Sociedade

No Cuito o comboio apanha-se no Cunje

Miguel Gomes l Cuito

Voca Franco está firme na bicha para comprar o bilhete que o vai levar ao Luena, província do Moxico. Poucos minutos antes um comboio com várias carruagens de carga e passageiros amontoados na terceira classe tinha zarpado rumo a outras bandas. Estamos na estação do Cuito, que na verdade é na comuna do Cunje.

Fotografia: DR

“Viajo de comboio trimestralmente. Vou a Benguela fazer consultas e visitar alguns familiares. Desta vez fiquei lá duas semanas", disse Voca Franco, professor do ensino primário, 54 anos.
Enquanto a família mais chegada vive no Luena, Franco desenvolve a sua profissão na cidade de Saurimo, província da Lunda Sul. Há aqui uma triangulação da vida pessoal e profissional que junta Benguela, Moxico e Lunda Sul. E o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) tem um papel a desempenhar.
A comuna do Cunje está a cerca de 5 quilómetros da cidade do Cuito. É uma zona que vive do movimento de pessoas à volta do CFB e de alguma pequena agricultura.
Voca Franco conseguiu comprar o seu bilhete para o Luena. Mas a viagem é só no dia a seguir (hoje, quarta-feira). Não perguntamos mas é provável que pernoite nas imediações da estação, onde terá de comprar algo para comer e beber. Algumas dezenas de pessoas tentam imitar Voca Franco, procuram o seu destino e adquirem os respectivos bilhetes.
Tiago Tchikemana tem barba e afirma já ser pai antes de assumir os seus 33 anos de idade. Não é passageiro mas diz ser natural do Cunje onde aguentou “muita quentura” na vida. A alegoria não diz respeito a questões climáticas. É uma forma de lembrar a guerra civil, memória algo distante, por estes dias, mas que está presente nas vistas e no coração de muitos. A tragédia é sempre difícil de olvidar.
“As pessoas que necessitam de pernoitar na estação não têm boas condições. Quem tem algum dinheiro disponível acaba por se atirar nas casas de processo. Quem não tem esta possibilidade dorme mesmo na rua. Dentro da estação ninguém fica", contou o carregador, que lamenta a falta de condições.
Tchikemana ajuda a levar a mercadoria dos passageiros para os vagões de carga. Diz que por dia ganha entre 1000 a 1500 kwanzas.

Surpresas e desilusões
Por trás de Tiago Tchikemana, a pouco mais de cinco metros de distância, estão duas senhoras mais-velhas. Uma está a tricotar, em silêncio, ao mesmo tempo que aprecia os rostos e os movimentos de quem passa no interior da Estação do Cuito, que na verdade é no Cunje.
Ao seu lado está Helena Jamba, proveniente de Luanda, onde apanhou o autocarro para o Cuito. Daqui segue então para o Luena.
“Estou a ler um livro que fala do povo de Israel”, explica, antes de contar um pouco da história que utiliza para alimentar a sua relação com o divino.
Helena Jamba tem 54 anos, sete filhos e o marido é falecido. Para além do livro e de uma bíblia viaja com sacos e água para beber. Vive em Luanda há muitos anos apesar de ser natural do Luena.
“Prefiro vir de carro até ao Cuito e depois apanhar o comboio para o Luena”, disse Helena Jamba. Rapidamente explica porquê. “De avião está a custar 45 mil kwanzas. Ida e volta chega aos 90 mil - eu nunca vi este dinheiro”, contou.
É uma hiperbole que serve para frisar que viajar de avião deixou, nos últimos anos, de estar ao alcance de qualquer cidadão. Mais uma razão para investir noutras alternativas, como o comboio e o autocarro. A província do Bié, que está no centro geodésico do país, tem condições para transformar-se numa plataforma logística.
Helena Jamba demorou um pouco a aceitar a entrevista. Depois explicou porquê. “Ninguém sabe que estou a viajar. É uma surpresa. Desde 1997 que não vou ao Luena. Tenho receio que as fotografias sejam publicadas e que toda a gente me veja!”.
Os passageiros de 2019 do CFB provavelmente desconhecem que a contrução da linha férrea foi realizada com objectivos muito específicos - que não incluíam o transporte de nativos ou a promoção do comércio e da interligação do país. A construção do CFB foi uma promoção britânica - que Portugal aceitou por razões económicas, políticas e militares - para facilitar e tornar mais barata a exportação do cobre zambiano.
Esta iniciativa estava conectada com o projecto ferroviário inglês que ligou a Cidade do Cabo (África do Sul) ao Cairo (Egipto) e que tinha uma importante actividade na província do Katanga, antigo Congo Belga e actual República Democrática do Congo.
Era o colonialismo a todo-o-vapor na exploração dos recursos naturais e da mão-de-obra forçada.
O comboio chegou ao Cunje em 1929, depois de nascer no Lobito e passar por Benguela, Cubal e Huambo.
Tudo isto parece ser desconhecido para Manuel Akuku, 52 anos, que veio de Luanda mas vive no Cuito. Utiliza o comboio para chegar ao Luau (Moxico). É comerciante de materiais de construção e faz esta viagem uma vez por mês.
Sobre a confusão e falta de condições que reina na terceira-classe (quase todos os comboios têm três classes disponíveis para os passageiros), Akuku entra em modo desesperança e auto-crítica exagerada, como se não houvesse solução para os problemas.
“É África”, atirou, ao mesmo tempo que encolhe os ombros. "É assim em todos os países: África do Sul, RDC, Moçambique. Estamos a melhorar mas ainda não temos um comboio a passar de 10 em 10 minutos”, disse, conformado.

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