Sociedade

Mais de cem pessoas no centro de Viana receberam produtos de higienização

Edivaldo Cristóvão |

Produtos diversos de limpeza e álcool gel foram entregues ao Centro de Acção Social e Veteranos da Pátria de Viana, em Luanda, pelo Comité Miss Angola em parceria com a empresa de detergentes Basel.

iss Angola, Saleth Miguel, emprestou o seu carinho a mais de cem pessoas recolhidas nas ruas para preveni-las da pandemia Covid-19, que já fez duas vítimas mortais em Luanda
Fotografia: Edivaldo Cristóvão | Edições Novembro

Com mais de cem crianças, o centro tornou-se num dos pontos de emergência, atendendo à iniciativa do Governo Provincial de Luanda que, recentemente, lançou a campanha “Stop Covid-19”, que visa implementar lares comunitários para acolher pessoas que vivem nas ruas. O Comité Miss Angola e a empresa de detergentes Basel abraçaram o combate contra a Covid-19, desde os primeiros casos registados no país, com a distribuição de vários produtos de higiene nos centros de quarentena, hospitais, farmácias, administrações municipais e instituições públicas e privadas.

Em cada doação, são entregues 1.240 litros de lixívia, 486 litros de álcool gel, 150 quilogramas de detergente em pó, 108 litros de sabonete líquido e 1.440 unidades de sabonete sólido. A Miss Angola, Saleth Miguel, disse que está cada vez mais com a sensação do dever cumprido e acredita que este material vai servir para que as pessoas que se encontram no centro façam melhor a sua higiene e do próprio recinto, de modo a evitar que o vírus da Covid-19 se propague.
Saleth Miguel garantiu que a empresa Basel Angola e o Comité Miss Angola estão a seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), realizando campanhas de sensibilização do combate à Covid-19, em todo o país, dando ofertas de produtos de álcool gel, detergentes em pó e líquido.
O director-geral da Basel Angola, Hussein Khatoun, disse que a empresa duplicou a produção, de três toneladas para sete, com o objectivo de satisfazer a procura, atendendo à pandemia da Covid-19.
“A fábrica está disponível para fornecer as quantidades que forem necessárias. O nosso produto tem sido distribuído principalmente às clínicas, hospitais, estabelecimentos prisionais, farmácias e supermercados”, ressaltou.
Para esta semana, está prevista a entrega de produtos às administração do Sambizanga, Cacuaco e Talatona. A Basel Angola prepara uma campanha para desinfectar as ruas de Luanda com pulverizadores.

Centro de emergência
A directora municipal da Acção Social e Antigos Combatentes de Viana, Paula Contreiras, disse que o centro foi adaptado para acolher pessoas que vivem nas ruas para preveni-las da Covid-19, por representarem uma porta de entrada e rápida para a propagação do vírus, visto que estão muito expostas.
“Realizámos uma campanha de recolha em conjunto com a Polícia Nacional. Encontrámos muitas pessoas que dormiam em jardins, algumas por cima de tectos de estabelecimentos e em frente aos bancos comerciais”, disse a responsável.
Paula Contreiras esclareceu que, até ao momento, o Centro de Viana acolhe 105 pessoas, sendo 11 raparigas que, em breve, vão ser transferidas para o domicílio do Capalanga, estando, nesta altura, a receber instalação eléctrica.
O Centro de Acção Social de Viana dispõe de 39 quartos, repartidos por três pessoas cada. No local são garantidas as três refeições diárias de forma condigna. A direcção criou, também, um programa de ensino de boas regras de convivência, de partilha de coisas e vivência em família.
No período da manhã, os hóspedes aprendem a cuidar da higiene pessoal como, por exemplo, arrumação do quarto, cuidar das casas de banho e as tarefas da cozinha.
A directora da Acção Social e Antigos Combatentes, Paula Contreiras, disse que os hóspedes praticam várias actividades durante o dia, como o desporto e ouvem a palavra de Deus. Garantiu que nos próximos dias vão ser inseridos programas de Cultura e Educação, com o objectivo de os ocupar durante o dia.
Paula Contreiras disse que o centro conta com apoio de 60 voluntários, 30 profissionais de saúde, entre os quais psicólogos e sociólogos. “Estamos satisfeitos, porque algumas pessoas têm demonstrado interesse em juntar-se a esta causa”.
A responsável do centro garantiu que a intenção é cuidar destas pessoas enquanto durar a fase do isolamento social e de quarentena, e depois direccioná-las às famílias. Admitiu que existem casos que não têm solução, porque são utentes que acabam sempre por regressar às ruas e, consequentemente, ao centro, com mais de três vezes de tentativas.

Menino que vive na rua há anos tem apenas seis anos

O menino com menos idade, no Centro de Viana, tem seis anos e vive na rua há dois. Os hóspedes são, na sua maioria, adolescentes e jovens, mas há, também, pessoas com mais 30 e até 53 anos.
Wilson Domingos Manuel, o mais pequeno do centro, com seis anos, explicou que foi parar à rua por causa dos maus-tratos que recebia da tia que, mais tarde, o expulsou de casa. O pequeno é órfão de mãe. O pai cumpre uma pena de prisão e não tem com quem contar. Por força das circunstâncias, o rapaz tornou-seu agressivo, dada a convivência nas ruas.
Rosário Miguel, outro rapaz que vivia no município do Cazenga, tem dez anos e diz ter-se ausentado de casa porque o pai lhe bateu. Está fora do convívio familiar há quase três anos e conta que já foi aliciado com drogas.
“Os mais velhos obrigavam-me a chupar gasolina e, caso reagisse ao contrário, batiam-me. quando chupava ficava muito tonto, mas, mais tarde, tive de ir participar à Esquadra da Polícia e foram detidos”, disse, para acrescentar: “Estudei até à 2ª classe. Sei ler e escrever razoavelmente, mas pretendo continuar com os estudos para poder ser alguém no futuro.”
Daniel Sebastião, 38 anos, foi trabalhador de uma empresa de segurança, entre 2010 e 2012, mas foi forçado a abandonar o emprego devido a um acidente de trabalho. “Caiu-me um portão que fracturou a coluna e até hoje não consigo controlar a urina, pois muitas das vezes nem sequer dou conta, acabo por fazer as necessidades nas calças”.
O jovem diz-se agastado com a empresa pelo facto de até agora não ter sido indemnizado. Conta que antes vivia numa casa de renda com a esposa e filho, mas teve de a abandonar por falta de pagamentos e a mulher regressou a casa dos pais.
Sem alternativa, Daniel Sebastião teve de ir morar na rua, porque não tinha onde ficar. No novo ambiente que encontrou, procura fazer biscatos, cuidando de calçado velho, além de ser engraxador.
“Espero um dia dar continuidade à profissão de pedreiro, mas antes tenho de resolver o meu estado de saúde e fazer alguns cursos para, posteriormente, arranjar um emprego e resgatar a família”, concluiu.

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