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Injectáveis, em gotas e por via nasal, como será a vacina contra a Covid-19?

Para as crianças, a melhor vacina era aquela contra a pólio. Sem picada. Indolor, em gotas e a visita ao posto de saúde costumava trazer apenas boas recordações, junto àquele sabor esquisito.

Não há opção, o mais importante é a cura
Fotografia: DR

Agora que o mundo vive uma corrida sem precedentes por outra vacina, a que pretende imunizar os humanos contra o novo coronavírus, fica a pergunta: como será esse medicamento? Injectável? Oral? Nasal?

Ainda há mais perguntas do que respostas, evidentemente. Mas, entre os mais de 150 projectos, alguns devem dispensar a picada, sim. Por exemplo, a proposta em estudos no Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Queremos ir directo ao alvo. E o alvo é proteger as mucosas”, diz à BBC News Brasil o médico Jorge Elias Kalil, que coordena o projecto. A sua vacina, se concluída, será aplicada via nasal.

Ele acredita que a sua solução seria a mais pertinente frente ao novo coronavírus, mas admite que se trata de uma solução mais complexa. Assim, a vacina da USP certamente não será a primeira a chegar ao mercado - mas pode se revelar como mais vantajosa, quando comparada às que já estiverem a ser aplicadas.

“Uma vacina por via nasal induz a resposta local. Nem todas as vacinas a gente consegue fazer assim, mas há muita gente a realizar esse esforço”, comenta.

Kalil acredita que as vacinas para prevenir a Covid-19 que são testadas em grau avançado, injectáveis, intramusculares, podem não proporcionar uma “resposta” tão efectiva quanto a por via nasal, considerando que esta é a porta de entrada do novo coronavírus. “Mas só os testes vão dizer isso. Não podemos prever absolutamente nada”, afirma.

Como nascem as vacinas

Elementos fundamentais da saúde pública da humanidade nos tempos contemporâneos, as vacinas têm o seu modo de aplicação definido a partir de muitas variáveis, que vão da facilidade do desenvolvimento à praticidade do processo de imunização em si.

Director do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o médico Carlos Rodrigo Zárate-Bladés explica à BBC News Brasil que, de modo geral, “uma vacina ideal, perfeita, é aquela que induz uma resposta específica contra a doença que precisamos evitar”. Mas ele acrescenta que ela não pode causar efeitos adversos, tem de ser de fácil alocação e conservação durante o transporte, poder ser fabricada de modo barato e ser de fácil administração.

“Quando se está a criar uma vacina, pode-se pensar em todas essas situações ideais e fazê-la. Porém, quando os testes começam, os pesquisadores esbarram em uma série de dificuldades”, comenta. “Mas a gente pode escolher, dependendo da situação, de que forma fazer.”

Zárate-Bladés concorda que o vírus Sars-CoV-2, sendo “uma patologia que entra pelo ar”, permite uma “vacina nasal que simule a entrada do patógeno no organismo”. “Outros competidores (no desenvolvimento da vacina) estão muito mais à frente, mas podemos nos distanciar deles para vender a nossa vacina lá à frente”, argumenta. “(O método por via nasal) dá a chance de promover a formação de certos elementos, uma resposta imune não necessariamente igual à de quando usamos uma vacina aplicada por qualquer outra via diferente da rota natural de infecção.”

De acordo com o bioquímico Ricardo Gazzinelli, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a definição depende do patógeno a ser combatido.

“Na verdade, a área de vacinas é muito empírica, ou seja, baseada em experimentos que funcionam, ou não. Portanto, o que define o uso de vacina são os testes clínicos, e nem sempre o racional inicial”, afirma ele, por e-mail, à BBC News Brasil.

Gazzinelli explica que as vacinas injectadas intramuscular “visam uma resposta sistémica e funcionam para várias doenças”. “Porém, para alguns patógenos, a porta de entrada são as mucosas. A vacina pelas vias nasal e oral favorece a indução à resposta imune local das mucosas, o que muitas vezes não é estimulado pela via intramuscular. Esta é a razão de imunizar com Sars-CoV-2 por via nasal, porta de entrada do vírus.”

Mais trabalhosas

Pesquisador da Plataforma Científica Pasteur e professor do Departamento de Imunologia da USP, o farmacêutico bioquímico Jean Pierre Schatzmann Peron não acredita na viabilidade de uma vacina nasal para prevenir a covid-19. “A maioria será injectável. As vacinas nasais são mais trabalhosas”, afirma ele à BBC News Brasil.

“As vias de administração de vacinas culminam em diferentes tipos de respostas. A maior parte delas é injectável, porque, primeiro, ela é eficiente para uma resposta imune, e esse tipo de resposta induz um anticorpo que fica a circular no sangue e é capaz de eliminar os patógenos que eventualmente atinjam o organismo”, comenta.

Peron compara: as por via oral ou nasal “podem induzir outro tipo de resposta por induzirem outro tipo de anticorpos”. “Coincidentemente, esse tipo de vacina também seria interessante contra o coronavírus, porque, produzindo anticorpos nas mucosas, você poderia bloquear o vírus já num primeiro momento, na entrada.”

“Há várias nuances, por isso é um trabalho tão demorado e complexo”, acrescenta o pesquisador.

Zárate-Bladés lembra que as dificuldades de desenvolver uma vacina nasal estão até mesmo na fase de testes em animais. “Em modelos animais, como macacos, coelhos, é muito mais fácil injectar algo do que fazê-los inalar”, explica. “É uma das dificuldades. E cada dificuldade na produção de uma vacina se reflecte no aumento do custo de produção e, consequentemente, no preço final que essa vacina terá à frente.”

“A vacina por via oral usa vírus vivo; a injectada contém o vírus 'morto'. Ainda que as vacinas vivas induzam imunidade mais duradoura, quando você chega numa fase de erradicar uma doença, a viva é indesejada, pois a atenuação do vírus pode reverter, tornando-se patogénico de novo. E se espalhar na natureza novamente”, explica Gazzinelli. “Neste caso, opta-se por vacinas 'mortas'.”

Por outro lado, as gotinhas têm um efeito da chamada “protecção de rebanho” - a criança que a ingere acaba contribuindo para que o vírus não se espalhe. Isto porque na versão injectável, com o vírus inactivado directo na corrente sanguínea, não ocorre uma colonização da mucosa intestinal. A gotinha, por sua vez, faz isso com o vírus atenuado - que, eliminado pelas fezes, espalha-se no ambiente, imunizando terceiros que tenham contacto com ele.

 

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