, sociólogos e assistentes sociais, para trabalharem na integração das pessoas abandonadas.
O programa de assistência social do Hospital Josina Machel tem trabalhado à base de avaliação dos pacientes, localização dos familiares, transferência de alguns doentes para as suas zonas de origem e reintegração social.
Para a localização da família, o hospital conta com o apoio da imprensa pública (TPA, Jornal de Angola e Rádio) na divulgação das imagens das pessoas. Além disso, existe um programa de palestras para sensibilizar os familiares dos pacientes.
 Em relação ao regresso dos doentes vindos de outras províncias, o hospital  conta com a parceria do Ministério da Família e Acção Social. Depois da alta médica, os idosos abandonados são encaminhados para o Beiral e as crianças para o Lar Kuzola. “As crianças são levadas para o lar, mas dias depois voltam ao hospital e dizem que se sentem melhor aqui”, disse.
Alfredo Quilulo reclamou do número insuficiente de assistentes sociais no hospital.
“Em caso de patologia normal, um assistente social deve atender até 60 camas, enquanto para doenças crónicas, como insuficiência renal, acidente vascular cerebral e politraumatismo, deve   atender 25 doentes”, disse.
O Hospital Josina Machel vive uma realidade diferente, ou seja, conta com mais de 700 camas e dispõe de apenas três assistentes sociais com nível superior e dois com nível médio. Para atender as necessidades, são necessários 20 assistentes com formação superior e 40 técnicos médios.
Alfredo Quilulo disse que o hospital tem necessidade de mais assistentes sociais, uma vez que o especialista desta área realiza um trabalho de interacção entre o paciente, comunidade hospitalar e a família. O assistente, explicou Alfredo Quilulo, vela pela componente social do paciente que vai à unidade hospitalar à procura de cuidados médicos e sem o suporte adequado da família.
“O tratamento só tem eficácia se encontrar um suporte económico e social razoável”, admitiu Alfredo Quilulo, para acrescentar que muitos doentes são vulneráveis e, devido às dificuldades financeiras, estão desprovidos de 650 Kwanzas para comparticipar na consulta.
Alfredo Quilulo disse que a falta de dinheiro tem sido um dos motivos que levam os familiares a abandonarem os doentes internados, que acabam por entrar em situação de desespero.
Entre as razões do abandono, Alfredo Quilulo indicou a má relação entre os membros da mesma família. “Quando a relação não é boa, faz com que o doente internado deixe de receber visitas e seja rejeitado depois de receber alta”.
Alfredo Quilulo disse que, depois da alta, o lugar do paciente é na família e não no hospital.
“Quando a família o rejeita, o paciente ocupa uma cama que devia servir para outro doente”.
Para a realização de um serviço social de qualidade, Alfredo Quilulo disse que a área necessita de um meio de transporte, melhores condições de trabalho, sala condigna para terapias, aumento de recursos humanos, financeiros e materiais.

Doentes da crise
As estatísticas dos casos de abandono familiar oscilam em função das epidemias.  Por exemplo, há dois anos, após o ressurgimento da febre-amarela, o número de casos de abandono tinha aumentado para mais de três dezenas.
O mesmo ocorreu em 2015, altura do auge da crise económica e financeira, período em que  houve um aumento de casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Neste mesmo ano, mais de 40 doentes tinham sido abandonados. Actualmente o hospital conta com 22 doentes que fizeram da unidade sanitária a sua moradia.
“Alguns pacientes, vítimas de acidente de  viação, que chegam ao hospital com apoio da Polícia, são, às vezes, recuperados na parte física, mas a psíquica exige a presença de outros especialistas, uma vez que manifestam incapacidade de reconhecer a zona de residência”, salientou Alfredo Quilulo, que explicou  que o abandono ocorre mais em doentes com Acidente Vascular Cerebral (AVC) e politraumatismos, resultantes de acidentes de viação.
“Os familiares recusam-se a levar os doentes com AVC para casa, porque estes  deixam de realizar as suas actividades pessoais”, apontou, para explicar que alguns familiares agem por superstição,  chegando ao ponto de acusar o parente de feiticeiro.
“Uns dizem que o doente só volta a casa se trouxer as pessoas já falecidas de volta”, disse Alfredo Quilulo, lembrando que o bom desempenho da área social contribui para a humanização dos serviços de Saúde.
Em relação aos estrangeiros abandonados no hospital, Alfredo Quilulo conta que são, na sua maioria, cidadãos que vêm ao país para realizar actividade comercial e, uma vez adoentados e sem documentos, não informam sobre a sua real nacionalidade. Para combater o abandono  familiar, a área de Assistência Social oferece terapias à famílias para adoptarem uma relação saudável com o seu familiar doente.
Há dez anos na área de assistência social, Alfredo Quilulo explicou que o assistente trata do espírito e da socialização das pessoas no seio da família e, no hospital, ajuda na reabilitação da família e do paciente.
“Preparamos o pessoa logo à entrada e saída da unidade sanitária”, acentuou, para explicar, a título de exemplo, que “o doente para ser amputado precisa de ser preparado, porque, quando for a casa, já não é a mesma pessoa, do ponto de vista social e físico”.
Quando demonstrava que os meios de trabalho ainda são exíguos, Alfredo Quilulo apontou, como exemplo, o carro que ainda é partilhado com as outras áreas.
“Se a Polícia trouxer uma mulher com uma criança ao colo, vítima de acidente, as duas são separadas. Por causa das bactérias, a criança tem de ser levada a um centro de acolhimento. O processo é muito demorado porque, às vezes, não temos viatura disponível, porque levou um doente a uma outra unidade.”

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