Sociedade

Obesidade cresce no mundo

Eurídice Vaz da Conceição |*

Números que assustam, especialistas em busca de novos remédios e pacientes em desespero para ganhar a “guerra” contra a balança. As estatísticas da obesidade já exigem respostas rápidas e perfilam-se, ano após ano, como um problema grave de saúde pública em Angola.

 

 

Indivíduos que vivem com o problema têm a qualidade de vida bastante diminuída
Fotografia: DR

O problema afecta mais de 641 milhões de adultos no mundo, quase 13 por cento da população, e pode chegar a 20 por cento nos próximos anos. A obesidade é uma doença multi-factorial que precisa de ser tratada em vários aspectos, principalmente o emocional.
Quando atinge a fase mais avançada, tem no preconceito, estigma social e na baixa estima alguns dos principais sinais. Essa condição leva milhares de pessoas a “fugir” da sociedade e, em casos mais extremos, a perder a vontade de viver, devido à discriminação.
A ex-estudante Eufrásia de Sousa conhece bem essas reacções e desde cedo entrou para as estatísticas. Com 39 anos de idade, sempre teve corpo robusto. Nasceu com 6 quilogramas e aos 8 anos já pesava 60, um sinal de alerta que o tempo veio confirmar.
Eufrásia de Sousa nunca foi uma adolescente como as outras e, várias vezes, sentia-se rejeitada na hora das brincadeiras. Perdeu a guerra contra a balança e chegou a atingir 190 kg, antes de buscar o socorro especializado. “Está a ser uma grande batalha. Ainda sinto muita vergonha de estar ao lado das pessoas, mas estou confiante que vou conseguir recuperar a auto-estima”, confessa Eufrásia.
A obesidade é para a jovem mais do que um sinal de risco. Ao longo dos anos, causou-lhe danos no coração, diabetes e também problemas de ansiedade. A doença condiciona-lhe a prática de actividades que já foram de rotina, como limpar a casa de uma só vez.
Vencida pelo peso, tem hoje dificuldades de andar em transportes públicos, porque ocupa muito espaço e paga mais caro que outros clientes. O que poderia ser alternativa, os táxis, constituem também problema no dia-a-dia, porque Eufrásia não cabe nos bancos dos carros.

Vida de desafios

Em casa está frequentemente a depender de familiares para desenvolver actividades que várias vezes já chegou a fazer sozinha. A determinação de vencer a luta contra a balança e o estigma social têm sido processo lento, mas que já demonstram alguns resultados. Actualmente, Eufrásia de Sousa reduziu um pouco o peso, mas não o suficiente, estando com 170 kg, ainda acima do desejado. Para voltar a equilibrar e dominar o corpo, está a ser acompanhada por um nutricionista, um cardiologista e um neurologista. É com esse trio que faz uma rigorosa dieta e procura manter a predisposição para a prática de exercícios físicos. Segundo a OMS, um em cada oito adultos é obeso. Este número aumentou desde 1975 e as previsões apontam que, até 2025, um em cada cinco pessoas vão sofrer de obesidade.
A OMS aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projecção é que, em 2025, perto de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso e mais de 700 milhões se tornem obesos.
Segundo o médico endocrinologista Paulo Cambita, a obesidade é uma doença crónica caracterizada por excesso de gordura corporal que prejudica a saúde. Explica que ela coincide com o aumento de peso, mas nem todo aumento de peso está relacionado à obesidade. “A título de exemplo, muitos atletas são pesados, devido à massa muscular”, argumenta. Além dos maus hábitos, o médico cita o aumento da expectativa de vida como outro factor para o crescimento do número de casos da doença. “Em 90 por cento dos casos, o cancro aparece em decorrência dos péssimos hábitos de vida, como obesidade, sedentarismo, tabagismo, exposição aos raios solares sem protecção e má alimentação. Por isso, torna-se imperioso adoptar uma rotina saudável”, acrescenta.
De acordo com o médico, quanto maior for o Índice de Massa Corporal (IMC) de uma pessoa, maior a hipótese de morrer precocemente e de desenvolver doenças do tipo diabetes mellitus, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.
Paulo Cambita explica que isso não significa que quanto mais magro melhor, pois o índice de mortalidade também aumenta em indivíduos com IMC muito baixo, especialmente por causa de doenças infecciosas. “O ideal é manter-se entre as faixas de 50 a 60 kg. O IMC não é indicador suficiente da gravidade do problema de peso em excesso, pois o tipo de distribuição dessa gordura pelo organismo também é importante”, reforça.

*Jornalista da Angop

Existem histórias exemplares de sucesso

A história de Diego Rocha, estudante universitário de  23 anos, impressiona pela velocidade com que conseguiu perder 50 kg em apenas 5 meses. Superou o quadro de obesidade mórbida, saindo dos 131 kg para 81 kg. A rápida metamorfose foi conquistada em 2014.
No primeiro mês, o emagrecimento foi de 15 kg e nos quatro restantes de 35 kg. À medida que ia seguindo um plano alimentar e de exercícios orientados por profissionais, Diego também estudava artigos científicos sobre alimentação.
No fim do processo, criou uma tabela, recomendada posteriormente por um grupo de nutricionistas. Com essa determinação, tornou-se um caso de superação. “Quando estava acima do peso, estava constantemente cansado, indisposto e bastante stressado”.
“Quando a pessoa não está verdadeiramente disposta a mudar os hábitos de vida, qualquer coisa se transforma em problema intransponível. É preciso adoptar uma rotina de exercícios e hábitos alimentares mais saudáveis”, aconselha.
Durante vários anos, Diego viveu bastante oprimido e já pensou em suicidar-se. A ajuda da família foi fundamental para a busca de socorro especializado. Com medicação e sem cirurgia, mantém o ponteiro da balança controlado.
A nutricionista Mariana de Almeida recomenda alimentação controlada para evitar a obesidade. Aponta o stress, a falta de exercícios físicos e o uso de alimentos inadequados como causas da obesidade, sobretudo para pessoas com mais de 30 anos. “Deve-se praticar actividade física regularmente e com orientação de um profissional”, diz.

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