Sociedade

População e artistas homenageiam a fonte de inspiração

Luanda, a bela e misteriosa capital de Angola, comemorou ontem 444 anos em meio ao alheamento quase geral dos seus quase sete milhões de habitantes, que poderiam ter na forte chuva que caiu sobre parte da cidade uma bênção mas que, infelizmente, apenas vem destapar os muitos problemas que enfrenta.

Fotografia: DR

A cidade continua a ser uma fonte inesgotável de inspiração para os fazedores de arte e cultura e despertou bem cedo, como todos os dias. Só que ontem vestiu-se de gala para lhe brindar a devida homenagem, indiferente às adversidades e às (não) comemorações oficiais, porque ao contrário do que acontece no resto do país, Luanda não goza o seu feriado provincial como compete e merece, numa atitude discriminatória que passa pela confusão em que se tornou a sua divisão administrativa.
Artistas, unidos ou individualmente, deram as mãos e mostraram o quanto está viva a cultura nacional, num movimento pouco visto entre nós, com uma série de actividades que perpassaram por todas as formas de expressão da arte.
De manhã, bem cedo, a fila já ia longa na portaria da Rádio Luanda para o “Sons da Banda” um programa ao vivo da Rádio Luanda que esgotou o auditório Rui de Carvalho com a popular banda de música angolana, os Jovens do Prenda. Durante mais de quatro horas quem assistiu ao vivo ou quem acompanhou pelas antenas da estação emissora não deu pelo passar do tempo, viajando no imaginário ou na recordação de épocas em que a música era também ela um sinal de afirmação de uma angolanidade que se projectava sob as vestes coloniais.
E se com música popular começou, com som terminou com o primeiro concerto de música instrumental urbana angolana na Baía, o principal cartão postal de Luanda. Nomes sonantes de bandas musicais da capital despiram o mito elitizado do Clube Naval e levaram os sons e ritmos à entrada da ilha, apoiados por algumas vozes ou menos conhecidas do music hall nacional.
A Baía já tinha sido palco, esta semana, de um espectáculo musical com a Banda Movimento da RNA, enquadrado no “Kaluanda Fest” desenhado para saudar o aniversário da Cidade da Kianda e quase deixando o recado que iniciativas semelhantes podem e devem ser investigadas ao longo do ano, principalmente na passagem de Ano para que os luandenses não se desloquem quilómetros apenas para ver a queima de fogo de artifício e não terem qualquer diversão gratuita proporcionada por quem tem a responsabilidade de servir os cidadãos.
Teatro, cinema, venda de livros, oficinas de dança e artes constam num vasto programa de comemorações, sob o menu de “Kaluanda Food & Taste”, que não se esgota no calulú ou no caldo mas estende-se para a gastronomia de outras regiões do país.
Os diversos promotores aproveitaram o facto da capital ser agraciada com três marginais: a renovada 4 de Fevereiro, a Nova da Praia do Bispo e a esquecida baía da Rotunda e levaram a animação às duas primeiras com uma multiplicidade de actividades, onde não faltou o kuduru, o próprio ritmo nacional que ganhou fronteiras e quase perde a titularidade.
Quatro gerações de artistas plásticos expuseram as suas obras numa finissage num dos pontos mais altos da capital, situado nos Edifícios SKY, ao Kinaxixi., enquanto o fotógrafo Ngoi Salucombo mostrava as imagens que coleccionou para assinalar a “Boda no meu Kubiko”.
No Espaço cultural Elinga é possível ver-se, em tela, parte da história da cidade com a exposição de 20 edifícios emblemáticos reunidos nos “Traços de Luanda”, uma mistura entre técnica representativa e arte atrás de gráfica arquitectural, que pretende ser uma proposta de reflexão sobre o património histórico da cidade, promovendo a sua valorização e protecção.
A Associação Chá de Caxinde, que vai assinalar 31 anos na próxima semana, não quis deixar em branco a ocasião do aniversário da Kianda e está a desenvolver um vasto leque de actividades que iniciaram com a exposição fotográfica “Loanda a Luanda” que retrata o processo evolutivo da capital, desde o início da constituição da cidade até à actualidade sobre lugares e as suas gentes.
O grupo carnavalesco Unidos do Caxinde, apenas com o núcleo principal da corte, reapareceu depois de uma ausência forçada pelas incompreensões calcificadas de quem se acha dono da sabedoria da cultura nacional, para quem o tempo parou há muito não admitindo evoluções próprias da civilização.
E assim Luanda assinala os seus 444 anos ainda sem saber se daqui a um ano quem comemora o quê: Luanda província, Luanda distrito ou Luanda cidade? Do outro lado do Atlântico, a sua “Irmã” S. Paulo, com os seus quase treze milhões de habitantes, segue indiferente às makas deste nosso kubico comemorando efusiva e massivamente o seu aniversário.

 

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