Sociedade

Crianças abandonadas num estaleiro de obra no Sequele

Avelino Umba | Cacuaco

Mais de 30 crianças de várias idades, vindas de algumas províncias do país, em companhia dos pais, à procura de melhores condições de vida, estão abandonadas à sua sorte num estaleiro de construção civil, afecto a uma empresa chinesa, que serviu de suporte às obras de construção da Centralidade do Sequele, município de Cacuaco, apurou o Jornal de Angola no local.

Fabrico de blocos de alvernaria é uma das actividades exercidas por pais de algumas crianças num estaleiro
Fotografia: Edições Novembro

Os menores vivem em naves sem qualquer condição de habitabilidade, num cenário bastante desolador, com camiões avariados e queimados a completarem o cenário do local.
Fruto de uma denúncia feita ao administrador municipal de Cacuaco, Auxílio Jacob, sobre a situação das famílias naquele local, fixadas na condição de trabalhadores da empresa Chinesa CTC, a entidade administrativa efectuou uma visita surpresa ao local, com o objectivo de constatar a veracidade dos factos.
O ambiente no local deixa qualquer um incrédulo, no que diz respeito à acomodação dos que lá vivem, numa mistura de crianças de tenra idade, adolescentes, jovens e adultos que disputam um lugar para o descanso dentro das naves.
O Jornal de Angola apurou que alguns dos adultos são provenientes do interior do país, recrutados para trabalhar na agricultura, em pequenos campos de cultivo, mas chegados na região passaram a exercer qualquer tipo de actividade, com destaque para o garimpo de inertes.
Alguns intervenientes manifestaram-se insatisfeitos pelo tratamento que lhes é dado pelos expatriados chineses e, ao mesmo tempo, pedem o apoio das autoridades para inverter o quadro.
Kito Sanguele, 20 anos de idade, veio, há quatro anos, da província do Bié, em companhia dos pais e três irmãos menores. Trabalha com outros oito elementos na produção de soja, milho, couve e outros produtos agrícolas pertencentes a chineses, ganha 30 mil kwanzas mensalmente e não conhece o nome da sua entidade patronal.
O jovem conta que vive em condições de extrema pobreza. “Viemos da província do Bié, em companhia dos meus pais e mais três irmãos menores à procura de emprego. Vivemos em condições difíceis, mas como não temos onde encontrar as melhores condições sociais, somos obrigados a ficar aqui com esta miséria”, lamentou.
Damião Camukila, outro elemento a viver a mesma situação, disse que trabalha com os chineses naquele estaleiro, há três anos, e veio da província do Huambo, também à procura de emprego.
No local, uns trabalham no campo e outros no fabrico de blocos de alvenaria para a construção civil e cada um recebe a quantia de 30 mil kwanzas mensais, num período laboral de 30 dias sem descanso, nem durante os finais de semana, nem nos feriados.
“Não tem sido fácil a nossa vida aqui, pois o chinês não dá férias a ninguém”, queixou-se para depois assegurar que alguns pais estão preocupados com a formação académica dos filhos e matricularam os mesmos em escolas situadas nos arredores da Centralidade, mas outros não conseguem fazê-lo, devido à falta de registo civil.
Damião Camukila lança um apelo às entidades competentes no sentido de darem uma ajuda àqueles populares, para obterem documentos que atestem a cidadania angolana.

Administrador

Confrontado com a situação no local, o administrador municipal de Cacuaco, Auxílio Jacob, bastante insatisfeito, admitiu a hipótese de existência de tráfico de crianças, tendo prometido propor a criação de uma comissão multidisciplinar, no sentido de se encontrar uma solução para a problemática que se vive naquele estaleiro.
De acordo com o administrador municipal de Cacuaco, a situação naquele estaleiro “é deplorável, com estruturas abandonadas, carros queimados, jovens em idade activa para trabalharem, mas confinados naquele recinto”.
“Os chineses confirmaram que os estaleiros estavam fechados e não sabiam que havia pessoas a residir, com um número elevado de crianças, em contentores sem condições de habitabilidade e com crianças desnutridas”, destacou o admi nistrador.
Auxílio Jacob garantiu propor uma comissão multidisciplinar, envolvendo a Acção Social, INAC e o Ministério da Construção e Obras Públicas, para se tomar medidas e fazer com que essas crianças e jovens sejam inseridos num ambiente mais saudável.

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