Sociedade

Pacientes no Sanatório têm dias menos penosos

Augusto Cuteta

Tem agora o corpo franzino, qual menina de 16 anos, mas o rosto abatido não deixa dú-vidas de que se trata de uma mulher adulta. As marcas ósseas no dorso são visíveis, pois tem-nas encobertas por uma blusa leve e com as alças penduradas nos ombros caídos para o lado esquerdo.

Técnicos e pacientes do sanatório reconhecem que decorre grandes mudanças no hospital nos últimos três meses
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Sentada numa cadeira plástica, dona JP, iniciais de um nome fictício, esforça-se pa-ra se levantar e saudar a equi-pa de reportagem do Jornal de Angola que a quer entrevistar. Mas, o exercício dura pouco. Ela desiste e continua abancada. Suspira e sorri. Tos-se. Cumprimenta os jornalistas e volta a tossir, enquanto eleva à mão direita, bastante frágil, à boca.
Embora fragilizada, dona JP demonstra ser uma boa comunicadora, embora fale com certas dificuldades para soltar a voz, que, em menos de cinco minutos, conta a si-tuação geral que vive, desde que internou no segundo andar do Hospital Sanatório de Luanda, onde recebe tratamento contra a tuberculose, desde o mês passado.
Embora dispense os flashes do fotógrafo Paulo Mula-za, a vendedora ambulante e moradora do bairro Palanca, afirma que soube da doen-ça muito tarde. No início, há mais de seis meses, refere que tinha pequenas tosses, que ainda dava para continuar os pequenos negócios que fazia, para contribuir no su-porte da casa, do marido e dos seis filhos.
Quando ia abrindo o livro da sua vida, JP volta a avisar que não quer fotos, mas insiste que a companheira de quarto se junte à nossa conversa. Esta apela para não ser incomodada, pois sente dores muito fortes. Pedido respeitado. E a primeira interlocutora pede calma e continua o diálogo com os jornalistas.Nesse período, ela faz algum esforço para conter a tosse, talvez pela presença dos visitantes.
 Na cama de JP, uma mulher de 34 anos e que manifesta muitas saudades dos filhos, que não os vê por esses dias, não tem mosquiteiro, diferente do leito da companheira de aposento, que dispõe desse utensílio de protecção da picada do mosquito, as roupas pessoais e os lençóis levados pela família.
A senhora tem os panos e uma bolsa castanha encostadas à cabeceira da cama, enquanto uma banca feita de metal, decora o quarto das duas. É nela onde guarda a comida dada pelo hospital e a fruta que vem de casa. Não solta lágrimas, mas se entristece sempre que menciona a família. Os filhos mais novos estão sob cuidados da primogénita, já com 16 anos, que conta com a ajuda do pai. “Eles, os meninos, não podem vir aqui, por causa dessa doença, mas nós falámos algumas vezes por telefone”, refere.
Sobre o atendimento que recebe, elogia a postura dos médicos e dos enfermeiros, mas repudia o comportamento de algumas famílias que abandonam os seus do-entes. Quem igualmente enaltece às melhorias no hospital é o pai de José (nome fictício), um menino de 13 anos, que está ali há três semanas internado.
O senhor, actualmente desempregado, refere que o filho está a recuperar agora de uma cirurgia feita no Hospital do Prenda, após ter sido diagnosticado um problema pulmonar, que requereu operação. “O atendimento é bom, daí que o miúdo está a melhorar satisfatoriamente”, disse.
O pai do menino José confessa que muita coisa mudou a nível da unidade sanitária, embora avance que outras tantas devem ser alteradas. Entre essas mudanças real-ça a necessidade de se me-lhorar as condições no Banco de Urgência, onde ainda são atendidos os doentes em condições precárias.
No Banco de Urgência, estão pacientes atendidos em macas, bancos e alguns em colos de familiares. O cenário é assim todos os dias, principalmente às manhãs, realçou um técnico daquele serviço. “Há dias em que re-cebemos mais de 50 casos novos, alguns dos quais, considerados gravíssimos”, real-ça. O técnico, que trabalha por turno, numa equipa de quatro médicos e de seis en-fermeiros, disse que o banco rebenta quase todos os dias pelas costuras, avançando que actualmente há poucos períodos do ano em que o pessoal de atendimento tem algum sossego.
Aliás, sossego é o que os técnicos teriam, caso as unidades de cuidados primários fizessem o seu papel em re-lação aos doentes de tuberculose aí diagnosticados, tratando-os a partir das suas zonas de residência, como salientou Rodrigues Leonardo, o director-geral do Hospital Sanatório de Luanda.
Neste momento, além do pequeno José, JP e sua companheira, o Sanatório controla outros 273 pacientes com infecções pulmonares, além de atender outros mais de 300 nas consultas externas. Alguns desses são provenientes do Bengo, por essa província não dispor de um hospital especializado no tratamento da tuberculose.
Fundado a 15 de Julho de 1972, pelo capitão de fragata Leão do Sacramento Monteiro, então secretário de Estado da Administração Ultramarina, o estabelecimento de três pisos regista, por incapacidade no atendimento e pela chegada tardia de doentes, 40 óbitos em cada 100 pacientes ali assistidos, revelou o doutor Rodrigues Leonardo.
Apesar desses problemas, o Hospital Sanatório, unidade que deveria atender somente casos de tuberculose em doentes com complicações, pacientes resistentes às multi-drogas e os com co-infecção TB e VIH, tem registado mudanças significativas quer do ponto de vista de in-fra-estrutura, quer da situação sanitária.
Hoje, muita coisa mudou, depois da visita do Presidente da República, João Lourenço, há cerca de três meses ao hospital, dizem-no os técnicos e os gestores da unidade. E confirmam os pacientes e seus familiares, apesar dos problemas ligados à rede de esgotos, de tratamento de águas residuais, das infiltrações de água no interior de alguns compartimentos ainda continuarem, mas com um impacto muito inferior.
O director disse que ainda continuam com problemas da falta de água corrente, de energia eléctrica, o que obri-ga a recorrer-se às fontes alternativas. Mas, ficou para o passado, as más condutas de funcionários, que se baseavam no mau atendimento dos pacientes e na exigência de pagamentos aos utentes para terem acesso aos serviços do Sanatório.
Embora mantenha as na-ves funcionais, o Sanatório viu recuperada vários compartimentos que andaram imundos e desocupados, o que vai melhorar a acomodação dos doentes. O que falta é o apetrechamento com camas e reposição de janelas, um trabalho que já começou.
Hospital-Escola em dois anos.
Durante anos, disse Rodrigues Leonardo, o hospital andou atirado ao abandono, assim como o é a doença que arrasta os pacientes àquela unidade clínica. “É um problema mundial, pois, os governantes estão a negligenciar a tuberculose, talvez por ser um problema que afecta mais os pobres”.
Em Angola, o cenário era quase o mesmo. Mas, a visita efectuada pelo Chefe de Estado levou a esperança por dias melhores para os doentes e técnicos do Sanatório, principalmente com o anúncio da construção de um novo hospital dentro de dois anos, realça o director-geral.
Enquanto isso, a expectativa pela construção do novo hospital é grande. O arranque das obras depende do Orçamento Geral do Estado (OGE), que já reservou as verbas para a materialização do projecto, disse o director-geral.
Esse trabalho, que inclui igualmente a reabilitação do actual hospital, fica orçado em 31,3 milhões de dólares. Enquanto isso, obras paulatinas vão ser levadas a cabo, para que sejam aproveitados todos os compartimentos existentes no antigo edifício.
Um dos maiores problemas que o Sanatório en-frenta tem a ver com a falta de médicos especialistas em pneumologia. Esse proble-ma vai ficar para trás, uma vez que a nova instituição vai funcionar como um hospital-escola.
Com capacidade para 300 camas, o novo hospital vai dispor de um conjunto de componentes tecnológicos que o actual Sanatório não oferece, com destaque para serviços de ressonância, anatomia patológica, ambulatório com todas as valências de uma unidade docente, bloco operatório e cuidados intensivos.
Projectado para ser o mais moderno do país, o novo Sanatório vai dispor ainda de serviços de broncoscopia, cirurgia torácica, hematologia, tomografia auxiliar computarizada, ultra-sonografia, entre outras tecnologias que vão ajudar na formação de especialistas em pneumologia, entre os quais tisiologistas.
Diferente de outras áreas de formação, na Medicina, as especialidades são feitas nos hospitais, por cerca de quatro a cinco anos, depois da conclusão da licenciatura, o que significa que “um médico especialista se faz em quase 11 anos”, realça.

 Nova unidade hospitalar vai dispor de centro cirúrgico

Para o novo hospital funcionar em pleno, uma vez que se exige um outro estatuto orgânico, a ser remetido ao Conselho de Ministros antes de 31 deste mês, a direcção-geral projecta o enquadramento de mais 100 médicos internos e especialistas e um total de 123 enfermeiros, entre técnicos superiores e médios.
Esse propósito, disse Rodrigues Leonardo, é um dos grandes desafios para que se correspondam às expectativas em torno do novo hospital, que será erguido no mesmo quintal do actual Sanatório. "Temos de ter os quadros, no sentido de que trabalhem nas novas áreas, tão logo o edifício entre em funcionamento".
O director-geral, que apelou os médicos a continuarem a apostar na formação, referiu que o novo hospital vai ter um centro cirúrgico, para tratar todos os doentes com problemas pulmonares como tuberculose, cancro, fungos, entre outras infecções.
Além disso, outro desafio com o novo hospital tem a ver com serviços de co-infectados TB-VIH, de pediatria para doentes com multi-droga de tuberculose resistente, e dois serviços de cuidados intensivos, sendo um para doenças pulmonares normais e outro para infectados pela tuberculose e de pneumologia.
No que se refere à alimentação, a unidade oferece três refeições ao dia aos internados, mas Rodrigues Leonardo avança que a direcção pretende encontrar um modelo diferente ao que existe, que ainda se baseia na compra de produtos alimentares e serem confeccionados na cozinha da unidade clínica. A ideia é, até 31 deste mês, ter-se uma empresa gastronomia eficiente, para o hospital.

Tempo

Multimédia