Sociedade

Problemas sem fim à vista no bairro Quilómetro 9A

André da Costa

Os moradores do Quilómetro 9A, Distrito Urbano da Estalagem, município de Viana, província de Luanda, estão agastados com a administração do município de Viana por até hoje não verem melhorado o saneamento básico, um problema que podia ser solucionado com a construção de valas de drenagem.

Moradores do Quilómetro 9A querem ver melhorado o saneamento básico, um problema que podia ser solucionado com a construção de valas de drenagem
Fotografia: André da Costa | Edições Novembro

O bairro recebe água potável, mas o abastecimento é ainda deficiente por não chegar a todas as casas. A falta de pavimentação das ruas é mais um problema constante do plano de necessidades do bairro, do qual sobressai a urgência na construção de escolas e hospitais, por não haver esses equipamentos sociais. Aliás, o bairro já dispôs de uma escola e de um posto de Saúde, que estavam numa área anteriormente adstrita ao distrito urbano da Estalagem e agora pertencente ao Município de Kilamba Kiaxi, na sequência da última divisão político-administrativa.
A vida complica-se quan-do chove. Moradores abandonam o bairro devido as inundações de moradias, por não haver valas de drenagem. A presidente da comissão de moradores, Filomena Van-Dúnem, disse ao Jornal de Angola que o problema é do conhecimento da Administração Municipal de Viana. O Quilómetro 9A tem 400 mil habitantes e uma área de seis mil quilómetros quadrados.  Há cerca de dois meses, na sequência da chuva que caiu em Viana, alguns moradores foram forçados pelas inundações a abandonar o bairro, ficando em casas de parentes. Alguns regressaram ao bairro 30 dias depois, por não quererem continuar a ser um "fardo permanente" para os familiares que os acolheram. Mais de 70 moradias foram abandonadas pelos seus proprietários.
"É sempre assim quando chove", lamenta Andelson Quintas, de 23 anos, 16 dos quais vividos no Quilómetro 9A. A época chuvosa traz “um grande sofrimento”aos moradores. As ruas ficam todas engolidas pela água. A solução para sair do bairro é o recurso à utilização de  botas de chuva ou de sacos de plástico, com os quais cobrem os pés.
“Muitas casas continuam abandonadas”, informa Andelson Quintas, que disse ser um desejo antigo da população a construção de valas de drenagem para o escoamento das águas pluviais.
  Filomena Van-Dúnem, moradora do Quilómetro 9A há 30 anos, disse acreditar que, havendo valas de drenagem, o sofrimento da população ficaria reduzido.
O trabalho de sucção da água ocupa a maior parte do tempo dos moradores, no interior de moradias e na via pública. À saída do bairro, é a grande  dificuldade em caminhar até à estrada principal. No regresso, a preocupação mantém-se.
Os moradores abordados pelo Jornal de Angola partilham a ideia de abertura de uma vala de drenagem semelhante à vala do Cariango, existente desde o período colonial.
As inundações são registadas anualmente e até hoje não foram encontradas soluções para o fim de um problema que causa grandes constrangimentos à população.
"O que faço diante de tanto sofrimento?", interroga-se a moradora Florinda António, para depois dizer: "Nós, os pobres, não temos para onde ir nem dinheiro para comprar um terreno num sítio com melhores condições."
Florinda António deseja, como muitos outros moradores, abandonar o bairro, mas as dificuldades financeiras por que  passa não lhe permite arrendar sequer uma moradia num outro bairro do distrito urbano da Estalagem, uma ideia já realizada por alguns vizinhos.
O bairro Quilómetro 9A fica inundado porque a água pluvial proveniente da área onde se encontra a Cadeia de Viana não encontra saída para continuar o seu curso normal. O bairro foi erguido num terreno pantanoso, o que aumenta ainda mais o problema.
A falta de saneamento básico tem sido fonte de surgimento de doenças, principalmente na época das chuvas, em cujo período as crianças são propensas à traquinice. Um riacho resultante das inundações tem sido utilizado por algumas crianças do bairro para tomarem banho como se estivessem numa praia fluvial ou marítima.
Intervenção presidencial
A coordenadora da Comissão de Moradores afirma que, antes de 2014, as inundações não eram intensas e lamenta que o Governo Provincial de Luanda tenha solucionado apenas o problema causado pelas cheias da Lagoa do Coelho, uma bacia de retenção de águas pluviais, e deixado a população do Quilómetro 9A em sofrimento.
Filomena Van-Dúnem disse ter sido já encaminhada uma proposta à Administração do Município de Viana para a construção de uma vala de drenagem a partir da Lagoa do Coelho. “Até hoje nada foi feito, deixando mais de duas mil famílias numa situação dramática”, adianta Filomena Van-Dúnem, que disse ter sido também solicitado, em carta, a intervenção  do Presidente da República, devido ao risco de vida que enfrentam muitas famílias  quando chove.
“Queremos uma vala idêntica à vala do Cariango”, acentua a coordenadora da comissão de moradores do Quilómetro 9A. A administração do distrito urbano da Estalagem vai entregar à comissão de moradores duas motobombas para ajudar na retirada das águas pluviais no período chuvoso. O número de motobombas é insuficiente.
“Não vai resolver o problema do bairro", afirma Filomena Van-Dúnem que, quando lhe foi perguntado sobre os apoios concedidos pela administrações distrital e municipal, evitou falar com o argumento de que “sempre que falo em defesa da minha comunidade, fico prejudicada porque me interpretam mal".
Filomena Van-Dúnem garante que vai continuar a defender a sua comunidade porque ela “sofre muito no período das chuvas”. O Quilometro 9A começa na Rua dos Quartéis e vai até uma parte do Calemba 2, ocupando seis mil quilómetros quadrados.

  Uma verdadeira mãe da comunidade

Filomena Van-Dúnem  é , para muitos moradores, uma verdadeira mãe da comunidade. Ajuda a solucionar vários casos incluindo os de viúvas de antigos combatentes. Às vezes, é chamada a resolver conflitos entre casais. “Se o caso estiver ao meu alcance, resolvo e, se não estiver, encaminho às autoridades competentes”, explica Filomena Van-Dúnem.
O Quilómetro 9A precisa de 23 mil ligações domiciliárias de água, um assunto que tira o sono a Filomena Van-Dúnem, por muitos  moradores estarem ainda privados do abastecimento. A delinquência é outro problema que a preocupa.
Algumas moradias abandonadas foram assaltadas. Há assaltos que acontecem à luz do dia, porque os marginais sabem que dificilmente há patrulhamento. Maria André, disse ao Jornal de Angola ter ficado sem a botija de gás de cozinha, roubada em plena luz do dia, numa altura em que estava na “zunga”.
“Consegui a botija com muito sacrifício”, disse, com tristeza, a "zungueira", que atirou a culpa à Polícia pelo fraco policiamento da área em que vive.
Os grupos de marginais são compostos por crianças e adultos. O papel das crianças é de vigiar quando os adultos realizam assaltos na via pública e em moradias.
Este é o "modus operandi" dos marginais, esclarece a moradora Suzete João.     
“Aqui, a pessoa pode ser  assaltada da meia-noite à cinco horas da manhã e ninguém aparece em sua defesa por não haver patrulhamento”, lamenta Suzete João, de 48 anos.
À noite os moradores circulam com cautela e alguns só saem à rua quando há situação de emergência. Fuca Baimuca,   de 34 anos, e grande conhecedor do bairro, explica que o Quilómetro 9A começou a ser habitado por agentes da Polícia e por militares das Forças Armadas Angolanas (FAA), muitos dos quais abandonaram a localidade por causa das inundações.

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