Sociedade

Crianças maltratadas voltam a sorrir no Zaire

Fernando Neto | Mbanza Kongo

Manzambi Manzungani, 13 anos de idade, reside no Centro de Acolhimento Frei Giorgio Zulianello, há sete anos, por ter sido abandonado pelos familiares, acusado de feiticeiro. O rapaz  vivia com um tio no município de Kuimba, após o falecimento dos pais, vítimas de acidente de viação, em 2011.

Patrono do Centro de Acolhimento e Formação Profissional Frei Giorgio Zulianello posa com algumas crianças
Fotografia: Garcia Mayatoko | Edições Novembro | Mbanza kongo

No seu testemunho, Manzambi Manzungani afirma que a dado momento o tio começou a maltratá-lo, devido à teimosia e desobediência que apresentava, comportamento confundido pelo encarregado de educação como prática de feitiçaria.
Na altura em que foi expulso de casa, ele comia à custa dos vizinhos.  Mais tarde, devido à sua presença constante nas ruas de Mbanza Kongo, onde ia em busca de alternativa para sobreviver, foi   recolhido por uma equipa do MINARS, que o encaminhou para o centro Frei Zulianello, onde se encontra actualmente a estudar a 7ª classe.
Todas as manhãs, depois do pequeno-almoço, Manzambi Manzungani desloca-se ao Centro de Formação do INEFOP para aprender mecânica. À tarde, ele e outros rapazes cumprem algumas tarefas de limpeza e higiene no centro e praticam actividades desportivas.
O mais pequeno do estabelecimento é um bebé de seis meses, vítima de abandono familiar, e o mais velho tem 18 anos e chama-se João Ladoze. Chegou ao centro com dois anos de idade, conforme assegurou o director da instituição, Frei Danilo Grosselle.
Natural de Kuimba,  João Ladoze é órfão de pai e mãe e foi levado para o centro pelo MINARS, devido às condições precárias da casa da avó. Entre as 61 almas residentes no centro de acolhimento, figuram  crianças vítimas de rapto, agressão física e psicológica.
Nas comunidades, onde existem membros das redes de protecção da criança, constituídas por pastores, professores, sobas e encarrega-
dos de educação, são denunciados à Polícia Nacional ou ao INAC os actos de violência contra menores.
O único albergue  na província do Zaire para albergar crianças abandonadas e acusadas da prática de feitiçaria  é o Centro de Acolhimento e Formação Profissional Frei “Giorgio Zulianello”, localizado em Mbanza Kongo.
O estabelecimento oferece oportunidades de enquadramento social a centenas de crianças vítimas de agressão física e psicológica dos próprios familiares, desde 2001. Para garantir o futuro dos rapazes, o centro enquadra-os em escolas e os mais crescidos em cursos de formação profissional. Até ao momento, a instituição contribuiu para a inserção socioprofissional e integração familiar de mais de mil crianças.
“A maior parte dos rapazes são vítimas de acusação de feitiçaria e abandono fa-miliar”, segundo palavras do director do Centro, Frei Danilo Grosselle, para quem as áreas de cozinha e quartos de banho colectivos  necessitam com urgência de obras de restauro.
O sonho do director é ver um dia todas as crianças reintegradas na sociedade e poder encerrar o centro com o sentimento do dever cumprido.
Numa palestra realizada, há dias, em Mbanza Kongo, enquadrada na jornada da criança, sob o lema “Refor-çar a municipalidade dos 11 compromissos, para garan-tir a protecção da criança”, ficou patente o registo de 2.188 casos de violação dos direitos da criança, notificados em 2017, além de outras 403 ocorrências, catalogadas de Janeiro a Maio do ano em curso.
O número de crianças acusadas da prática de feitiçaria, na província do Zaire, era as-tronómico no passado. Pastores de algumas seitas reli-
giosas eram os promotores deste tipo de acusação, na qual apontavam o dedo a menores órfãos e enteados como feiticeiros, uma prática que mais tarde foi sendo seguida por muitas famílias.

Kuimba com mais vítimas
Rafael Kidiwa, que responde pelo INAC no Zaire, disse que entre os seis municípios da província, o Kuimba acolhe a maior taxa de casos de violação dos direitos da criança, sobretudo em ocorrências de trabalho infantil, fuga à responsabilidade parental, violação sexual, incesto, o uso excessivo de bebidas alco-ólicas e gravidez precoce, in-cluindo incumprimento de prestação de alimentos.
 Para um desenvolvimento integral das crianças, o Go-verno defende ser necessário um maior envolvimento da família nas acções pedagógicas. Ao falar sobre o tema, o vice-governador para o Sector Político, Social e Económico do Zaire, António Félix Kialunguila, disse que a família, apesar da sua desestruturação actual, assume um papel preponderante na garantia de condições para o desenvolvimento integral da criança.
Para António Félix Kialunguila, a realização de campanhas de sensibilização sobre a violência contra a criança em todos os municípios, comunas e aldeias, através do INAC, afigura-se como um passo importante para garantir que mais crianças tenham acesso à educação, crescimento harmonioso, protecção e saúde.
“Diante das alterações económicas, sociais e políticas, a instituição familiar sofreu muitas mudanças, ficando longe dos moldes que a caracterizavam no passado (pai, mãe e filhos)”, disse António Félix Kialunguila, para quem o fenómeno da desestruturação familiar acarreta consequências, com destaque pelos atropelos cruéis dos va-lores morais e cívicos.

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