Sociedade

Meios inutilizados por falta de técnicos especializados

Augusto Cuteta |

Muitos equipamentos hospitalares, alguns de alta tecnologia, estão a deteriorar-se em diversas unidades clínicas do país, por falta de pessoal capacitado para manuseá-los, denunciou, em Luanda, o presidente do Sindicato dos Médicos de Angola, Adriano Manuel.

Muitos equipamentos hospitalares, alguns de alta tecnologia, estão a deteriorar-se em diversas unidades clínicas do país, por falta de pessoal capacitado para manuseá-los, denunciou, em Luanda, o presidente do Sindicato dos Médicos de Angola, Adriano Manu
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, o sindicalista lamentou o facto de essas situações estarem a acontecer, numa altura em que o Estado faz grandes esforços financeiros para a aquisição dos meios, mas esses equipamentos de diagnósticos acabam avariados, devido à inoperância.
Se há hospitais, como o da Barra do Dande, que têm equipamentos inoperantes, como uma Tomografia Axial Computarizada (TAC), Adria-no Manuel revelou existir outros com técnicos preparados para trabalhar com os referidos meios, mas não os dispõem. É o caso do Hospital do Prenda, que precisa de um aparelho TAC.
Os hospitais do Bocoio (Benguela) e do Cuando Cubango são outros casos de unidades equipadas com meios modernos, mas inoperantes, por falta de técnicos. Para prevenir que os aparelhos se estraguem, o médico propôs uma cooperação entre os hospitais do país, para que seja possível uma política de troca.
“Esta estratégia ia permitir que o hospital que tiver um certo equipamento inoperante, por falta de técnicos, cedesse o aparelho a outro com condições, para torná-lo funcional”, exemplificou o médico pediatra.
O presidente do sindicato recordou, o recente acidente que envolveu dois comboios, no Lubango, em que as vítimas tiveram de ser transferidas para Luanda, porque o Hospital Provincial da Huíla não tinha aparelho de TAC, ou de ressonância magnética.
Adriano Manuel considerou, a falta de recursos humanos especializados, como um dos principais problemas que o país enfrenta. Em cerca de seis mil médicos inscritos na Ordem dos Médicos de Angola, menos de 600 são especialistas, para acudirem uma po-pulação de cerca de 28 milhões de habitantes.
Em função desta realidade, o presidente do sindicato sugeriu ao Governo, para, sob supervisão dos ministérios da Saúde e do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, elaborar um plano devidamente estruturado, na perspectiva da formação contínua nas especialidades. Esse plano, acredita o médico, pode inverter o quadro actual em que o país não dispõe de especialistas em ortopedia pediátrica, nem em doenças do tecido conjuntivo.
Neste momento, o país conta com menos de 12 médicos especialistas, em cirurgia pediátrica, uma em gastroenterologista pediátrica, perto de dez endocrinologistas, uma especialista em cardiologia pediátrica, um em pneumologia pediátrica e cerca de 15 hematologistas. Por exemplo, está a ser construído um hospital ou centro de hematologia, quando a classe médica desconhece algum plano de formação de especialistas, para trabalhar nesse estabelecimento.
A par dessa unidade de saúde, o presidente do sindicato lamentou o facto, de se ter construído muitas ou-tras unidades hospitalares, centros e postos de saúde, sem que se precavesse a questão dos recursos humanos, principalmente, médicos e pessoal para manusear e trabalhar na manutenção dos equipamentos.
Em relação à questão dos médicos, disse que há milhares de quadros desempregados, em Cabinda, mais de 50 licenciados em Medicina correm o risco de continuarem sem emprego, por exiguidade de vagas do concurso público. O mesmo cenário verifica-se em Benguela, Huambo e Malanje, províncias que contam com Faculdades da área.
“Temos municípios ou distritos sem médico algum, quando o Ministério faz campanha de uma suposta municipalização dos serviços de saúde”, questiona.
Por isso, propõe a reestruturação do referido programa de municipalização, a primar pela criação de condições, no interior, com vista a atrairem os técnicos. “O médico quer aprender sempre, mas se for colocado numa unidade sem probabilidade de aprendizado, esse profissional vai fugir daí, sem dúvida”, alerta.
Essa questão da criação de condições de trabalho e da aposta na formação contínua de especialistas, pode ajudar o país a diminuir os custos, com tratamentos fora do país.

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