Sociedade

Evitar a dor do parto em hospital público e pagar uma fortuna em clínica privada

Um parto normal ultrapassa um milhão de Kwanzas em algumas unidades privadas. Mulheres que já tiveram passagem em maternidades públicas para dar à luz falam em "atendimento desumano", razão que as faz recorrer a clínicas privadas. Por causa dos altos custos, recorrem ao crédito para ter um parto que adjectivam como “seguro”.

Fotografia: Edições Novembro

Quando Edite desata a falar da noite de 6 de Abril de 2013, logo se percebe, pelo seu tom melancólico, algum ressentimento. Não pelo nasci-mento da primogénita, mas “pela forma brutal” como foi atendida numa maternidade pública.
A mulher de 39 anos tem ainda gravado todos os ângulos do que viu: uma mulher estava a ter o bebé no corredor, sem ajuda; outras gritavam amargamente na recepção, algumas com sangramento e em prantos. Mesmo assim, "a maioria recebia berros da equipa médica".
“Aquelas mulheres não estavam a ter assistência mé-dica”, recorda.
O que até agora faz confusão na cabeça de Edite é a insensibilidade de uma parteira diante da situação de outra mulher em trabalho de parto. Ela conta na primeira pessoa a sua própria experiência. Mal entrou na sala de parto, uma parteira perguntou que idade tinha. “Respondi que tinha 31 anos. A enfermeira olhou para mim e, num tom sarcástico, disse-me onde estava durante todo o tempo para fazer filho”, lembrou.
Prossegue o relato, dizendo que, no mesmo instante, a enfermeira sorriu e acrescentou, apontando para uma das camas: “olha para aquela criança de 11 anos, já deu à luz e você até agora ... nada. Por isso, é melhor se despachar, senão vamos embora e vais ter de esperar um outro turno”. Uma mulher já adulta, que acabava de dar à luz, sussurrou para Edite e transmitiu alguma experiência: “minha filha, não grite mais, porque quanto mais gritar, o bebé não sai”. “Foi graças a esta mulher que, depois de alguns minutos, a minha filha nasceu”, admite a mulher. As más recordações de Edite aumentaram tão logo a parteira gritou para que se apressasse até à sala de parto.
“Enquanto caminhava, a cabeça do bebé já estava visível e, ainda assim, não tive apoio da enfermeira”, afirma, para recordar as palavras da-quela: “se o bebe cair, a culpa não vai ser minha”.
Edite lamenta que lhe tenha sido feito um rasgão, sem anestesia, no órgão genital, para dar passagem ao filho. “Chega-se a uma altura em que a dor parece não existir, de tanto sofrimento”, avança. Depois do parto, não foi possível receber soro, porque, de tanto nervosismo, fruto do que chama maus-tratos, as enfermeiras não encontravam a veia.
“Elas deixaram-me com pequenos hematomas. Na sala, estavam mulheres nuas e homens da limpeza a passar de um lado para outro”.
Desde aquela data, Edite jurou nunca mais voltar a uma maternidade pública para dar à luz. Ela queixa-se da falta de condições hu-manas e materiais: “partilha da cama com outras parturientes e colchão castanho de tanto sangue seco”, aponta como exemplos.

“Não tomei banho”
No momento da sutura, Edite lembra que ficou chocada com a atitude de uma enfermeira, que abandonou paci-entes por estarem a gemer de dores. Enquanto estava a ser suturada, diz que foi intimidada pela enfermeira, que não mostrava qualquer sinal de humanismo. “Ela disse-me, em tom abusivo, que era melhor calar a boca, porque, se me cosesse mal, o meu marido ia fugir-me”.
Naquela noite, Edite e a parturiente com quem partilhou a cama não pregaram no sono, porque o colchão era exíguo e só cabiam os recém-nascidos. Ambas deitaram-se sobre as extremidades da cama, com o risco de a hemorragia aumentar.
Já de manhã, explica, desistiu do banho, porque o ralo do banheiro parecia obstruído. A água estagnada estava en-sanguentada. “Estavam seis ou sete mulheres a tomar banho, ao mesmo tempo. O chão estava com sangue e era arriscado. Havia o perigo de contrair doença, porque a água que saltava de uma ia para a outra parturiente”.
Antes da alta médica, todas as parturientes são submetidas a uma observação. Uma parteira avalia o estado de cada. “Com as dores, tentei gritar e a enfermeira abandonou-me. Ela destratou-me e se negou a observar-me, porque pedi que esperasse um pouco por causa das dores. Em seguida, pedi várias desculpas, mas, ainda assim, foi-se embora”, acentuou, para lembrar que, sem a observação, a parturiente não recebe alta.
Edite e outras mães suplicaram para uma outra enfermeira, que as observou sem resmungar. Conta que a cama de observação estava ensanguentada e que retirou guardanapos da pasta para limpar o sangue de uma outra mulher.
“Mandam-te deitar numa cama com sangue”, disse, lembrando que, logo que entrou ao hospital, percebeu que o atendimento era deficiente. "Tive medo de tudo… de tudo mesmo. Nunca mais volto a uma maternidade pública, mesmo que tenha de me endividar para ir a uma clínica privada”.
Por isso, em 2016, Edite juntou 600 mil kwanzas, para dar à luz numa clínica. O mesmo procedimento repetiu no ano passado. “Não volto nunca. Recuso-me a voltar àquela maternidade, para o meu bem e dos meus filhos”, sustenta.

Duas parturientes, uma cama

Antes de ter o filho, Vilma, 38 anos, já ouvia histórias de que as parteiras em hospitais públicos maltratavam as mulheres. Também ouvia dizer que faltava carinho e humanismo. Em 2009, Vilma dirigiu-se a uma maternidade pública, para ter a sua primogénita.
Conta que, pela manhã, sentiu as primeiras dores, que a forçaram a recorrer à maternidade, mas, depois de uma rápida avaliação, a médica informou que ainda não era a hora. “As dores do parto prolongavam-se, daí que sugeri ao médico que fizesse uma ecografia”.
Pedido aceite. Já na sala de ecografia de um estabelecimento privado, o técnico orientou que voltasse imediatamente à maternidade, porque estava a perder líquidos. De regresso, a jovem ficou mais de duas horas na recepção, sem atendimento.
“Falei com a parteira. Não me atendeu. Recorri à mé-dica, que me atendeu. Em se-
guida, deu-me um comprimido para pôr debaixo da língua”, explica. Porém, o receio começou a apoderar-se dela, quando viu três parturientes numa cama.
“Fui à casa de banho. Nem as empregadas de limpeza respeitavam as pacientes”, salienta, acentuando que as parteiras não ajudam. "O pior é que elas, por incrível que pareça, não acreditam que aquelas mulheres estão com dores e nem sequer se mostram preocupadas, porque acham que estamos a exagerar”.
Vilma diz que, depois do parto, pediu a uma médica que a ajudasse a destapar ligeiramente o rosto do bebé, deitada no berçário. “A médica perguntou-me se eu era da confiança dela”, recordou, angustiada. “Fui suturada sem anestesia… Foi um terror, devido às dores”, afirma. Tal como a Edite, Vilma admite ter saído traumatizada do hospital, depois da observação feita antes da alta médica.
“Elas falam sem maneira. E a enfermeira disse-me: 'abre as pernas, porque na hora de…”, conta, numa voz trémula. Segundo a mulher, a equipa médica exige que todas as parturientes andem depressa para chegar à sala de observação.
“Fiquei traumatizada e disse, para mim mesma, que nunca voltaria a pôr os pés naquela maternidade”.
A mulher avalia que as parteiras nem parecem hu-manas. "Às vezes parecem seres de um outro planeta. É difícil entender um profissional sem humanismo. Elas esquecem que aquela paciente poderia ser sua filha ou irmã”.
Uma hora depois de dar à luz, prossegue Vilma, deixou a sala de parto com os próprios pés. Com o bebé ao colo, subiu as escadas até à Sala de Internamento. “Sem apoio, andei pelas escadas, com dores da sutura”, sublinhou, com os punhos cerrados. Esguia, de cabelo curto, Vilma afirma que as maternidades tratam as pessoas como se fossem seres desprezíveis. Naquele dia, ela quis sair daí o mais rápido possível.
“Percebi as razões que fazem com que muitas mulheres se atirem para baixo. Acredito que seja devido aos maus-tratos, porque a minha vontade era fugir daquele lugar”.
Antes de deixar o hospital, Vilma pensou que já tinha visto tudo, mas não. “Vi uma mulher a ser torturada psicologicamente, porque, quando chegou, estava com imensas dores e sem atendimento. Uma parteira disse-lhe: 'estavas aí a gritar muito, agora está ali, o teu bebé morreu. Agora, chora mais…' A parturiente ficou impávida e sem deitar uma lágrima sequer, a sofrer por dentro”. Vilma afirma que muita gente não tem ideia do que se passa dentro das maternidades.
A mulher fez vincar o desejo de jamais voltar a maternidade pública. Para dar à luz o último filho, optou por juntar o salário e ir a uma clínica, apesar dos preços altos.
“Tenho pena das outras mulheres que não podem ir a uma clínica”. Refere que se lhe faltar dinheiro, vai preferir ter o bebé em casa.

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