Sociedade

Passageiros querem melhores condições nas viagens de autocarro

A cada manhã, ou ao final do dia, milhares de trabalhadores e estudantes sem meio de transporte próprio enfrentam um clima de “angústia” nas paragens de autocarros, comboios e táxis.

Os autocarros têm números determinados para os passageiros sentarem e de pé, mas os meios circulam pela cidade quase sempre suporlotados
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

É nesses pontos da cidade capital onde começa a dura e agitada jornada, circulando em transportes lotados, escassos e, em muitos casos até, em mau estado técnico.
O serviço de transportes colectivos em Luanda é feito maioritariamente por meio de autocarros e comboios, que levam milhares de passageiros que se adaptam à condições extremas.
Há mais de cinco anos, o mercado dos transportes públicos urbanos vem sendo servido pelas operadoras MACON, TURA, SGO, ANGOSTRAL e TCUL.
Dessas empresas, apenas a TCUL é pública e, como tal, sente a maior pressão dos passageiros, que exigem melhorias substanciais nos serviços prestados.
Tem uma frota superior a 300 veículos. Em Julho de 2017, reforçou a sua frota com 240 novos veículos, entregues pelo Ministério dos Transportes, dos quais 14 destinados para serviço urbano, 40 mini-autocarros para serviço urbano local, 30 para serviço de aluguer e 2 para carreira inter provincial.
Com a entrada em funcionamento desses 240 novos veículos, a TCUL previa transportar pelo menos 192 mil passageiros/dia, perfazendo uma média mensal de cinco mil e 760 passageiros, num total de 69 milhões, 92 mil e 199 passageiros/ano.
Apesar de grande parte dos passageiros circular pelos serviços de transportes públicos, os táxis têm sido uma grande alternativa para os cidadãos trabalhadores e estudantes.
Todavia, apesar da sua componente privada, oferecem os mesmos constrangimentos enfrentados nos autocarros e comboios, em serviço na cidade de Luanda.
“Posso dizer que 80 porcento do estado técnico das viaturas é precário. Alguns autocarros não têm higiene a 100 porcento, nem o acento completo. Na maior parte, as portas não fecham por si completamente”, lamenta o passageiro Hamilton Morais.
Às manhãs e às tardes, milhares de passageiros tomam de assalto as paragens de autocarros, comboios e táxis, com destinos e compromissos distintos.
Mas nessa encruzilhada, um problema continua a afectá-los em comum: a superlotação. “Os meios de transportes públicos em Luanda têm muita enchente. Os cobradores pretendem lotar ao máximo os meios... Os transportes públicos não têm qualidade”, comenta o utente Adelino Cassonga.
O mesmo ponto de vista, tem a passageira Zinha Madureira, que aponta a superlotação como um problema a ser levado mais a sério pelas autoridades do país.
“É verdade! O autocarro está sempre cheio, as estradas não estão boas. O problema que está aqui do autocarro é este: fica muito cheio. O Governo tem que colocar mais autocarros na estrada”, desabafa. A vida dos passageiros de autocarros, comboios e táxis é um autêntico bico-de-obra. O martírio começa na fila de espera, situação que leva os passageiros à frustração e saturação.
“Há um número estipulado para as pessoas sentar e algumas de pé, mas eles superlotam. Numa viagem que fazemos do Largo das Escolas até Luanda Sul é um “deus nos acuda”, lamenta Hamilton Morais.
Na mesma senda, Elizandro Monteiro lamenta a situação por que passam diariamente. “Fica muito cheio e não tem espaço para todos, mas apertamo-nos mesmo assim”.

Concórdia no interior

No meio de tantas críticas e reparos, os passageiros apontam um aspecto que consideram positivo nos serviços de transportes colectivos em Luanda.
Apesar do “número reduzido de autocarros”, não ficam mais do que uma hora nas paragens à espera.
Hamilton Morais assegura que o tempo de espera varia de 15 a 30 minutos, ou uma hora, no máximo. A viagem de autocarro custa 50 kwanzas e a de táxi, vulgo candongueiro, 150. Assim, os autocarros têm sido os meios mais procurados por quem deseja deslocar-se de um lugar para outro. Os passageiros estão cientes da importância desses meios para a sua mobilidade, durante o dia e à noite. Por esse facto, pedem maior reflexão sobre os preços praticados pelas operadoras.
“Os autocarros ajudam. O preço do táxi é 150 e do autocarro 50 kwanzas. Há pessoas que não têm possibilidades de apanhar táxis toda a hora e optam pelo autocarro”, expressa Zinha Madureira.
Os transportes públicos, em Luanda, são um ponto de encontros e trocas de ideias. Apesar das limitações, aproximam os passageiros e selam algumas amizades.
“Sim, nos transportes públicos, cada pessoa sobe com conversas próprias”, refere a utente Adelino Cassonga, posição partilhada por Mauro Arsénio, não deixou de referir-se alguns maus comportamentos.
“Há pessoas que não respeitam as outras. Chegam, falam do jeito que querem, em voz alta, sem se importar com ninguém”, lamenta o cidadão.
A nível dos serviços de táxis, o cenário é o mesmo, segundo o taxista António Guanxi. “No meu táxi, há muitas conversas sobre o quotidiano”, comenta.

Por causa da superlotação as viagens deviam ser mais lentas

A viagem nos autocarros é feita de baixo de muitos perigos. A integridade física dos passageiros é quase sempre posta em causa.
Fredy Alves afirma que devido ao excesso de lotação, os autocarros deviam circular de forma mais lenta, mas aqui observamos o contrário: os motoristas aceleram mais e fazem ultrapassagens perigosas. De acordo com a passageira Zinha Madureira, o ambiente no interior dos autocarros e comboios fica comprometido pelo excesso de lotação, daí o calor e mau cheiro, resultante de más condições higiénicas de algumas, sufocar os passageiros.
Para quem não tem outra alternativa, a solução é aguentar-se de pé, apoiado na barra.
Tem sido assim, com a passageira Zinha Madureira, que sugere o aumento de autocarros em Luanda, para diminuir à pressão e o sacrifício dos passageiros.
“Se aumentassem o número de autocarros, o excesso de lotação poderia diminuir. Há muita gente nos autocarros”, expressa.
Além da superlotação, um outro problema compromete a vida dos passageiros de autocarros em Luanda: a falta de bancos nas paragens.
Hamilton Morais, passageiro regular de autocarros, lamenta as condições precárias que encontra nas paragens, sempre que busca pelos serviços das operadoras.
“As paragens não estão sempre em boas condições. Não há um lugar para nós nos abrigarmos do sol, da chuva. Não temos um sítio apropriado para sentar. Onde nós sentamos há sempre senhoras a vender, a fazer muita lixeira. Estamos num lugar precário... mas temos mesmo que esperar”, desabafa.

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