Sociedade

Incêndios na Amazónia abrem crise entre UE e Jair Bolsonaro

O Presidente francês foi o primeiro líder a chamar a atenção para os incêndios que devastam a Amazónia. Ontem, a UE e Merkel uniram-se a Macron na preocupação com os incêndios que lavram na Amazónia há um mês.

Fotografia: DR

A Comissão Europeia mostrou-se ontem “profundamente preocupada” com os incêndios na floresta da Amazónia, no Brasil, manifestando apoio ao pedido feito pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, para debater esta situação, o que já motivou críticas do Governo brasileiro.
“A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e contém um décimo das espécies mundiais. É por isso que saudamos as intenções do Presidente (francês) Macron, em discutir esta questão na Cimeira do G7, dada a necessidade de actuar rapidamente”, afirmou a porta-voz do executivo comunitário, Mina Andreeva, na conferência de imprensa diária da Comissão Europeia, em Bruxelas.
A responsável notou que a União Europeia (UE) está já “em contacto com as autoridades brasileiras e bolivianas” sobre esta questão.
“E estamos prontos para ajudar como pudermos, desde logo fornecendo assistência ou activando o nosso sistema de satélites Copernicus”, apontou Mina Andreeva.
A chanceler alemã Angela Merkel falou, igualmente, sobre estes incêndios. Constituem uma “situação de emergência aguda”, que deve ser discutida na Cimeira do G7, no fim de semana, declarou ontem o porta-voz de Angela Merkel, apoiando um pedido de Emmanuel Macron nesse sentido.
“A chanceler está convencida” de que a questão “deve integrar a agenda dos países do G7, quando eles se reunirem em Biarritz, em França”, declarou Steffen Seibert, porta-voz da chefe do Governo alemão, numa conferência de imprensa em Berlim.
“A chanceler apoia completamente o Presidente francês” neste assunto, adiantou. “A magnitude dos incêndios no território da Amazónia é assustadora e ameaçadora, não apenas para o Brasil e os outros países envolvidos, mas para o mundo inteiro, acrescentou.

Macron, o primeiro a falar
"A nossa casa está a arder". O presidente francês, Emanuel Macron, quer que os incêndios na Amazónia sejam discutidos na Cimeira do G7. O apelo não foi, entretanto, bem recebido pelo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que acusa Macron de “mentalidade colonialista” e de querer usar os fogos para proveito político próprio.
“A nossa casa está a arder. Literalmente. A floresta da Amazónia - o pulmão que produz 20% do oxigénio do planeta - está a arder. É uma crise internacional. Membros do G7, vamos discutir esta emergência dentro de dois dias”, escreveu Macron.
Três horas depois, Jair Bolsonaro respondeu, também no Twitter, que Macron está a “instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazónicos”, para proveito próprio. E, num segundo tweet, acrescenta que a “sugestão do Presidente francês, de que assuntos amazónicos sejam discutidos no G7, sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista, descabida no século XXI”. O G7, que junta os países mais industrializados do mundo, conta com a participação dos líderes da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
A mensagem escrita no Twitter por Emmanuel Macron está também a ser alvo de críticas, por mostrar uma fotografia antiga, que não retrata a situação actual na floresta amazónica.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) brasileiro, o número de incêndios no Brasil aumentou 83%, em comparação com o período homólogo de 2018.
Também António Gu-terres, secretário-geral das Nações Unidas, veio dizer que a Amazónia tem de ser protegida: “em plena crise climática global, não podemos suportar mais danos a uma fonte tão importante de oxigénio e biodiversidade”.

Ameaça de veto ao Tratado de Comércio Livre

O Presidente francês considera opor-se às novas condições do tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosur (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), porque o Presidente do Brasil estava a mentir, quando desvalorizou as alterações climáticas na Cimeira do G20 no Japão, em Junho, disse fonte do gabinete de Macron, citada pela Reuters.
“Tendo em conta a atitude do Brasil nas últimas semanas, o Presidente da República não pode, senão constatar, que o Presidente Bolsonaro lhe mentiu na Cimeira de Osaka”, afirmou a presidência francesa, referindo-se à Cimeira do G20, que se realizou no final de Junho.
“O Presidente Bolsonaro decidiu não respeitar os compromissos ambientais e não se empenhar em matéria de biodiversidade. Nestas condições, França opõe-se ao acordo com o Mercosul, tal como está”, acrescentou.

Boicote à carne brasileira

A Finlândia, que detém a presidência rotativa da União Europeia, pediu ontem à União Europeia que considere a possibilidade de proibir a carne bovina brasileira nos seus mercados, devido à devastação causada pelos incêndios na floresta amazónica.
“A ministra das Finanças, Mika Lintila, condena a destruição das florestas tropicais da Amazónia e sugere que a UE e a Finlândia deveriam rever com urgência a possibilidade de banir as importações brasileiras de carne bovina”, disse o Ministério das Finanças da Finlândia, em comunicado.

72.953 focos registados

O número de incêndios no Brasil aumentou 83% este ano, em comparação com o período homólogo de 2018, com 72.953 focos registados até 19 de Agosto, sendo a Amazónia a região mais afectada.
A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta. Tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.
Dados do sistema de monitorização por satélite chamado Deter, que é mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais brasileiro (Inpe), indicam que, em Julho, a desflorestação da Amazónia aumentou 278%, em relação ao mesmo mês do ano passado.
O Inpe é o organismo do Governo brasileiro que monitoriza os dados sobre a desflorestação e queimadas no país.

ONU

A Organização das Nações Unidas (ONU) está muito preocupada com os incêndios na Amazónia, devido aos danos imediatos e alterações climáticas, e considerou que a sustentabilidade desta floresta é “crítica para o bem-estar da humanidade”.
O porta-voz do secretário-geral da ONU disse que a organização ainda não tem informações precisas sobre a causa dos incêndios que consomem a floresta amazónica há 16 dias, segundo a comunicação social, escusando-se a fazer comentários sobre a origem do desastre ambiental.
“Estamos muito preocupados com os fogos, pelos danos imediatos que estão a causar e porque sustentar as florestas é crucial na nossa luta contra as alterações climáticas”, afirmou Stephane Dujarric, na sede da ONU, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.
O porta-voz acrescentou que “a saúde destas enormes florestas é crítica para o bem-estar da humanidade” e contribui para a saúde em todo o mundo.

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