Sociedade

Ravinas isolam localidades do Uíge

Valter Gomes | Milunga

Há mais de cinco meses que as populações de Massau e Macolo vivem isoladas das restantes localidades da sede municipal do Milunga, na província do Uíge. A única via de acesso às duas localidades comunais está muito degradada, impossibilitando a circulação automóvel pelo longo percurso.

Fotografia: Mavitidi Mulaza | Edições Novembro

A reportagem do Jornal de Angola constatou no local que o terreno argiloso apresenta ravinas de média e grandes proporções, incontornáveis para os veículos ligeiros. Sem alternativas, as populações de Massau percorrem cerca de 97 quilómetros a pé, para chegar à sede do Município, enquanto os habitantes de Macolo caminham 76 quilómetros, para o mesmo destino. Nem mesmo os motoristas de viaturas todo-o-terreno ou camiões se arriscam a circular no referido troço rodoviário.
A alta frequência das quedas chuvas tende a piorar a situação, pois nos últimos dias não param de cair. A força das águas está na origem dos deslizamentos de terra, que provocam a abertura de novas e perigosíssimas valas ao longo da estrada. A ponte de 20 metros de comprimento e sete de largura, colocada sobre o rio Cuhu, a 12 quilómetros da sede municipal, é motivo de preocupação, pois aparenta estar prestes a desabar, face ao danos visíveis nos maciços e estacas que a sustentam.
Inaugurada em Novembro do ano passado, para facilitar a passagem de pessoas e viaturas em direcção às duas localidades e à República Democrática do Congo, a infra-estrutura necessita de obras de conservação com urgência, segundo o assessor para a área técnica do Administrador de Milunga, Vitorino Mayeto. O especialista explicou que os maciços desabaram e as estacas foram destruídas, como consequência dos assoreamentos arrastados pela força das águas.
“Se não for feita a reposição urgente dos maciços, a ponte pode ser arrastada pelas águas”, alertou. O engenheiro civil refere ainda que a reabilitação definitiva da via dependerá de um estudo cuidadoso das características geofísicas do terreno.
“Os desvios das águas pluviais devem ser devidamente concebidos e os solos para terraplanagem convenientemente preparados, porque essa região possui terras arenosas com condições sísmicas e chuvas constantes, o que provoca erosões de terras e, consequentemente, o surgimento de ravinas de grandes dimensões”, sublinhou.

Nem com recurso à tracção o terreno cede

Ernesto Cabembe partiu da sede municipal de Milunga, tendo como destino a localidade de Macolo. Teve que recorrer várias vezes à tracção da viatura Land Cruiser, durante largo espaço do troço, para superar os obstáculos. Mesmo assim, desistiu da viagem a menos de dois quilómetros da ponte.
“Essa viatura é 4x4, mas depois daqui já não consigo avançar. O melhor mesmo é regressar. É impossível chegar até à ponte. Se insistir, posso tombar numa grande ravina”, concluiu.
O jovem João Teca, que caminhava a pé naquele troço escorregadio e lamacento, em direcção à antiga vila de Santa Cruz, lamenta o estado em que se encontra a via.
“Aqui, sofremos muito e sentimo-nos esquecidos. O Governo deve mandar reabilitar rapidamente esta via. Estamos cansados de andar a pé. A distância é muito longa”, reclamou.
Com um número de habitantes que ronda a metade dos 58 mil residentes no município, as comunas de Massau e Macolo são consideradas zonas estratégicas de produção agrícola, pesca, caça e exploração de madeira.
Fernando Miguel, regedor adjunto de Mafuani, comuna de Macolo, disse que os problemas da via contribuem para o aumento dos níveis de pobreza no seio das populações locais.
“Estamos a produzir grandes quantidades de alimentos, mas acabam por se estragar, por falta de escoamento, para os grandes centros comerciais”, alertou.

Marcha lenta  de Macocola a Milunga

Apenas 36 quilómetros separam a comuna de Macocola à sede municipal de Milunga. Apesar da curta distância, o percurso é feito com muita dificuldade. Mais de uma dezena de ravinas, de dimensões assustadoras, evoluíram ao longo das bermas e ameaçam cortar a estrada. Está iminente o perigo de município ficar isolado do resto da província.
O administrador de Milunga, Abel Benga do Rosário, reconhece que a situação das ravinas no município é cada vez mais preocupante, porque a maioria delas apresenta dimensões que ultrapassam a capacidade técnica e financeira da administração local do Estado.
Abel do Rosário avançou que, a nível local, foi criada uma equipa de técnicos que está a fazer o levantamento de todas as ravinas de média e grandes dimensões. Depois disso, garante o responsável, será elaborado o relatório a ser enviado ao Governo Provincial do Uíge e ao Ministério da Construção e Obras Públicas.
“As ravinas colocam em risco a circulação de pessoas e bens”, começou por dizer o administrador, acrescentando que a reabilitação das vias secundárias e terciárias constituem prioridades da administração local do Estado.
“O objectivo é garantir a circulação condigna de pessoas e bens, facilitar a instalação de serviços de saúde e educação em várias localidades da circunscrição e assegurar o desenvolvimento da região”, disse.
Com uma população estimada em 58 mil habitantes, distribuída em três comunas, Macolo, Massau e Macocola, e 273 aldeias, o município de Milunga localiza-se a 228 quilómetros da cidade do Uíge.

 

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