Sociedade

O “embaixador do povo” vendeu cigarros nas ruas de Saurimo

Rui Ramos

Hélder Chihuto de 33 anos de idade, nasceu em 1986 no município da Ingombota, no Zé Pirão.

Hélder Chihuto forçou a mãe a vender bolinho para sobreviver
Fotografia: Cedida

Os seus estudos primários foram iniciados na Escola do Funje no Bairro Operário, em 1991, depois, em 1992, foi transferido para a escola da Liga Africana até à quarta classe, e em 1996 foi transferido para a escola Nzinga Mbande onde estudou até à sétima classe.

Em 1999 fez a oitava classe na escola Povo em Luta, e a nona foi feita em 2000 em Saurimo, terra natal da mãe, como consequência da ruptura da união de facto dos pais.
Hélder Chihuto enfrentava nessa altura uma “calamitosa crise económica e social” da família, que forçou a mãe a vender “bolinho” na rua para sobreviver e o adolescente a zungar cigarros Yes na cidade de Saurimo, durante quase 2 anos.
Hélder Chihuto regressa a Luanda graças à intervenção do seu tio Tomé, em 2002. Hélder Chihuto tudo fez para dar sequência aos estudos mas sem sucesso pois era a época dos 500 dólares para ingressar no ensino médio. Dada a elevada precariedade da sua situação económica, o jovem não conseguiu ingressar no ensino médio.
Hélder Chihuto, recorda, lacrimejava de profunda tristeza pois ninguém se compadecia de si.
Mas, devido à sua “teimosia e insistência” em querer estudar, decidiu, em 2003, ir até à escola do ensino médio ter com qualquer pessoa afecta à instituição a fim de solicitar uma ajuda para o seu ingresso.
Lá chegado, deparou com a tia Beth e colocou-lhe, com “imensa humildade”, o seu pedido de ajuda: “Minha tia, por amor de Deus, preciso de estudar, ajuda-me, pois se me olhares como teu filho nascido de ti, certamente que não terás dificuldade em ajudar-me, peço por amor de Deus, que me ajudes.”
A tia Beth, com um olhar tocado e com profunda compaixão, recebeu os documentos e em duas semanas já tinha resolvido o problema e Hélder Chihuto abraçou um novo desafio.
Nesta altura Hélder Chihuto vivia só com o pai desempregado e sem fonte de subsistência e passa a frequentar o grupo São José (ex-Carmelo) no Bairro Azul.
A esse grupo de jovens católicos solidários Hélder Chihuto ainda hoje agradece o apoio alimentar, bem como ao seu pai de criação Fernando Moura Tavares (português) com quem a sua mãe mais tarde veio a unir-se.
A maior parte das vezes Hélder Chihuto não tinha o que comer e muito menos um só kwanza para apanhar transporte para ir à escola.
Mergulhado no espírito de coragem e determinação, passava o tempo a pedir "boleia" nos autocarros da TCUL e da Macon para chegar à escola.
“No início foi muito difícil, tinha de acordar todos os dias às 4h00 da manhã para conseguir apanhar o primeiro autocarro que saía do Cazenga até Benfica para me deixar no Futungo de Belas, na Escola 28 de Agosto.” Hélder Chihuto vivia na Samba e era humilhado por alguns cobradores do autocarro a ponto de pararem a viatura para que ele descesse, choroso, por não pagamento do bilhete.
Manuel Gouveia Zua (Portela), seu irmão de igreja, em muitas ocasiões suportava o seu transporte escolar e dividia o seu prato de comida com Hélder Chihuto.
Hélder Chihuto estudava com muito destaque académico e com distinção e em 2006 consegue o seu primeiro emprego como operador de caixa no hipermercado Canguru no Zamba 2.
Terminou o médio com muito êxito e em 2007 ingressou nas Forças Armadas tendo cumprido o serviço militar obrigatório e miliciano e, decorridos 12 anos, a seu pedido, requereu passagem à reserva, depois de ser oficial na categoria de subtenente.
“Eu era proposto sempre para patenteamento mas por malícia do pessoal dos RH não era promovido, mas como sabia que o limite do tempo de permanência já estava no fim, preferi sofrer em silêncio aproveitando formar-me para garantir a licenciatura.”
Como estudante universitário, era muito destacado e empenhado, tendo sido por duas ocasiões e por duas universidades privadas, vencedor de concursos de Eloquência (debates académicos).
No seu último ano na Universidade, como resultado do seu empenho, a título excepcional fez em simultâneo a sua primeira pós-graduação em práticas jurídico-forenses, depois fez a segunda pós-graduação em agregação pedagógica e actualmente é docente universitário e exerce advocacia.
Hélder Chihuto é “irrefutavelmente Servo de Deus genuinamente falando, Profeta ministerialmente falando”, activista social, analista político, conhecido como “O embaixador do povo” no programa Angola Urgente da TVPalanca, dedica-se à solidariedade social e em 2019 foi o vencedor do concurso “Angola 35 graus” na categoria de política e sociedade. O grande sonho de Hélder Chihuto é acabar com os meninos de rua, a prostituição, o alcoolismo e a criminalidade.
Hélder Chihuto é finalista do curso de mestrado em Governação e Gestão Pública pela Universidade Agostinho Neto.

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