Sociedade

Funda: Produção agrícola garante sustento a milhares de famílias

João Pedro

Há mais de quatro anos que as primeiras horas da manhã e a produção agrícola têm um sentido peculiar na vida de Maria Gaspar. Adepta da agricultura tradicional ou familiar, ladeada pelo esposo, a camponesa integra o conjunto de aproximadamente 8.470 famílias que, na comuna da Funda, município de Cacuaco, fazem do cultivo o seu principal meio de sustento.

Fotografia: DR

No dia que a reportagem do Jornal de Angola abordou Maria Gaspar, pouco antes das oito da manhã, o clima estava ameno para a agricultura e a camponesa optou em semear couve, enquanto o esposo regava parte de cinco mil hectares de terra destinados à produção de hortícolas, cebola, gindungo, tomate, quiabo, banana, mamão, batata-doce, milho, mandioca, feijão e outros produtos do campo.

“Depois da colheita, os produtos são vendidos no Sabadão, Kikolo, Kwanzas, além de outros mercados em Luanda. Este trabalho de equipa tem dado resultados positivos e contribui para aumentar a renda de casa”, disse Maria Gaspar.
Detentora da maior porção de terras aráveis do município de Cacuaco, a comuna da Funda possui uma actividade agrícola assente num sistema tradicional ou familiar.

A administradora comunal, Nérika Ferraz, afirmou que, em média, a Funda garante por campanha uma produção estimada em 24.309 toneladas de produtos diversos. Realçou a importância da região no contexto produtivo e sublinhou que, num passado recente, beneficiou de meios técnicos que facilitaram o processo de preparação de terra de forma mecanizada.

“Estes meios encontram-se inoperantes e precisa-se de novos meios. Desde o seu funcionamento em Julho de 2016, lavraram mais de 224 mil hectares”, informou Nérika Ferraz, enfatizando que os camponeses manifestam vontade em aumentar a produção desde que munidos de melhores recursos técnicos.

Além de incluir a criação e comercialização de animais como fonte de sustento familiar, atendendo que, em média, entre dois a cinco são criados em residências, Nérika Ferraz apontou os roubos frequentes de animais e as enfermidades que assolam o gado bovino e caprino entre os principais constrangimentos. Com uma extensão de 56,51 quilómetros quadrados, e uma proximidade com o rio Zenza, a comuna possui uma população estimada em 40.000 habitantes que se dedica maioritariamente a agricultura, pecuária e avicultura.

Avicultura e pesca

Dados obtidos pelo Jornal de Angola, apontam que, no ano passado, a comuna da Funda registou uma produção de 6.448.590 ovos, 161.279 aves e 12.541 pintos.
Nérika Ferraz revelou a existência de três aviários, nomeadamente, Granja Avícola da Funda, GHC e N.9.C.S, empenhados na criação, produção e comercialização de ovos, galinhas e pintos.

“A escassez de ração para alimentação das aves e de divisas, que impede a aquisição de matéria-prima no exterior do país, entre outros, tem influenciado negativamente no crescimento do sector”, lamentou.
Ainda assim, os criadores de aves mantêm esperança em dias melhores. É o caso de tia Marta. Criadora de aves, apesar das dificuldades que enfrenta para manter o negócio, aguarda sempre com expectativa a produção de ovos de maneira a rentabilizar o investimento feito e o apoio recebido das autoridades.

“Tenho uma capoeira no quintal e não deixo as galinhas saírem, para não serem roubadas. Não dá para parar, precisamos acreditar que esta fase difícil é passageira”, resumiu. Kuta, Songo, Cafarnaum e Terra Branca são as quatro cooperativas de pesca empenhadas na captura e comercialização de pescado no rio Zenza e na lagoa da Kilunda. Os números indicam que, durante o primeiro trimestre do ano corrente, foram capturados 16.349 quilogramas de pescado, com destaque para a tilapia.

Cada vez mais a actividade envolve os jovens residentes na comuna. Pedro Silva e Paulo Manuel são dois exemplos. Com bastante frequência expõem o cacusso e o bagre a potenciais clientes que circulam ao longo da estrada que dá acesso à comuna da Funda. O primeiro explica que os preços variam.

Dois baldes de 20 quilos de cacusso podem ser “despachados” ao preço de mil kwanzas. Embora esteja entre os mais caros, Paulo Manuel, por sua vez, revelou que o bagre está entre os mais procurados pela clientela.
“Vendemos os bagres mais caros, porque são difíceis de capturar em relação a outras espécies”, disse Paulo Manuel, que regularmente, com recurso a cestos, dedica mais de três horas à captura de bagres e cacussos.

Défice de energia e água

Com uma rede eléctrica que penaliza em demasia os diferentes bairros, o défice na iluminação pública confere um sentimento permanente de perigo aos automobilistas que circulam durante o período nocturno.
Nérika Ferraz garantiu que estão previstas várias acções para reverter a situação, tendo apontado a iluminação da via principal e do interior dos bairros como prioritárias.

O sector da água também clama por melhorias e o final das obras de construção de dois centros de distribuição, um no bairro Fortim e outro na Funda, é aguardado com expectativa. Enquanto isso, os moradores dos bairros Havemos de Voltar e Camicuto II viram as dificuldades reduzidas com a água proveniente de chafarizes próximos.
“A EPAL tem distribuído água potável às comunidades dos bairros da comuna que se deparam com falta dela”, disse Nérika Ferraz.

Malária lidera as enfermidades

A hipertensão arterial, conjuntivite, doenças diarreicas, shistossomíase, sarampo, doenças respiratórias agudas, amigdalite e varicela constam das enfermidades que mais afligem os habitantes, porém, a malária lidera o número de casos registados. Seguem-se a infecção urinária e a febre tifóide. O sector da Saúde na comuna dispõe de um centro materno-infantil que funciona numa instalação provisória, enquanto os bairros Baixa Kifangondo, Camicuto 1 e Kilunda contam cada um com um posto médico.

No quadro do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) está em construção um novo centro de saúde. Orçada em mais de 620 milhões de Kwanzas, a infra-estrutura tem um prazo de execução de 16 meses.

Se, para a maioria dos habitantes a época chuvosa é sempre bem-vinda, para os gestores da saúde tem sido o inverso. Nérika Ferraz manifestou preocupação devido ao aumento de doenças neste período, e lamentou o número reduzido de recursos humanos a nível do sector.
“Temos apenas 60 técnicos de diagnóstico terapêutico, 44 enfermeiros e 16 técnicos administrativos”, disse.

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