Sociedade

Infância interrompida por ingenuidade

Edivaldo Cristóvão e Alexa Sonhi

Manuela António tinha apenas treze anos quando conheceu Bernardo, na escola da Centralidade do Sequele, onde estudavam. Ela sempre demonstrou ser uma menina quieta, que não gostava de ficar na rua, preferia brincar em casa com as amigas, até que a sua infância foi interrompida por uma única tentativa de sexo ocasional, que resultou numa gravidez “indesejável”.

Pais aconselhados a conversar abertamente com os filhos sobre sexualidade para se evitar casos de gravidez precoce
Fotografia: Edições Novembro

Tudo começou num sábado, era dia de limpeza geral na escola. Durante a actividade, algumas crianças brincavam às escondidas. Manuela e Bernardo decidiram esconder-se próximo do quarto de banho, para não serem vistos.
“Quando percebemos que estávamos sozinhos, Bernardo disse que gostava de mim, deu-me um beijo e pediu para brincarmos de papá e mamã, como não entendia bem das coisas, pensei que fosse apenas uma brincadeira, acabamos por nos envolver sexualmente e mais tarde dei conta da gravidez”, explicou a jovem, agora com 17 anos.
Manuela contou que a ingenuidade foi o motivo de não ter dado conta que estava grávida, só no quarto mês de gestação é que a sua mãe notou que algo de estranho estava a acontecer, devido aos sintomas que apresentava, o tom de pele começou a ficar claro e os seios aumentavam de tamanho.
“A minha mãe, desconfiada, perguntou-me se estava a sentir alguma coisa, respondi que não. Procurou saber se a minha menstruação estava a aparecer normalmente, disse que nunca mais menstruei, daí ela começou a chorar e lamentar, mas eu não estava a entender nada”, confessou.
Depois dos sintomas descobertos pela mãe, fez-se o teste e o diagnóstico de gravidez deu positivo. Manuela estava grávida, mas não sabia das responsabilidades que tinha pela frente, as coisas começaram a mudar. Quando o seu pai se apercebeu da situação, deu-lhe uma “surra” e expulsou-a de casa.
Mariquinha Fernandes, mãe de Manuela, que na altura tinha 35 anos, também não recebeu bem a notícia, porque a filha era muito nova, não esperava ser avó antes dos 50 anos.
“O meu mundo desabou, porque, apesar da vida difícil que temos, eu tinha muitos planos para a minha filha, não queria que ela passasse pelos mesmos problemas que tive na juventude, o meu objectivo era fazer tudo para ela terminar os estudos, para depois arranjar um bom emprego, casar e só depois ter filhos”, lamentou.
Com a gravidez de Manuela, tudo se complicou na família, ela foi levada para casa dos pais do Bernardo, que também na altura era uma criança, a responsabilidade de cuidar da criança passou para os avós paternos, até ao primeiro ano de vida do bebé.
Durante os três primeiros anos da criança, Manuela não conseguia voltar a estudar, perdeu a infância cedo, porque tudo o que fazia era em função do filho. Aos 16 anos, foi obrigada a trabalhar, a única coisa que apareceu para fazer foi ser empregada de limpeza de um dos prédios da Centralidade do Sequele, onde ganhava um salário de 15 mil kwanzas.
Mariquinha, ao lembrar-se da altura em que percebeu que a filha estava grávida, banhada em lágrimas, diz que foram momentos difíceis dentro de casa, com o esposo a culpá-la, muitas vezes, por não ter educado bem Manuela.
“Brigávamos quase todos os dias, já chegou ao ponto de ficar três meses fora de casa, alegando que eu não era boa mãe. Eu passava mais tempo na praça, não podia deixar de vender e ficar apenas em casa a cuidar dos filhos, tinha de fazer alguma coisa para ajudar no sustento de casa”, refere Mariquinha, acrescentando que Manuela era apenas uma criança que, infelizmente, se deixou engravidar na adolescência.

Pai de adolescente
tem ataque cardíaco
Contreiras dos Santos é pai de Irene dos Santos. Quando notou que a filha estava grávida teve um ataque cardíaco, que o manteve internado durante duas semanas.
Com medo da reacção do pai, a filha fugiu de casa e foi viver com uma tia na província de Benguela, onde ficou até ter os bebés, que, por sinal, eram gémeos.
“Quando me apercebi da gravidez, fiz tudo para que ninguém soubesse, porque tinha medo da reacção do meu pai, ele idealizava um futuro brilhante para mim e os meus irmãos. No mesmo mês em que descobri, ele comunicou-me que daí a sete meses ia mandar-me para os Estados Unidos, para concluir os estudos”, contou a rapariga, com aparente tristeza.
Contreiras dos Santos disse ao Jornal de Angola que sempre trabalhou muito para dar conforto e educação de qualidade aos filhos. “Irene tinha apenas 16 anos quando ficou grávida. Apenas descobri no sexto mês de gestação, quando a minha mãe veio visitar-nos e ao olhar para a neta chamou-me e disse: “Contreiras a tua filha está grávida e com uma barriga avançada.”
Acrescentou que Irene usava cinta e roupas largas e que o menino que a engravidou era primo de uma das amigas.

Estudos parados
Ao contrário de Manuela, Irene não deixou de estudar, foi obrigada a casar-se aos 17 anos, com o jovem que a engravidou, sem ainda estarem preparados para uma vida a dois.
Irene disse estar arrependida e que se tivesse dado ouvidos aos conselhos do pai, hoje, com 25 anos, teria uma vida diferente, por isso aconselha a outras raparigas a darem mais importância aos estudos, "porque a gravidez na adolescência atrapalha o nosso futuro", desabafou.

Crianças abandonadas
O Instituto Nacional da Criança (INAC) registou, durante o ano passado, 152 casos de crianças abandonadas, das quais 76 do sexo feminino.
Do número de crianças abandonadas 69 têm menos de cinco anos, 72 com idades entre os seis e 13 anos e 11 crianças dos 14 aos 18 anos.
Contactado pelo Jornal de Angola, o sociólogo Nvunda Tonet considera que a gravidez na adolescência traz muitas consequências para a vida dos jovens, como o abandono escolar e a falta de meios para sustentar os filhos, que acabam sempre por ser sustentados pelos avós.
No caso dos rapazes, o sociólogo apontou que o encargo é maior, do ponto de vista emocional, porque ele começa a ter preocupações de cuidar do filho, numa fase que ainda está em descobertas e deve preparar o seu futuro.

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