Sociedade

Falhas dos profissionais punidas com duras sanções

Yara Simão

Lucrécia Domingos, de 24 anos, veio do município do Mussende, na província do Kwanza-Sul, para tratar uma doença grave. No hospital e apresentou a guia médica, mas mandaram-na para casa.

Negligência Médica
A Comissão de Reestruturação do Hospital Américo Boavida quer mudar má imagem
Fotografia: Maria Augusta

 

Lucrécia Domingos, de 24 anos, veio do município do Mussende, na província do Kwanza-Sul, para tratar uma doença grave. No hospital e apresentou a guia médica, mas mandaram-na para casa. “Fui evacuada para o Hospital Américo Boavida para fazer análises. Mas aqui não me atenderam”, disse a paciente à nossa equipa de reportagem.
Uma funcionária ainda disse a Lucrécia Domingos que podia ser atendida mais tarde. Mas quando se apercebeu da nossa equipa de reportagem explicou que não havia médico disponível para atender a doente, “mas talvez se arranje alguém que possa consultá-la”.
A coordenadora da Comissão de Reestruturação do Hospital, Constantina Furtado, logo que se apercebeu do caso, deu ordens para que a paciente fosse atendida. “Nós estamos atentos a tudo que acontece no hospital, para que não venhamos a ter mais situações desagradáveis. Por isso, no Américo Boavida, os casos Mingota vão terminar”, assegurou.
Constantina Furtado explicou que a paciente trazia uma guia administrativa e não clínica, mas que a questão já tinha sido contornada.
Ela acrescentou que a comissão vai desdobrar-se em esforços para que situações como estas não voltem a acontecer: “vamos fazer sair alguns despachos para que atitudes menos dignas de profissionais de saúde sejam castigadas”.

Comissão de reestruturação

A coordenadora da comissão de Reestruturação do Hospital Américo Boavida, Constantina Furtado, disse que cada paciente tem direito a assistência médica e também a um bom tratamento psicológico. “O doente não deve simplesmente receber uma receita médica, é importante que o médico ou o enfermeiro saibam mais alguma coisa sobre o paciente e como tratá-lo”. Este é um dos principais objectivos que a Comissão de Reestruturação vai “atacar”.
O Hospital Américo Boavida, disse Constantina Furtado, está sobrecarregado porque “concentra muita população e o quadro de trabalhadores é insuficiente para responder à procura”.
Constantina Furtado reconheceu que existem muitas lacunas dentro do hospital, causadas pelo grande fluxo de doentes. “ Há casos que deviam ser tratados num hospital. Os casos de malária são um exemplo, porque temos uma grande taxa de mortalidade”.
A coordenadora da comissão de reestruturação não descartou a possibilidade de acontecerem casos de doentes rejeitados, “mas vamos redobrar esforços para que não aconteçam. Vamos ser duros e usar a autoridade que nos foi dada para que ninguém, boicote o nosso trabalho. Vamos responsabilizar quem quer que seja negligente”, avisou.

 Amor ao próximo
 
Constantina Furtado defende que os profissionais de saúde devem ter o amor como a chave fundamental para o tratamento dos doentes. “Quando tratamos os nossos pacientes com carinho, promovemos a sua auto-estima. Precisamos de ser amáveis, porque é importante vermos os nossos pacientes melhorarem devido à nossa atenção e dedicação”, disse a coordenadora, que considera o amor pelos pacientes, a solução de metade dos problemas.
O Hospital Américo Boavida, disse a coordenadora, “funciona como uma empresa com vários funcionários, mas cada um deve saber qual o seu verdadeiro lugar e não misturar as coisas. É importante que cada profissional de saúde reconheça a sua verdadeira função dentro do hospital para evitarmos a desorganização e a falta de cumprimento das suas tarefas”.
Constantina Furtado pediu para que a imprensa não revelasse apenas os erros, mas que também divulgasse as coisas boas que o hospital tem feito. “Apesar das debilidades, ainda há profissionais que, apesar de todas as dificuldades e fragilidade dão o seu melhor para manter doentes vivos apesar dos familiares já lhes terem passado a certidão de óbito”.

Dificuldades no hospital

O Hospital Américo Boavida tem graves carências. Uma paciente de 25 anos, ficou 30 minutos deitada dentro de um carro por falta de uma maca: “não temos macas e a cadeira de rodas está ocupada, vão ter de levá-la ao colo”, disse a enfermeira à família da paciente.
Os próprios funcionários do hospital têm graves carências sociais. “Não vou aqui prometer que vamos melhorar a vida de cada trabalhador, mas enquanto responsável, tenho de lhes garantir equilíbrio social e mental, para que eles possam tratar condignamente um paciente”.
Constantina Furtado espera o melhor da sua equipa de trabalho e dos colegas. “Acredito e confio neles. Através dos princípios éticos e deontológicos da profissão, vamos conseguir dar uma nova imagem ao hospital e ajudarmos o nosso Ministério a sair deste problema”.

Caça às bruxas

Nos últimos anos houve uma proliferação, dentro do sistema nacional de saúde, de várias clínicas e centro privados, onde os salários dos técnicos de saúde são muito maiores. Segundo Constantina Furtado, isso fez com que muitos profissionais de saúde tivessem dois empregos.
Face à situação, uma das maiores preocupações da Comissão de Reestruturação é fazer com que os médicos que trabalham em mais de uma unidade hospitalar cumpram o contrato que têm com o Hospital Américo Boavida. “Nós já nos encontramos numa situação diferente. Não vou aqui dizer que o salário é dos melhores. Mas já existe um salário e um subsídio de urgência razoável. Se cumprirmos bem c a nossa função podemos ser melhor reconhecidos”, considera a médica.
A coordenadora disse que não vai ser fácil acabar com a situação de duplo emprego dos médicos e outros técnicos de saúde. “É importante que o profissional de saúde cumpra com o seu horário de trabalho que é das 8 às 15h30m. Pode até terminar às 11 horas, mas deve permanecer no hospital porque podem aparecer casos urgentes, ou mesmo um dos pacientes piorar”, adverte.
A Coordenadora da Comissão de Reestruturação tem outra preocupação, que é a venda de medicamentos dentro do hospital. “Isto não é um lugar de vendas de medicamentos ou qualquer outro material hospitalar, o profissional que for apanhado a fazer isso, vai ser sancionado”, avisa 

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