Sociedade

Renascimento de África esteve em análise na capital do Quénia

Nhuca Júnior

Regina Gunza, a única representante de Angola numa conferência dedicada à discussão sobre o futuro do continente africano, realizada em Mombaça, no Quénia, defendeu, naquela cidade, a existência de um sistema de ensino que seja capaz de preparar o indivíduo para as exigências da vida política, económica e social.

Angolana Regina Gunza (terceira à direita) partilhou ideias sobre o futuro de África com jovens de vários países do continente
Fotografia: Jaimagens

“Nós somos de opinião que a educação de qualidade é o pilar para uma sociedade desenvolvida”, disse Regina Gunza, de 23 anos e licenciada em Jornalismo, que participou com mais 40 jovens de vários países africanos na conferência realizada com o lema “capacitando os jovens para o renascimento africano”.
A conferência, ocorrida de 24 a 28 de Março, discutiu a densidade populacional em África, a urbanização, saúde, educação, emprego e tecnologias de informação e comunicação.
O centro de debate da conferência foi o livro “Tendências dos Jovens 2010-2063”, editado pela Associação Cristã de Jovens (YMCA),  na sigla em inglês, a maior rede juvenil pan-africana constituída por mais de 20 países.
O livro foi editado depois de uma pesquisa feita em 2017, com jovens africanos dos 15 aos 35 anos, e que chegou à conclusão que a educação e o desemprego são as questões cruciais.
“Na minha opinião, a ri-queza mineral não é tudo”, salientou Regina Gunza, para quem a melhor riqueza de uma sociedade não são os seus recursos naturais, mas sim o capital humano.
A licenciada em Jornalismo citou como exemplo o Japão, um país “sem muitas riquezas no subsolo, mas muito desenvolvido”.
Do lado oposto, está, por exemplo, a Nigéria, um dos países mais ricos de África, mas que, ao mesmo tempo, vive numa situação de caos e a sua população sofre com a corrupção e a desigualdade social. Na sua opinião, a riqueza não se reproduz numa sociedade sem formação.
Fazendo referência às crianças que tenham nascido em 2017 e que, em 2063, completam 46 anos, Regina Gunza diz que elas “só estarão numa boa condição de vida se forem bem educadas e instruídas agora”. O livro alerta que, se a maioria destas crianças receber uma educação mínima, terá empregos precários, com baixo rendimento, o que vai aumentar a pobreza no continente africano.
A pesquisa que deu origem à produção do livro descobriu que 85 por cento dos jovens africanos querem atingir a independência económica e conhecem o seu potencial, mas sentem-se desiludidos com o futuro, por causa das poucas oportunidades e o ambiente de instabilidade vivido nos seus países. O livro lembra, citando um relatório das Nações Unidas, que África representa apenas quatro por cento da economia mundial, uma realidade que constitui “uma grande ameaça para o futuro”, ten-do o assunto merecido deba-te exaustivo na conferência de Mombaça.

Valorização da mão-de-obra
Para a mudança do quadro, os jovens defenderam em Mombaça a introdução da disciplina de empreendedorismo desde o ensino de base, para que tenham capacidade de criar, fazer negócios, aumentar a oferta de postos de trabalho e saber como poupar ao longo da vida. Os Estados africanos devem apostar mais na agricultura, na redução da importação de produtos alimentares, especialmente os que abundam no continente, na va-lorização da mão-de-obra interna e no consumo de alimentos saudáveis e seguros, a fim de serem evitadas várias doenças resultantes da ingestão de produtos importados, defendeu  a angolana Regina Gunza, que deixou um recado para os líderes africanos: “Queremos que não olhem só para os recursos naturais como fonte de Orçamento de Estado, porque os recursos não são infinitos”.
Regina Gunza admitiu que, caso os recursos acabem, possa haver estagnação da economia africana e aumento da interferência externa, mas também disse estar expectante quanto à possibilidade de, até ao ano de 2063, a economia em África ser a primeira a nível mundial, de o continente ter um sistema económico considerado modelo para o Mundo e de ser o continente africano a determinar as condições de parceria internacional.
Os participantes à conferência de Mombaça deram ênfase à necessidade da valorização e preservação do património cultural, também pela via da valorização das línguas maternas, que devem ser incluídas desde o sistema de ensino de base.
Os participantes à conferência de Mombaça defenderam que, no ramo da Saúde, haja até ao ano 2063 hospitais que dão assistência com base no tratamento tradicional, porque existem muitas doenças, cuja cura se encontra em África.
Os jovens reunidos em Mombaça defenderam uma África próspera, baseada no crescimento inclusivo e de-senvolvimento sustentável, integrada e politicamente unida. Uma África de boa go-vernação, democracia, respeito pelos direitos humanos, justiça e Estado de direito democrático. Uma África pacífica e segura, com forte identidade cultural, património comum, valores compartilhados e ética. Uma África cujo desenvolvimento é orientado para as pessoas, contando com o potencial dos povos, especialmente das mulheres e da juventude.

Tempo

Multimédia