Sociedade

Mecânica é profissão que "conserta" vidas

Manuel Albano | Cabinda

Os moradores do Bairro Comandante Valódia em Cacongo, Lândana, têm muitas estórias de vida, para contar. Lá encontrámos dezenas de jovens, que ganham a vida como mecânicos.

Oficina tem sido muito concorrida, o que garante bons lucros para o dono e para os jovens que lá trabalham
Com a aprendizagem do ofício, jovens podem conseguir no futuro o seu auto sustento
Fotografia: Jornal de Angola

 

Os moradores do Bairro Comandante Valódia em Cacongo, Lândana, têm muitas estórias de vida, para contar. Lá encontrámos dezenas de jovens, que ganham a vida como mecânicos.
Às ordens do mestre Gomes Joseth, de 42 anos, dono da oficina, o jovem José Gomes Muanda, de 20 anos, e seus amigos, acordam às seis horas da manhã, para mais uma jornada de trabalho. José Muanda é estudante da 8ª classe, na Escola Milionária de Lândana.  Quando acabar a sua formação académica, sonha ser um grande mestre da mecânica, como o “tio Joseth”, como é tratado, pelos ajudantes e clientes. José Muanda quer ser engenheiro mecânico, mas até o sonho ser uma realidade o jovem vai mesmo aperfeiçoando a prática, reparando as viaturas que aparecem na oficina.
Ele é bate-chapas e pintor. Para isso precisou de dois anos de aprendizagem. “Senhor jornalista, a vida aqui é boa, mas temos problemas com a falta de água potável e o fornecimento de energia eléctrica.
 Temos escolas e centros de saúde, mas precisamos de centros profissionais, para os jovens aprenderem carpintaria, serralharia, electricidade, costura e culinária”, disse José Muanda à nossa reportagem.

Os primeiros passos

Os jovens começam a actividade às seis da manhã e terminam às 11 horas, porque têm de ir para a escola. Como nesta altura estão de férias escolares, aproveitam o tempo livre, paras estarem mais tempo na oficina. José Muanda, ainda vive em casa dos pais. 
Ganha a vida como pintor e bate-chapas.
É um trabalho que leva muito tempo, porque tudo tem de sair perfeito. “Posso demorar dois dias ou duas semanas a reparar um carro”, disse o mestre Gomes Joseth, que aprendeu a arte no Congo Brazzaville, onde se refugiou em tempos de guerra.  Hoje, é um dos mecânicos mais solicitados na região: “tenho muitas encomendas, vivo disto e gosto do que faço”, acrescentou.
Mestre Gomes Joseth explicou, que os sábados e domingos são os dias em que a sua equipa repara mais viaturas. Aos fins-de-semana existe, uma maior procura dos serviços, da parte dos clientes. Hoje mestre adjunto, ontem ajudante, César Gomes diz estar em condições de se comparar com muitos veteranos na arte. 
Garante, que o seu serviço é de qualidade. Por dia recebe na oficina entre sete a oito viaturas: “se os nossos serviços não fossem de qualidade, não teríamos tantos clientes como temos”, afirmou o jovem César Gomes.
Mas a oficina nem sempre teve tanto movimento: “quando começámos tínhamos poucos clientes, porque os nossos serviços não tinham tanta qualidade”, reforçou César Gomes.

Constituir um lar

Enquanto conversavam sobre as suas vidas, não deixavam por um instante a ferramenta de trabalho. César Gomes explicou, que aprendeu a arte com o seu tio, quando abriu a oficina no bairro: “tenho como mestre o meu tio, a quem devo muito. Graças ao ofício, hoje vivo da mecânica”.
José Alberto, de 18 anos, tem uma história semelhante. Como já se considera um artista da mecânica, quer constituir família: “quero ter mulher e filhos. Com ajuda dos meus colegas e muita dedicação vou juntar dinheiro, para levantar um quarto e sala ao lado da casa dos meus pais, para ter mais privacidade”.
Está na vida de mecânico há um ano, estuda a 6ª classe na Escola Milionária de Lândana, a um quilómetro de casa.
Diz, que o trabalho de dar uma nova vida às viaturas, permite fazer algumas poupanças. Aí estão alguns dos futuros engenheiros mecânicos de Angola.
 
Esperança em melhores dias

Apesar das dificuldades da água e luz, os jovens, dão-se por felizes porque nada lhes falta e ajudam nas despesas de casa. José Alberto diz, que “hoje a mecânica é uma actividade em que dá para apostar, pelos inúmeros clientes que têm aparecido”.
Mas a sua maior satisfação é saber, que “muitos empresários já começam a investir na província. O Governo fez a aposta certa em reconstruir as estradas”.
José Alberto acrescentou, que com a recuperação das principais infra-estruturas sociais, os jovens têm agora mais possibilidades de estudar e arranjar emprego. “Isto mostra, as grandes vantagens de vivermos em países livres de conflitos armados”, afirmou.
José Alberto lamentou o facto de existir, ainda, em algumas localidades da província de Cabinda, dificuldades no abastecimento da água.

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