Sociedade

Pandemia transtorna Angola há seis meses

José Meireles

Completam-se hoje, 21 de Setembro, seis meses desde que foram anunciados, pela voz da ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, os dois primeiros casos positivos da pandemia da Covid-19 em Angola, importados por cidadãos nacionais residentes em Luanda, provenientes de Lisboa (Portugal), em Março.

Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, Pedro Sebastião faz o balanço dos primeiros oito dias do estado de emergência
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Nessa altura, o pânico e o receio apossaram-se das pessoas, enquanto as autoridades sanitárias iam apelando à calma e incentivando a população a observar as medidas de prevenção individual e colectiva, para evitar a propagação da doença, numa altura em que havia ainda muitas incertezas a nível mundial sobre os protocolos, em matéria de tratamento dos casos positivos.

Muito antes dos primeiros casos positivos da Covid-19 terem aportado em Luanda, as autoridades sanitárias, bem como o Mais Alto Mandatário da Nação, já haviam, em diversas ocasiões, manifestado atitudes humildes, ao reconhecerem as fragilidades do nosso Sistema Nacional de Saúde. Para o efeito, e de forma antecipada, foram efectuados investimentos de vulto, como a construção de um Hospital de Campanha, na Zona Económica Especial, em Viana, com capacidade para mil camas.

A Sonangol encarregou-se de erguer uma unidade especializada, no Quilómetro 27, também em Viana. Inicialmente vocacionado para acolher pacientes em quarentena institucional, o centro do Ramiros, na Barra do Kwanza, passou depois para unidade de referência no tratamento da doença, juntando-se também os de Calumbo I e II, em Viana, só a nível de Luanda, enquanto no resto do país investimentos do género foram sendo também feitos.

A par dos investimentos em infra-estruturas, o Governo angolano colocou em marcha a aquisição de equipamentos hospitalares, com destaque para Laboratórios de Biologia Molecular (TR-PCR), em Luanda, com capacidade para processar seis mil amostras. 

Ainda em Luanda, foram renovados os equipamentos no Instituto Nacional de Investigação em Saúde, enquanto nas províncias de Cabinda, Zaire, Lunda-Norte e Huambo estão a ser instaladas réplicas de laboratórios de Biologia Molecular, cuja novidade recai para a presença de um angolano, que lidera a equipa vinda da China, para erguer as referidas instalações.

Em matéria de investimentos, foram também adquiridos pelo menos 700 ventiladores, material de biossegurança e medicamentos essenciais, num processo acompanhado com a formação de técnicos de saúde, em Luanda e no resto do país.

Estado de Emergência

Durante o período em que a doença começou a transtornar o país e o mundo, a Comunicação Social angolana foi chamada a reorganizar a sua programação, com a inserção de conteúdos informativos sobre as formas de contágio, as consequências para as famílias, economia nacional e mundial, ao mesmo tempo que especialistas iam elucidando a população.

Com a chegada da doença, que obrigou a que todos os países do mundo encerrassem as fronteiras a-éreas, terrestres e marítimas, as autoridades angolanas permitiram a realização de voos humanitários, para o repatriamento de milhares de concidadãos retidos em países da Europa, África e América.

Depois de alguma confusão na recepção dos passageiros, que, inicialmente, deviam cumprir quarentena institucional obrigatória, muitos foram para casa e, sem medir as consequências, abdicaram do cumprimento das recomendações, e “deram-se ao luxo” de mentir às autoridades sanitárias sobre os endereços e contactos telefónicos.

O Presidente da República, João Lourenço, ouvindo os conselheiros e a Assembleia Nacional, decretou, a 15 de Março, o Estado de Emergência, com a duração de 15 dias, prorrogando-o, depois, para mais 15, até 9 de Abril, e, posteriormente, mais outros 15, até finais desse mês. Em Maio, foi decretado o Estado de Calamidade Pública, que se mantém até hoje.

O Estado de Emergência teve como propósito fazer com que o maior número possível de pessoas, com destaque para mulheres com filhos menores de sete anos, cidadãos em situação de risco de saúde, ficassem confinadas, ao mesmo tempo que a população foi sendo exortada a permanecer em casa e só sair em caso de necessidade extrema.

As primeiras mortes

O 28 de Março ficou marcado pelas duas primeiras mortes por Covid-19 no país. Não resistiram à doença dois ho-mens, com 37 e 59 anos, então residentes em Luanda. Ambos chegaram de Lisboa, nos dias 12 e 13, respectivamente, nos primeiros voos humanitários de repatriamento de angolanos retidos em Portugal, e receberam assistência em clínicas privadas de referência em Luanda.

Durante os meses de confinamento, a comunicação social foi reportando casos de violação do Estado de Emergência, por pastores e fiéis de igrejas, afronta às Forças de Defesa e Segurança, violação da cerca sanitária, por pessoas de vários estratos, incluindo altas figuras do Estado e da Magistratura Judicial.

Entre Junho e Julho, en-quanto os números de contágios e de mortes cresciam ex- ponencialmente - nessa altura já estavam contabilizados 880 casos e 35 mortes - paradoxalmente, assistia-se a um “boom” no ajuntamento de pessoas nas ruas e mercados. Foi decretado o uso obrigatório de máscara facial nos transportes públicos, na rua e em locais fechados.

Na comunicação à Nação, proferida a 17 de Julho, o Presidente da República, João Lourenço, chamou a atenção da população para levar “muito a sério” a realidade da circulação comunitária no país e tomar medidas que evitem a propagação da doença. Para João Lourenço, “pior do que não usar a máscara, é usá-la incorrectamente, porque enganamos a nós próprios, enganamos quem nos rodeia, enganamos as estatísticas da Saúde Pública. Lembre-se, a nossa salvação individual e colectiva está na nossa auto-disciplina, está na prevenção. Cuide-se, cuide de quem nos rodeia”, apelou.

Como resultado da teimosia e ignorância de muitos, as autoridades sanitárias impuseram a cerca sanitária a Luanda, que dura há seis meses, situação que depois se alastrou para o município do Cazengo (Cuanza-Norte), entretanto já levantada. Hoje, os casos de Covid-19 contam-se em quase todo o país, à excepção das províncias do Namibe e Cuando Cubango.

Seis meses depois, são assustadores os números da doença no país. Até ontem, havia 152 mortos e 3.991 casos, tendo recuperado 1.445 pacientes, situação que está a preocupar o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC), devido ao crescente número de fatalidades, comparativamente ao resto do continente.

Embora a África CDC tenha revelado ser “prematura qualquer avaliação à mortalidade elevada em Angola”, associada à Covid-19, não deixa de ser preocupante a situação, tendo em conta que a média global da doença é 3.2 por cento e em África 2.4 por cento. Angola, com o registo de 4 por cento de taxa de mortalidade, tem das mais altas do continente (incluindo Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), apenas superada pela República Saharaui, com 8 por cento, Chade, 7 por cento, Libéria, Nigéria, Egipto e Mali, todos acima de 5 por cento.

Entretanto, como ocorre um pouco por todo o Mundo, Angola abre-se, aos poucos. Na segunda-feira, ficou confirmada a retoma de voos domésticos, tendo Cabinda sido o destino do primeiro avião nesta era pandêmica. As fronteiras internacionais abrem-se, igualmente, a partir de hoje, com ligações a Portugal, França (a partir de 24) e Emirados Árabes Unidos (de 1 de Outubro).

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