Sociedade

Psicólogos voluntários dão consulta via telefone

Nilza Massango

A Linha de Apoio Psicológico já é uma realidade no país. O projecto de voluntariado assiste, desde o mês passado, todas as pessoas que, por via telefónica, buscam ajuda psicológica, informou ontem, ao Jornal de Angola, a mentora do projecto.

Fotografia: DR

A psicóloga Paula Araújo explica que, a Linha de Apoio Psicológico não substitui a consulta particular presencial. O serviço, de acordo com a especialista, dá oportunidade às pessoas de poderem desabafar ou apresentar todas as dúvidas do fórum psicológico, que tiverem. “Quando necessário, orientamos as pessoas no sentido de procurarem os serviços de psicologia que o país oferece”, disse.

Nas duas primeiras semanas de atendimento, através dos contactos telefónicos disponíveis, o grupo de psicólogos voluntários registou 15 chamadas de pessoas, sobretudo mulheres, que expuseram os seus problemas pessoais e familiares, e contaram várias experiências traumáticas.
A maioria das mulheres é solteira, cujas idades vão dos 20 aos 35 anos. A primeira a receber assistência, através da Linha de Apoio Psicológico, reside em Luanda. Durante a consulta, os psicólogos em serviço solicitam alguns dados pessoais dos pacientes que, no entanto, não são obrigados a dar. O grupo dá grande importância ao sigilo e à confidencialidade das informações obtidas.

Segundo a mentora do projecto, Paula Araújo, o aconselhamento que se dá, via telefónica, é gratuito, todos os dias, das 8h00 às 20h00. “Esteja onde estiver, qualquer indivíduo que necessite de ajuda pode ligar nos horários estabelecidos”, disse, para acrescentar que o tempo máximo de cada chamada é de 20 minutos, mas com a possibilidade de o utente remarcar a consulta para outros dias.

O objectivo, de acordo com a psicóloga da saúde, é ajudar todos os que necessitam de apoio, no que diz respeito à saúde mental, principalmente nesta fase da pandemia de Covid-19, em que muitos males podem ocorrer na mente de uma pessoa. Paula Araújo conta que, até agora, o grupo não recebeu nenhuma ligação de indivíduos que quisessem tirar as próprias vidas.

“Mas o grupo está preparado. Muitos utentes, quando ligaram para nós estavam tristes e, nalguns casos desesperados e ansiosos, e nós conseguimos mudar o quadro”, disse, sublinhando que a maioria dos utentes demonstra um nível alto de ansiedade, quando ligam para a Linha de Apoio Psicológico.

Um dos voluntários do grupo, João Caratão, é formado em Psicologia Clínica e trabalha há mais de 12 anos no Hospital Geral de Benguela. O profissional explica que nas primeiras semanas de atendimento, alguns utentes que solicitaram aconselhamento psicológico, apresentaram vários problemas de ansiedade, entre outras situações.

“As chamadas têm estado dentro do contexto do apoio psicológico. Contávamos que estivessem mais relacionadas com a pandemia da Covid-19 ou com assuntos relacionados às medidas de prevenção impostas. Mas, na realidade, os assuntos têm sido de carácter variado”, adiantou João Caratão.

Do atendimento ao aconselhamento

“Saúde mental em linha. Estamos a falar com…, em que posso ajudar?”. O utente é avisado de que a chamada será gravada e, se o mesmo estiver de acordo, é-lhe solicitado os dados pessoais. A maior parte das pessoas liga apenas uma vez. Os que necessitam de consulta presencial são encaminhados para as entidades públicas de referência, que ficam mais próximas dos seus locais de residência.

“Para esse tipo de situações, o grupo de apoio fornece os respectivos contactos. Há certos tipos de perturbações que não podem ser atendidas via telefónica”, explica Paula Araújo.

A assistência dada, segundo João Caratão passa, primeiro, pela partilha de informações, onde o foco é a transmissão de dados, com base em fontes credíveis, como do Ministério da Saúde, Direcção Nacional da Saúde Pública e Organização Mundial da Saúde, sobre a Covid-19, para promover a adopção de comportamentos mais responsáveis.

Depois disso, acrescenta o especialista, segue a fase onde os psicólogos desenvolvem um diálogo mais acolhedor, usando técnicas que promovem o equilíbrio mental e emocional dos que buscam ajuda, e por fim vem a orientação, com base nas análises da conversa estabelecida com os utentes.

Em tempo da pandemia

Os psicólogos alertam que nesta altura, por causa da Pandemia podem surgir várias preocupações ligadas à ansiedade e à depressão, problemas familiares, entre outros. Aconselham que é importante adaptar-se à nova realidade, novos comportamentos e hábitos. Mas, para os que não conseguem fazê-lo, devem procurar a nossa ajuda”.

“Existe uma noção errada do serviço de psicologia no país. O apoio psicológico serve para atender as situações simples e complexas, pessoais e familiares. O ideal é que as pessoas nos contactem, quando têm algum problema que não conseguem resolver sozinhas”, sublinha.

Como tudo começou?

O projecto começou em Março, com um grupo de amigos formados na área de Psicologia, que em conversa “online” sobre a pandemia da Covid-19 e o impacto psicológico da mesma, concordaram que seria importante encontrar uma maneira de apoiar as pessoas mais afectadas que, necessitando de apoio, não tinham como fazê-lo a partir de casa.

O grupo, constituído por 27 psicólogos, entre angolanos e portugueses residentes em Angola e Portugal, acredita que numa sociedade como a nossa, que teve muitos anos de guerra civil, em que os traumas, medos e angústias persistem, com esta pandemia a situação só podia agravar-se ainda mais, daí a obrigação de prestar um serviço público.

A maioria deles actua em Luanda, mas começa a aumentar a representação nas províncias de Benguela e da Huíla. O objectivo é expandir os serviços para outras localidades provinciais. Todos os dias, dentro do horário de atendimento, cada psicólogo cria condições para estar disponível, com o seu telefone e num local apropriado para atender os utentes, sem interrupções.

O grupo de psicólogos tem estado a organizar-se no desenvolvimento de projectos que vão para além do atendimento via telemóvel. Para já, é um grupo de voluntários, mas o processo de constituição de uma Associação, está em curso. Tem muitas ideias e projectos para o futuro.

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