Sociedade

Danos causados pela chuva narrados na primeira pessoa

Isidoro Natalício | Ndalatando

Adilson Manuel João, 26 anos, que antes vivia no bairro da Camundai, em Ndalatando, Cuanza-Norte, com a esposa e cinco filhos, foi obrigado a “refugiar-se” no bairro Vieta, devido à destruição da sua casa, na sequência da chuva que se abateu sobre a região, na passada sexta-feira.

Chuvas de sexta-feira destruíram várias casas deixando ao relento muitas famílias
Fotografia: Edições Novembro

No local onde estava erguida a casa são visíveis bens destruídos, como televisores, colchões, roupas, fogão e mesa, enquanto outros objectos estão soterrados. Era uma casa de adobe, sem reboque e revestimento em cimento armado do caboco, que a tornava vulnerável à água, sobretudo quando em elevadas quantidades.

Desabrigadas pela chuva estão também as famílias de Miguel Caluge, 29 anos, e de Domingos Jamba, 66. Miguel perdeu quase tudo e Domingos diz que o que mais o preocupa é a falta de comida para alimentar a família. “Tinha feito alguma reserva, por causa da Covid-19, mas tudo foi com a água da chuva, estou sem nada”.
Na casa do sexagenário Domingos Jamba, de chapas de zinco, a água atingiu cerca de 40 centímetros de altura. Passou o sábado sem comida e na manhã de domingo comeu pão simples, oferecido por alguém caridoso.
Adilson, Jamba e Miguel reconhecem que construíram em zona de risco, desaconselhada há largos anos pelas autoridades. Adilson perde a casa pela terceira vez. A primeira foi em 2010 e a segunda no ano antepassado, todas elas na mesma circunscrição, nas imediações da famosa loja Vieta.
“É a falta de outro terreno que me obriga a ficar aqui, ajudem-se com outro espaço, senão sou obrigado a continuar aqui”, disse.
Segundo moradores da zona da loja da Vieta, as águas da chuva começaram a destruir desde que entupiu um dos esgotos situados no troço da Estrada Nacional 230 que atravessa o bairro Camundai e se ergueram instalações de fabrico de materiais de construção nas imediações.
Nos últimos dez anos, em cada época chuva, registam-se quase sempre fortes quedas pliviométricas, acompanhadas de ventos, com a duração de cerca de três horas, que têm causado vários prejuízos.
A chuva de sexta-feira foi sem fortes ventos e durou mais de sete horas.
Munícipes disseram à nossa reportagem que quando a chuva demora mais de duas horas três riachos (Muembege, Catende e Camungo) tendem a quintuplicar o caudal e em consequência arrasam casas, sobretudo de adobe, construídas nas margens, em bairros como Pose, Sambizanga, 28 de Agosto, 11 de Novembro, Ilha, São Filipe e Camundai.

Números da tragédia
As fortes chuvas que se abateram sobre alguns municípios do Cuanza-Norte na passada sexta-feira, além de duas mortes, desalojaram mais de mil famílias, com maior incidência na cidade de Ndalatando.
No município do Cazengo ficaram inundadas 284 residências e 119 foram destruídas em Ambaca, Cazengo, Golungo-Alto, Lucala e Samba-Caju.
Na óptica do comandante provincial do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Zacarias Quinanga, o número de sinistrados pode aumentar nos próximos dias, estando em curso o levantamento dos danos causados, em diversas comunidades afectadas.
O Governo da Província do Cuanza-Norte, acrescentou, comandante do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, prevê a criação do projecto urbanístico de São Filipe, na zona Sudeste de Ndalatando, para realojar famílias que vivem em áreas de risco.
No dizer do governador Adriano Mendes de Carvalho, o projecto estratégico visa responder satisfatoriamente à procura pela habitação e espaços condignos, onde se possa desenvolver actividades que concorram para a melhoria da qualidade de vida da população.
Adriano Mendes de Carvalho disse que o projecto será implementado numa área de 704 hectares, dos quais 120 destinados à habitação, dando origem a 3.676 lotes, que podem albergar 18.380 pessoas. Informou que vários meios para o arranque do projecto já estão em Ndalatando, mas infelizmente a zona seleccionada tem um suposto dono, que nega-se a cedê-la.

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