Sociedade

Donos de terrenos no Zango vivem há décadas em cubatas de chapas

Augusto Cuteta

Nas chapas muito gastas, que encobrem as partes laterais, além do tecto da casota, está grafado o número de registo de moradores, feito por uma comissão instruída pelos Serviços de Fiscalização de Viana. O rabisco CM.KT n.º 479, a tinta preta, não é o primeiro que se marca na cubata. Houve outras  vezes este tipo de procedimento.

 

Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

Nas chapas muito gastas, que encobrem as partes laterais, além do tecto da casota, está grafado o número de registo de moradores, feito por uma comissão instruída pelos Serviços de Fiscalização de Viana. O rabisco CM.KT n.º 479, a tinta preta, não é o primeiro que se marca na cubata. Houve outras  vezes este tipo de procedimento.
Embora o clima esteja bastante quente, dentro de uma dessas casas está a anciã Joana Sebastião António,   obrigada a ficar mais tempo fechada entre as quatro paredes de chapas de zinco, porque as forças já lhe faltam. Desconhece a idade, mas as vizinhas arriscam  avançar que ela tenha mais ou menos 100 anos de vida.
Com uma dimensão de mais ou menos dois metros e meio de altura e três de largura, a casa, aliás, o quarto da avó Joana, como é assim tratada, faz parte das primeiras a serem registadas no bairro Kitondo I, ali bem próximo da chamada “Paragem das motos”, no Distrito Urbano do Zango 3.
Apesar da idade, a velha ainda se dedica a pequenos negócios como os que fazem quase todos os moradores do bairro, que acolhe mais de três mil famílias, mas uma trombose, há cerca de um ano, coloca de lado essa possibilidade. A doença afecta o membro superior direito. 
Em consequência disso, a velha Joana António de-pende, para exercer uma série de tarefas, de uma neta que vive ali próximo e, em muitas  ocasiões, da ajuda de vizinhas de boa fé. Nos dias em que não aparece ninguém, ela passa fome. Pelo menos é o que aconteceu no sábado quando o Jornal de Angola a visitou, por volta das 12h00. “Ainda não comi nada, porque não tenho lenha para ferver o arroz”, lamenta, e, esticando os beiços, indica a bacia onde guarda o produto. Em língua quimbundo, a velha diz, com mágoa, que a vida lhe tem sido ingrata, desde muito cedo.
Dos 19 rebentos gerados, a velha Joana viu 17 dos filhos partirem para o além. O filho mais novo faleceu há bem pouco tempo, com mais ou menos 60 anos. “Eu nasci bem, mas é uma pena que quase todos tenham morrido antes de mim”, lamenta, enquanto luta para fugir de dentro de casa, onde o calor é cada vez mais forte.
Sentada numa cama de madeira, que ocupa quase todo o espaço que tem o único compartimento da casota, a anciã balança as pernas e, com uma das mãos, limpa as ramelas no olho esquerdo, órgão destruído por uma infecção, que causou, igualmente, uma enorme ferida no rosto, além de lhe roubar parte da visão.
Apesar das dificuldades, mais de 30 anos depois, a idosa resiste e espera pelas promessas incumpridas, até agora, do Governo Provincial de Luanda, que havia negociado com os camponeses para estes cederem os terrenos em troca de dinheiro e casas algures no Zango.
Mas, passadas cerca de três décadas, nada disso se vê. A anciã e outras centenas de camponeses, muitos dos quais já falecidos, perderam as lavras e, hoje, vivem atirados à sua sorte, num bairro pobre demais, ali bem rentinho à estrada Zango-Calumbo. O acordo com as autoridades foi apenas uma miragem, acreditam os camponeses, que acusam os responsáveis de Luanda de lhes terem mentido.
Para eles, “não se entende como vários projectos habitacionais foram ali erguidos em todos os  Zangos" e nunca foram tidos nem achados.
“Nós demos as nossas lavras, para construírem as casas. Essas casas estão habitadas por outras pessoas, quando nós estamos aqui a sofrer  estes anos todos. Mes-mo com esta idade, ainda estou à espera de viver o so-nho de ter casa própria, como eles prometeram”, confia a velha Joana.
Se avó Joana vive só, outras tantas famílias são bastante numerosas, a julgar pela dimensão das casas que ali existem. Há umas com mais de oito pessoas num quarto de três metros. 
Domingas Matias e Faustina Timóteo, ambas de 60 anos, dizem que a situação no Katondo I é deplorante. Por isso, pedem a intervenção urgente das autoridades centrais, tendo em conta as dezenas de vidas que se perdem em cada ano que passa.
Nas duas secções do Ki-tondo I, divididas pela estrada Zango-Calumbo, que passa no meio do bairro, os casos de óbitos por doenças são muitos. A malária, as diarreias, as infecções pulmonares e da pele e a hipertensão, esta última a atingir grande parte dos adultos, lideram a lista de enfermidades. As moradoras alegam que algumas mortes são resultantes da frustração.
As duas senhoras, filhas de antigos camponeses, chegaram à zona ainda meninas. Viram os pais morrer e, com isso, sentem acabar também o sonho de ter uma casa condigna, assim como perderam a oportunidade de continuarem a fazer o que mais sabem: cultivar a terra.
Agora, na terceira idade, elas e milhares de outras pessoas depositam  a  sua esperança  no Presidente João Lourenço, por quem dizem nutrir muita admiração. “É o único garante de que as nossas vidas podem mudar um dia”, desabafam.
As moradoras recordam que, quando entregaram as lavras, as casas que tinham no bairro eram de capim mas, por causa dos incêndios que chegaram a dizimar famílias inteiras, foram obrigados a construir os casebres de chapas. O lamentável, contam as moradoras, é que as casas prometidas pelo Estado não chegam, mas as autoridades proíbem que os antigos camponeses construam habitações definitivas nos espaços que ocupam actualmente.
“Muitos fazem alguns negócios e podem erguer casitas de bloco, mas não deixam e continuamos nesse sofrimento”, referem.

Sem serviços básicos
A luta dos moradores do Ki-tondo I não fica apenas pela conquista das casas prometidas, há décadas, pelo Go-verno Provincial de Luanda. Há outras  batalhas por vencer. Quem passa por ali  vê algumas casas, embora pequenas e de chapas, com antenas parabólicas montadas nos tectos. Mas, esse cenário, para muitas famílias, é apenas “um luxo na miséria”.
Aquelas tampas brancas expostas por cima das casas não representam a realidade que muitas dessas famílias vivem, tendo em conta que “umas quando tomam o pequeno almoço hoje, só voltam a jantar amanhã”. A fome e a pobreza reinam entre os moradores do bairro, deixou claro o coordenador da área.
José Paulo disse que a fome e as doenças não são os únicos problemas da população. Há falta de luz eléctrica, de água canalizada, de escola e de serviços de saúde.
A água é adquirida a partir de cisternas que passam pelo bairro, enquanto os pequenos electrodomésticos como televisores, rádios e ventoinhas funcionam à base de energia produzida por geradores.
“Nós gastamos muito di-nheiro com a gasolina.  Numa noite podemos usar mais de 800 kwanzas na compra do produto”, referiu o coordenador, para quem a situação está incontrolável.
O saneamento não funciona e as famílias são obrigadas a improvisar para evi-
tarem o pior.
Por exemplo, grande parte delas deita o lixo que produz nas poucas ruas do bairro. A recolha dos resíduos é feita uma vez ou outra.

Uma “suite” incrível

Quando íamos a sair da casa de dona Joana da Silva, outra moradora, salta-nos à vista um caso caricato. Por falta de mais espaço, a casa  da filha  tem, como quase todas, uns três metros de largura e dois de altura. Dentro, vê-se uma cama, um tampo sobre um tripé, que faz papel de mesa, e num cantinho, ali mesmo, uma sanita branca.
Quando chove, ninguém dorme, explica dona Domingas Matias. As casas ficam totalmente inundadas e as famílias são obrigadas a pernoitar acordadas, uma vez que se dedicam a retirar a água  para fora e a tentar proteger os poucos móveis que possuem.
Os jovens,  todos nascidos no bairro, também lançaram o seu grito de socorro e pedem que sejam criadas condições para  saírem da situação em que vivem. “Aqui, o divertimento de muitos, até de miúdas de menos de 14 anos, é fazer filhos, porque não há outras coisas”, exemplificam. No bairro, há muitas meninas com filhos, cujos pais, na maior parte, não assumem a paternidade das crianças, embora estejam identificados, mas outros relatos apontam para casos de “filhos sem pais”, porque a própria rapariga desconhece o verdadeiro parceiro de quem engravidou.
Resultado disso, muitas crianças, algumas em idade escolar, ainda continuam sem registo de nascimento. “Não estudam, crescem e  tornam-se uma ameaça para nós, porque partem para a delinquência”, salientam os moradores.

Álcool e prostituição
O coordenador responsável do Lado A do bairro Kitondo I lamenta o aumento de práticas menos boas entre os jovens da comunidade.
José Paulo disse que um dos principais problemas é a prostituição, que está a arrastar muitas adolescentes. “Há muita pobreza e a falta de ocupação faz com que as adolescentes e jovens vendam seus corpos, para conseguir algo para comer e vestir”, lamenta o coordenador.
A prática não envolve só jovens e adolescentes. Nos últimos tempos,  de acordo com José Paulo,  muitas mulheres também estão mergulhadas na prostituição.
“Essas, às vezes, incentivam as próprias filhas a partirem para o vício”, afirma.
Se algumas mulheres têm na prostituição uma forma de ganhar a vida, muitos homens, jovens e adolescentes, por sua vez, encontram nas drogas ilícitas (liamba, principalmente) e no uso excessivo de bebidas alcoólicas, algumas caseiras, a solução para afogarem os problemas.
A falta de emprego e de instituições de formação profissional, segundo o coordenador, contribui para que muitos jovens caiam na delinquência. “São esses jovens que mexem nas coisas daqui das famílias, que já andam muito carente. Ninguém consegue sair de casa por um dia, porque eles levam tudo do pouco que temos”, conclui José Paulo.

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