Sociedade

Mundo à procura de mais dadores de sangue

Osvaldo Gonçalves

A notícia divulgada há cerca de um ano, segundo a qual o Instituto Nacional de Sangue (INS) descarta 50 por cento do produto recolhido por ano, por este se encontrar infectado, sobretudo com hepatite B, só veio reforçar a convicção de que é urgente uma mudança radical no perfil dos dadores no país.

Angola precisa de mais dadores regulares para diminuir o défice ainda existente, mas quem quiser dar sangue tem de ser saudável e maior de 18 anos
Fotografia: Edições Novembro

A maior parte do sangue recolhido advém de familiares de pacientes submetidos a intervenções que necessitam de sangue, mas essa realidade precisa de ser alterada com urgência, por ser maior a cada ano a quantidade do líquido doado que é descartada por se revelar imprópria.
A directora do INS, Antónia Constantino, disse na altura que, em 2015 e 2016, a taxa de desaproveitamen-to do sangue doado foi de 50 por cento.
“Em 2015, tivemos uma perda de cerca de 12 mil bolsas de sangue, pela positividade de microrganismos, dos quais a hepatite B foi a mais prevalente, embora as pessoas temem mais o VIH”, afirmou, na ocasião. Essa tendência mantinha-se até meados do ano passado. “Até Maio, o perfil não mudou absolutamente nada. Continuamos com perdas de 50 por cento do sangue recolhido, ou seja, é muito urgente mudarmos o perfil dos dadores, melhorarmos a nossa triagem e sermos mais responsáveis enquanto dadores”, defendeu a responsável.

Reforço em meios

Ao falar numa palestra sobre as “Perspectivas e os Desafios para o Desenvolvimento de um Programa Nacional de Dadores de Sangue”, realizada em Luanda, por ocasião do Dia Mundial do Dador de Sangue, Antónia Constantino adiantou que o INS tem investido em novos meios tecnológicos que permitem rastrear com maior segurança o sangue colhido, reduzindo o período de “janela” dessas infecções.
Antónia Constantino referiu, na altura, que o país precisava de cerca de 257.890 doações por ano, objectivo que exige a existência de pelo menos 322.363 dadores, mas tal meta está longe de ser alcançada, frente às perdas verificadas e à carência de dadores voluntários: apenas dez por cento, contra 90 por cento de familiares dos doentes.
“A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que 100 por cento das doações sejam voluntárias e regulares. Então, estamos ainda muito longe de alcançar aquilo que é o objectivo”, sublinhou Antónia Constantino.
A 17 de Junho do ano passado, o INS realizou, em simultâneo, em todas as províncias do país, uma grande marcha para assinalar o 14 de Junho, Dia Mundial do Dador de Sangue. Desde 2005, a OMS assinala a data com actividades com vista a homenagear os voluntários que doam sangue, além de consciencializar as populações para a importância do acto.
A data corresponde ao nascimento do médico austríaco Karl Landsteiner, Prémio Nobel de Medicina em 1930, e ao descobrimento do sistema AOB de tipagem sanguínea.

Doações voluntárias

Os repetidos apelos à doação voluntária de sangue feitos pela OMS coincidem em pleno com as precupações do INS de Angola, que procura, de várias formas, despertar a consciência dos angolanos para que tenham a doação de sangue como um hábito e não façam apenas doações esporádicas ou para familiares.
Em todo o Mundo, são colhidos todos os anos 93 mi-lhões de bolsas de sangue. Mas o número, embora possa parecer elevado, é insufiente para atender a todas as necessidades, deixando milhares de pacientes à espera para receberem uma transfusão.
Uma pesquisa realizada em 173 países revelou que as taxas de doações representam menos de um por cento da população, enquan-to a OMS recomenda que se situe entre os três e os cinco por cento.
Todos os anos, a vida e a saúde de mais de 250 milhões de pessoas são afectadas por situações de emergência. As estatísticas apontam que, na última década, os desastres naturais, como terramotos, inundações e tempestades, levaram a mais de um milhão de mortes. Estas situações ge-ram consideráveis necessidades emergenciais de assistência à saúde, ao mesmo tempo que, em geral, também destroem instalações de saúde vitais.
Os desastres ocasionados pelo homem, como os acidentes de trânsito e os conflitos armados, também geram exigências substanciais de assistência à saúde e a necessidade de tratamento de primeira linha, lembra a OMS, que in-siste no facto de serem as transfusões de sangue uma com-
ponente essencial da assistência à saúde em situações de emergência.

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