Sociedade

Moradores recusam-se a ir para o KM44

Rodrigues Cambala

Os moradores do prédio número um da Rua Rainha Njinga, vulgarmente conhecido por “Treme-Treme”, recusam a ser realojados na urbanização Quilómetro 44, localizada no município de Icolo e Bengo, por falta de transparência no processo e de condições na zona.

 

Fachada principal do prédio que vai ser evacuado este ano
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Geovane Victor, morador há 30 anos, disse que a contestação está a ser feita por habitantes do prédio e não por marginais
“Queremos que o processo seja transparente, porque está viciado e com critérios pouco claros”, apontou Geovane Victor, afirmando que a comissão de moradores não está interessada em resolver o problema da maioria dos moradores e o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação quer desalojar sem um diálogo aprofundado.
Ao lamentar “a falta de transparência no processo de realojamento”, Geovane Victor explicou que “a posição de quem vive no prédio  deve-se ao facto de apenas os membros da comissão de moradores, familiares e amigos constarem da lista dos que vão ser transferidos para a centralidade do Cazenga”.
Das 250 famílias, o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação pretende transferir 50 para a centralidade do Cazenga e as demais para o Quilómetro 44, urbanização localizada junto ao novo aeroporto internacional de Luanda, ainda em construção.
“Gostaríamos de perceber como foi feita a selecção e a verdade é que nem o Ministério nos consegue explicar”, declarou Geovane Victor.
A recusa dos moradores seleccionados para viver no Quilómetro 44 aumentou depois de alguns terem visitado, há dias, a urbanização, onde constataram não haver escolas do ensino secundário e médio nem estabelecimentos de saúde.
“Há apenas uma escola do ensino primário”, acentuou Geovane Victor, admitindo que, caso a transferência para aquela urbanização aconteça, os  jovens podem parar de estudar, uma vez que não vão poder ir à escola no centro da cidade por falta de transporte e dinheiro.
Aborrecido pela forma como o processo está a ser conduzido, Geovane Victor defendeu que “todos os moradores deviam ser alojados num único local”.
Os moradores estão a criar uma nova comissão para dialogar com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação, colocando fim ao trabalho da anterior que, segundo eles, negociava para benefício próprio e dos seus familiares.
Geovane Victor referiu que, nesta altura, o grupo de moradores insatisfeitos já constituiu um advogado, que vai ajudar nas negociações com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação.
Os moradores garantem que “na lista há nomes de pessoas estranhas, que não residem no prédio”. />“Presumimos que haja algum esquema, mas vamos lutar até ao fim, até que reconheçam a legitimidade da nossa contestação”, afirmou Geovane Victor, que disse esperar por novas negociações com o Governo sem mais a presença da anterior comissão.
Há 11 anos a viver no prédio, Adérito Fernandes disse que a palavra “realojamento” é ouvida há mais de 20 anos e que “a actual comissão de moradores nunca foi eleita”.
O morador lembrou que o edifício não é do Estado, mas da SICCAL, que nunca enviou um interlocutor para dialogar com os moradores.
“O edifício não mexe e nunca apresentou sinais de desabamento”, salientou Adérito Fernandes.
Adérito Fernandes afirmou que “a selecção de 50 das 250 famílias abrangidas no processo de realojamento para a centralidade do Cazenga” demonstra haver exclusão:
As reuniões anteriores com o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação, de acordo com Adérito Fernandes, nunca abordaram a possibilidade de alguns ficarem alojados na centralidade do Cazenga e outros no Quilómetro 44.
Inicialmente, conta, foram mencionadas as centralidades  Zango Zero, Oito mil e Quilómetro 44, mas a última das quais foi recusada pelos moradores, devido à distância e à falta de condições.
“Na altura, o Ministério do Ordenamento do Território e Habitação alegou que as casas do Zango só estariam prontas dentro de oito meses e nós dissemos que poderíamos esperar”, frisou Adérito Fernandes.
Já Giresse Luvaca, há mais de trinta anos no prédio, admitiu que a lista, apresentada pelo Ministério, tenha sido produzida em conjunto com a comissão de moradores, que privilegiou alguns em detrimento da maioria.
Os moradores informaram que nunca lhes foi apresentada uma data para o desalojamento, mas ouviram pela comunicação social que pode vir a acontecer em Maio.
“Não é verdade que os moradores não querem sair. O que acontece é a falta de transparência, além das dificuldades que os moradores vão ter no Quilómetro 44”, disse Giresse Luvaca.
O morador Yuri Manuel declarou que estão conscientes dos problemas do edifício, que não podem ser mencionadas como a razão para os moradores serem transferidos para uma área distante da cidade de Luanda, prevendo que os  que não têm  carro próprio venham a desistir de estudar e trabalhar.

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