Sociedade

Queda da Ponte do Kambamba dá lugar à cobrança na circulação

Mazarino da Cunha |

“Niloi e Batamá deixam passar àquelas mamãs. O papá de pasta preta vai contribuir com o que tiver para garantir o almoço...”, apregoa Osvaldo de Almeida a um colega, que está em pé numa das extremidades da ponte do Kambamba, que liga o Distrito Urbano da Maianga e o município do Kilamba Kiaxi, em Luanda.

Jovens oportunistas aproveitaram-se da queda da ponte do Catinton para infernizar a população com cobranças anárquicas
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

Os jovens colocaram três paus para permitir a passagem de pessoas de uma margem para outra. A vala de drenagem aí existente separa as duas zonas. Osvaldo de Almeida, aparentemente na casa dos 20 anos, desempregado, em companhia de mais cinco jovens encontram-se, há mais de 10 dias, junto à ponte do Kambamba, o local onde tem sido a fonte de rendimento. As últimas chuvas que caíram sobre Luanda romperam a estrutura de betão, dificultando a travessia de uma margem para outra. A reportagem do Jornal de Angola constatou que os seis jovens cobravam pela travessia 50 kwanzas a cada pessoa que pretendia transpor de uma margem para a outra, passando pela ponte improvisada feita por estes.
“Temos contribuído de forma que as pessoas possam ir ao serviço, por isso encontramos esta alternativa, caso contrário seria quase impossível. É daqui que também ganhamos o nosso pão, porque todo serviço prestado tem uma compensação....”, diz o jovem Osvaldo, o representante do grupo.  Explica que as pessoas não são obrigadas a pagar os 50 kwanzas, mas boa parte destes que fazem a travessia “dá-nos alguma coisa pelo facto de reconhecerem o nosso esforço”. “Procuram estimular a nossa criatividade, por termos encontrado uma alternativa sem a participação das administrações distrital e municipal”. Para provar que a contribuição financeira não era obrigatória, Osvaldo de Almeida orientou os colegas a não cobrarem as mamãs que vinham de uma actividade religiosa. “Aqui não se ganha quase nada, mas o razoável”, conta o jovem, que preferiu não dizer o quanto arrecadam por dia....”Apenas uns trocadinhos que dá para comprar uma chandula”, conta, lançando sorrisos. As vendedoras do mercado Catinton corriam sérios riscos, uma das razões que motivou os jovens a colocar no local a ponte improvisada para permitir a circulação entre a ponte do Kambamba, que liga o Distrito Urbano da Maianga, e o município do Kilamba Kiaxi, separadas pela vala de drenagem. “Se por um lado há necessidade de conseguirmos algum dinheiro em função da ponte feita por nós, por outro estamos a permitir, de forma segura, a circulação das pessoas que vendem no Catinton e de outros que fazem o uso desta via para ir ao serviço e não só”, afirmou Osvaldo de Almeida.
Enquanto o Jornal de An-gola mantinha conversa com o responsável do grupo, os restantes jovens amealhavam algum dinheiro, demonstrando o ar de satisfação de que o dia estava a correr as mil maravilhas. Muita gente na altura passava pela ponte improvisada. Era difícil contabilizar...
No local demo-nos com pessoas de vários estratos sociais, uns apressados, outros nem por isso. É o caso de Ma-riana Calandula que, a passo lento, acedeu falar para a re-portagem do Jornal de An-gola. Disse ser moradora do Rocha Pinto e lamentou o estado da ponte que, segundo ela, deve-se à falta de intervenção regular. A enorme quantidade de resíduos sólidos, causado pela ausência de contentores de lixo ao longo da vala de drenagem, foi apontada, pela moradora, como a principal causa do rompimento da ponte de estrutura de betão. Das várias reclamações enviadas ao GPL, frisou Ma-riana Calandula, nenhuma foi tida em consideração, situação que provocou o desabamento da ponte e daí o surgimento dos jovens “oportunistas” para facturarem.Mariana Calandula en-tende ser necessário que se faça uma intervenção profunda e urgente, a colocação de contentores ao longo das duas margens da vala de drenagem para se evitar a quantidade de lixo que aí se regista e que ajuda na degradação da ponte. Além da reposição urgente da ponte, os moradores do Rocha Pinto clamam também pela melhoria das vias no in-terior do distrito e a construção de escolas públicas e unidades policiais.

Governo Provincial
O director provincial do Gabinete Técnico e Infra-estruturas de Luanda, Mauro Lucas, disse ao Jornal de Angola que ainda não estão definidos os procedimentos técnicos e administrativos para dar início à reabilitação da ponte. O responsável prometeu, nos próximos dias, pronunciar-se sobre o caso com mais dados e disse que, por se tratar de uma ponte que une os mu-nicípios do Kilamba Kiaxi e Luanda, é necessário analisar com serenidade as modalidades da reconstrução.

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