Sociedade

Maior hospital do município de Viana nasce no Zango

Augusto Cuteta

As dores que dona Esperança Feijó sente no peito, há já alguns meses, podem ser desvendadas, nos próximos tempos, ali mesmo no Zango, onde vive. É que, em breve, o distrito do município de Viana vai dispor de um centro de imagiologia, no Hospital Geral local.

Fotografia: José Cola | Edições Novembro

Os exames já realizados, até agora, para saber o que se passa com o peito da senhora, de 53 anos, ainda não deram em resultados que ajudem nas melhores opções de tratamento e combater  as dores, disse.
A senhora já efectuou consultas e foi medicada com antibióticos e analgésicos, há cerca de um ano. As dores tinham cessado por algum tempo mas sempre que se submete a esforços volta a senti-las. “Não estou a tossir, mas o peito dói, principalmente se ficar em pé ou sentada por muito tempo”, explica.
Moradora do Zango 3, dona Esperança, comerciante de pequenos negócios na praça da Estalagem, tem prevista a marcação de uma consulta no Sanatório de Luanda, mas parece que a ideia fica engavetada, depois de se aperceber de que o bairro onde reside ganha, dentro de dias, um hospital que pode resolver o seu caso.
Desde que começou a sentir as dores, Esperança Feijó diz constatar um emagrecimento acentuado. “Estou a secar, mas nos sítios (hospitais) em que passei nunca me falam se é infecção no peito ou não. Só me enchem de antibióticos”, lamenta.
No princípio, recorda que fazia pequenas massagens com misturas de produtos naturais em casa, mas, com o agravar das dores, teve mesmo de ir a um centro de saúde particular. Quer nesse quer nos hospitais públicos por que passou, a doença continua nos “segredos dos deuses”, por falta de exames mais convincentes.
O problema de dona Esperança e de centenas de outras pessoas com dores ou outros problemas não desvendados a olho nu podem fazer parte do passado, garante o chefe da secção municipal de Saúde de Viana, Mateus Neto.
A unidade de Saúde do Zango, totalmente reabilitada e ampliada, podendo passar à categoria de Hospital Geral, vai dar solução a  questões como a de Esperança Feijó, quando entrar em pleno funcionamento, nos próximos dias, salienta o médico.
Mateus Neto disse que o estabelecimento clínico, com 120 camas, superando a capacidade do actual Hospital Municipal de Capalanca, que tem cerca de 80 leitos, vai possibilitar que os médicos tenham resultados de exames feitos através da obtenção de imagens de diversos órgãos e sistemas.
Para isso, os especialistas vão utilizar diferentes metodologias como as radiações, ultra-sons ou ondas de radiofrequência, para fins de diagnóstico e terapêutica.
Com o centro de imagiologia, que, numa primeira fase, vai trabalhar apenas com alguns serviços, os pacientes passam a beneficiar de exames de radiologia convencional digital e de ecografia de última geração.
A par disso, os doentes que procurarem pelos serviços do centro de imagiologia podem igualmente beneficiar de exames de mamografia digital directa, de ressonância magnética e de tomografia computorizada.
Por enquanto, alguns destes serviços não vão ser efectuados nesta fase, uma vez que o desenho inicial do hospital sofreu alguma retracção, por causa da situação financeira, explicou Mateus Neto.
“A ideia era termos todos os serviços de medicina para que o hospital fosse um centro de diagnóstico e tratamento para o município de Viana e para Luanda”, esclarece o chefe de secção de Saúde de Viana.
Quando entrar na segunda fase,  o hospital vai  contar com um centro de hemoterapia, serviço que vai contribuir para melhorar o atendimento e solicitações a nível dos serviços transfusionais de Cacuaco, Icolo e Bengo e Cazenga, além do próprio município de Viana, disse o médico.
Embora sem data prevista, a inauguração da segunda fase deixa os moradores como dona Esperança mais confiantes num futuro melhor para o sector da Saúde a nível da parcela da província de Luanda.
Mateus Neto explicou que para esta primeira fase o hospital vai dispor  de todos os serviços de medicina,  cirurgia, ginecologia e obstetrícia, ortopedia, pediatria, laboratórios e parte do sector de imagiologia funcional.
Os equipamentos para estas áreas estão já a ser montados, esperando-se que entrem em funcionamento em breve, assegurou Mateus Neto.
O surgimento do novo hospital ajuda a melhorar o atendimento de doentes do Zango, da comuna do Calumbo, dos distritos da Vila Flor e da Cidade do Kilamba e de outras áreas adjacentes, antevê o médico.
Por estar situado próximo de uma  via bastante movimentada e com altos índices de sinistralidade, como o são a Via Expressa e a própria estrada do Zango, o chefe de secção acredita que o novo hospital vai servir para acudir a essas situações.
Mas, para isso, o director realça a necessidade de se criarem, além da estrutura hospitalar, condições que garantam meios humanos capacitados e especializados, tecnologias e orçamentos que correspondam à operacionalidade que se pretende para o hospital.

  Sector da Saúde quer reforçar a organização dos serviços

Mateus Neto anunciou que o sector quer reforçar a organização funcional dos serviços, para garantir um atendimento humanizado   às pessoas.
Outro aspecto defendido por Mateus Neto é o aumento do número de quadros no sector e com as melhores qualificações possíveis, para fazer frente ao tipo de atendimento que se idealiza e, tendo em conta a extensão do território e o crescimento da população de Viana, manter o município com infra-estruturas adequadas com vista a responder à procura dos serviços.
O antigo director-geral do Hospital Municipal dos Cajueiros (Cazenga) disse que as estruturas hospitalares devem ser reforçadas para que se possa fazer frente às solicitações, numa altura em que existe um distrito, como  Vila Flor, que não beneficia de um único serviço de saúde pública.
O médico disse  que há unidades sanitárias que precisam de ser requalificadas, algumas localizadas no centro do município de Viana, como o Centro de Saúde Ana Paula, que deve ser transformado em Hospital Central, uma vez que o actual estabelecimento de categoria municipal, no Capalanca, não suporta a procura. Para inverter este quadro, além da criação de mais hospitais e centros de Saúde e da reestruturação de outras unidades clínicas, Mateus Neto pede que se melhore o saneamento básico e a distribuição de energia e de água potável.

Necessidade de quadros

Neste momento, Viana tem 22 unidades sanitárias públicas, dentre elas, os hospitais municipal e o materno-infantil, além do Hospital Geral do Zango, este último que já trabalha parcialmente com pequenos serviços.
Com dois milhões e meio de habitantes, o município tem 1.177 agentes, dos quais são 314 técnicos de enfermagem e 247 auxiliares de enfermagem. Os serviços de Saúde de Viana são assegurados por 51 médicos, dos quais 36 clínicos gerais.
Mateus Neto acredita que o número de médicos pode crescer, tendo em conta o concurso público para o sector da Saúde, que se prevê para este ano. Embora não saiba a quota para Viana, realçou que os novos quadros vão dar outra dinâmica ao funcionamento das unidades sanitárias.
Para minimizar o funcionamento das unidades do município, o chefe da secção municipal de Saúde de Viana disse que seriam necessários mais  30 novos médicos.

  Situação sanitária

Mateus Neto considerou que, nesta época chuvosa, Viana está a registar uma subida de casos de síndrome febril, por causa do aumento de mosquitos.
Na lista de enfermidades, Mateus Neto coloca a malária como a que mais doentes regista, seguida da dengue e da chikungunya, estando as autoridades da Saúde a combater a população de mosquitos e a tratar os doentes diagnosticados.
As unidades de saúde de Viana têm registado um aumento de pacientes, apoquentados também com doenças diarreicas (cólera) e zika, enfermidades que constituem a grande prioridade das autoridades sanitárias.
 Mateus Neto aconselhou  a população para cultivar o hábito de procurar os serviços hospitalares e a evitar esperar que seja consultada apenas quando houver campanhas de saúde nos bairros.
Quanto aos medicamentos, Mateus Neto lamentou que a carência de fármacos, de reagentes e de outro material gastável nas unidades de Saúde seja ainda um problema no município de Viana.
“Tem havido grandes melhorias, uma vez que as autoridades provinciais e centrais fazem esforços para superar a situação, mas ainda temos esses problemas”, concluiu Mateus Neto.

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