Sociedade

Doenças cancerígenas atingem anualmente 200 crianças no país

Mazarino da Cunha| Edições Novembro

Marta Varela está sentada com o filho de dois anos, ao colo, depois de uma sessão de quimioterapia, numa das salas da Pediatria do Instituto Angolano de Controlo do Cancro, em Luanda.

Proveniente de Cabinda, a mãe acariciava o menino que padece de cancro, tipo neuroblastoma, que afecta o abdómen, há um mês.
À semelhança de outras mães, vindas do interior do país, Marta Varela contou ao Jornal de Angola como veio parar à unidade sanitária especializada em tratamento de cancro.
Há cerca de dois meses e meio, disse Marta Varela, o filho foi apresentando sintomas “estranhos” na região do abdómen, que não lhe permitia dormir, mas após internamento, desde 14 de Janeiro do corrente ano, "já é possível notar mudanças positivas desde que começou a fazer as sessões de quimioterapia".
Com uma ligeira inflamação no abdómen, a criança lacrimejava, pedindo à mãe que lhe pusesse ao colo, depois de uma longa sessão de quimioterapia, que tem por objectivo tratar o cancro, de acordo com o esclarecimento do médico Fábio da Silva.
Baduína Capaz, vinda do Cuanza-Norte, está há seis meses na ala pediátrica a cuidar do filho, que também sofre de um cancro abdominal.
Mais do que falar das sessões de quimioterapia que o filho passa, Baduina Capaz preferiu realçar o atendimento que recebe por parte dos profissionais da unidade hospitalar que, por sinal, é a única do país com a especialidade em diagnosticar e tratar o cancro.
A mãe do menino de dois anos contou ao Jornal de Angola que foi pesado quando soube que o filho tinha uma doença que, inicialmente, pensava não ter tratamento. Era choro atrás de choro, porque não tinha informação de que o nosso país tem condições humanas e técnicas para tratar doenças cancerígenas.
A pediatria do Instituto Angolano de Controlo do Cancro está localizada na rua Amílcar Cabral, em Luanda, não diagnostica e trata apenas crianças, mas também adultos. Na quarta-feira, 13, o Jornal de Angola encontrou o jovem Afonso Manuel, que fazia a sessão de quimioterapia para tratar um cancro do tipo retinoblastoma, que afecta o olho.
Natural de Luanda, o jovem foi diagnosticado, em Novembro de 2018, mas os sintomas começaram em finais de Junho do mesmo ano. Afonso Manuel sentia que o olho direito parecia fisicamente diferente do outro.
Com um rosto que expressava esperança na recuperação, Afonso Manuel afirma ter ganho muito com as várias sessões de quimioterapia e garantiu que vai continuar com o tratamento até os profissionais determinarem.
Fábio da Silva, médico interno de Oncologia Pediátrica do Instituto Angolano de Controlo do Cancro disse que, apesar das limitações sociais, técnicas e de recursos humanos, o resultado do tratamento dos vários tipos de cancro é positivo.
O médico afirmou que entre os vários tipos de cancro infantil, os mais frequentes são os retinoblas-
toma, o tumor que afecta os olhos, os nefroblastoma, dos rins, os neuroblastomas, células nervosas, podendo também atingir o tórax, abdómen, pélvis e os linfomas (tumores que afectam o sistema linfático, sangue ou outras células líquidas).
O médico disse que um dos grandes problemas que a unidade hospitalar enfrenta tem a ver com a falta de uma casa de apoio, onde os familiares dos pacientes possam estar alojados, para acompanhar o tempo necessário as sessões de quimioterapia.
Qualquer tipo de cancro, frisou o médico, é curável quando é diagnosticado logo no início e com o seguimento rigoroso do tratamento por parte dos profissionais no instituto e em especial da família. "O papel da família e da sociedade é muito importante para o sucesso de qualquer cancro infantil", realçou.
Sobre as causas do cancro, o pediatra esclareceu que as origens podem ser de ordem hereditária, sócio-alimentar, ambiental e in-fecciosa, por falta de cuidado pessoal, higienização e saneamento precário nas residências. Sendo assim, o especialista aconselha a que de tenha bons hábitos alimentares, o não uso de álcool e tabaco, bem como fazer com regularidade consultas de rotina.
Único especialista em Oncologia em Angola, Diego Mota, de nacionalidade venezuelana, disse que apesar de se registarem dois a três casos novos por semana, o número não é alarmante para um país tão extenso, se comparado com outros, onde anualmente são diagnosticados, entre 150 a 200 crianças com a doença.
De 2018 a Janeiro de 2019 houve uma diminuição no número de mortalidade na unidade hospital, apesar de o cancro ser uma doença com características agressivas e que precisa de um diagnóstico imediato.
O 15 de Fevereiro é o Dia Internacional da Criança com Cancro e visa ajudar os menores vítimas da doença a terem acesso a tratamento e ao mesmo tempo ajudar as famílias afectadas.
Hoje, o Instituto Angolano de Controlo do Cancro, em pareceria com a Liga An-golana de Luta Contra o Cancro, realiza uma conferência sobre a temática e o papel da sociedade no combate à doença.

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