Sociedade

Hospitais de Luanda congestionados por carência de médicos especialistas

Alexa Sonhi

A vice-presidente da Associação Angolana de Médicos Nefrologistas, Susana Costa, afirmou, ontem, em Luanda, que os oito especialistas em nefrologia existentes em Angola são insuficientes para o atendimento dos inúmeros casos de doentes renais.

Médica nefrologista Suzana Costa
Fotografia: Dombele Bernardo

A vice-presidente da Associação Angolana de Médicos Nefrologistas, Susana Costa, afirmou, ontem, em Luanda, que os oito especialistas em nefrologia existentes em Angola são insuficientes para o atendimento dos inúmeros casos de doentes renais.
O défice de nefrologistas, especialidade que trata das doenças do rim, órgão responsável pela filtragem do sangue, obriga a que os 600 doentes renais crónicos que fazem hemodiálise fiquem todos concentrados em Luanda. De acordo com Susana Costa, dos oito médicos, seis são angolanos e dois de nacionalidade cubana, trabalhando em regime de contrato.
A médica reconheceu o avanço que o país está a registar em algumas áreas, mas diz que na da nefrologia ainda estamos muito atrasados. “Esta situação tem muito a ver com a falta de políticas por parte do Governo em relação à formação especializada de quadros nas diferentes áreas da medicina”, sublinhou Susana Costa. 
Para facilitar a vida dos 600 doentes crónicos e dos diabéticos ou hipertensos que, se não forem controlados, podem evoluir para insuficientes renais, o país precisa de ter, segundo o parecer da médica Susana Costa, um mínimo de três médicos nefrologistas em cada província, para evitar o congestionamento de pacientes na capital do país.
“A maior parte das pessoas que padecem de insuficiência renal são chefes de família e, por falta de nefrologistas nas suas províncias, deixam de trabalhar, abandonam os filhos e toda a sua vida social para serem assistidos com regularidade por especialistas em Luanda, onde fazem hemodiálise três vezes por semana”, acrescentou Susana Costa. No caso de crianças, disse, a situação tende a piorar, porque são obrigadas a largar a escola, sem contar que a doença lhes causa um desequilíbrio psicomotor, além de prejudicar o seu desenvolvimento físico e emocional.

Falta de apoios

A nefrologista reconhece haver pouco apoio por parte do Ministério da Saúde em relação à formação de especialistas em doenças renais, acrescentando que também há défice na disseminação da informação sobre esta área, que é uma das mais complexas da medicina interna.
A nefrologia, acrescentou, é uma especialidade muita cara, que exige o desembolso de muito dinheiro durante a formação, razão pela qual os interessados pela especialidade são formados no estrangeiro a expensas de algumas empresas e hospitais. Foi esse o seu caso. Susana Costa formou-se em Portugal com o apoio da Sonangol. Actualmente, esclareceu, há angolanos a especializarem-se no Brasil pela Clínica Multiperfil, e em Portugal, por conta do Hospital Militar.
Dos seis já formados, apenas um conseguiu a especialização através do Ministério da Saúde, de acordo com a médica, para quem, durante muito tempo, a nefrologia era quase desconhecida no país pela classe médica e pelos estudantes de medicina. “Por essa razão, os doentes renais eram colocados numa enfermaria como se padecessem de uma doença terminal”.    
A também docente da Faculdade de Medicina reconheceu que, ultimamente, já se fala de modo mais específico sobre a importância do estudo da nefrologia.
“Ultimamente, o número considerável de pacientes nos hospitais Militar, Américo Boavida, Josina Machel, Clínica Girassol e Multiperfil está a estimular mais médicos a especializarem-se nesta área”.
 
Insuficiência renal   

Susana Costa explicou que as principais causas da insuficiência renal são a hipertensão arterial, diabetes e algumas infecções no organismo, em especial no aparelho urinário.
As pessoas que padecem de hipertensão arterial e diabetes, disse a médica, não devem consumir açúcar em excesso, sal e gorduras, aconselhando a população a fazer o rastreio destas doenças regularmente, em qualquer unidade hospitalar, até porque muitas vezes têm factores hereditários.
“Com uma simples consulta a um médico de clínica geral é possível saber se a pessoa é ou não diabética ou hipertensa”, explicou.
“E se durante as consultas forem detectadas algumas anomalias no organismo, aí sim, o médico deve indicar ao paciente um nefrologista ou urologista a fim de aprofundar as análises” acrescentou.   Susana Costa frisou que os pacientes que padecem de insuficiência renal são, na sua maioria, pessoas na fase activa da vida, entre os 30 e os 45 anos.

Sintomas das doenças renais

De acordo com a nefrologista Susana Costa, na fase inicial, as doenças do rim quase não apresentam sintomas.
Quando surgem os sintomas, significa que o doente já perdeu 70 por cento da função do rim e vai precisar do auxílio das máquinas para filtrarem o sangue (hemodiálise), que é a única alternativa terapêutica existente no país.
A nefrologista acrescentou que o doente renal, já em estado avançado, apresenta sinais de cansaço, perda de proteínas na urina e fica com os olhos inflamados e com papos.

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