Sociedade

Rendimento familiar depende do fabrico de fogareiros a carvão

António Eugénio

Está imparável. Debaixo do sol ardente, António Simão empunha o martelo. Transpira para vergar os ferros que utiliza no fabrico de um fogareiro artesanal à carvão. É desta actividade que amealha algum dinheiro para sustentar a família. Um pequeno espaço do quintal da sua casa, no bairro Golf II, distrito do Kilamba-Kiaxi, serve de oficina. No local, há chapas, ferros e outros materiais. Há anos que o homem vive deste ofício. A perícia, que aplica no manuseamento dos instrumentos de trabalho, transmite maior segurança aos clientes.

Fotografia: Edições Novembro

Na pequena oficina faz-se de tudo um pouco, mas é na feitura do fogareiro que António Simão ressalta os seus dotes de bom serralheiro. No princípio, investiu cerca de 100 mil Kwanzas na compra de materiais nos mercados e estabelecimentos comerciais, para a sustentabilidade do seu pequeno negócio.

Em média, produz diariamente cinco fogareiros. Os preços variam de acordo o tamanho. O mais pequeno custa mil e quinhentos Kwanzas, enquanto outros são comercializados no valor de três, cinco e 8 mil Kwanzas. Simão conta que, a procura aumenta todos os dias, sobretudo por parte das mulheres que comercializam banana, jinguba, bombó, frango, pincho e milho assado.

A lista de clientes é reforçada pelos proprietários de pequenas unidades de negócios, que se dedicam à venda de carne assada de cabrito (cabrités) e frangos (franguitês), e pelas donas de casa, na preparação de grelhados diversos. Para a feitura dos utensílios, o serralheiro conta com a colaboração de três jovens, que além de ganharem algum dinheiro, também aprendem o ofício.

Geralmente, chega a facturar em média 60 mil kwanzas por semana. Simão explica que a bonança chega no tempo de calor, altura em que as senhoras que praticam o negócio à beira da praia compram mais fogareiros.

“Quando chega o tempo do calor, o número de vendedoras de grelhados, que faz o negócio nas praias aumenta. São elas que alimentam os banhistas. É uma boa época para o negócio e aumentar um pouco os lucros", diz.

Clientes valorizam obra do “mestre”

Frequentemente, muita gente entra na pequena oficina a pedir os meios encomendados e, com muita calma, o serralheiro explica aos detalhes os motivos do atraso na entrega de uma das "peças".

Naira Marta, que comercializa banana assada num dos bairros de Luanda, encomendou dois fogareiros. Satisfeita com a qualidade do equipamento, garantiu a reportagem do Jornal de Angola que vai continuar a desenvolver o negócio, que durante vários anos assegura o sustento da sua família.

"É da banana assada no fogareiro que sobrevivo. A formação dos meus filhos dependem, também, desta actividade", revela Naira, para de seguida enaltecer o trabalho realizado pelo "mestre" Simão.

“Os fogareiros fabricados pelo mestre Simão são duradouros. É aqui onde, há mais de três anos, mando fazer os meus. Eu sempre vendi banana na rua. Sem o fogareiro, os meus filhos passam fome", sublinha.

Dada a durabilidade e qualidade dos fornilhos, é na oficina do serralheiro António Simão que boa parte dos cidadãos estrangeiros (guineenses e malianos) vendedores “cabritês” no bairro do Hoji-ya-Henda, encomendam os equipamentos. “Eu, para fazer dinheiro dependo muito deste meio, que tem muita qualidade. Este serralheiro faz boas coisas”, refere um deles.

Rosa Calenga é grande apreciadora dos trabalhos realizados pelo mestre. Quando necessita de um bom fogareiro, a vendedora de pinchos e churrascos na zona do Zango II, em Viana, sabe onde encontrar o melhor. “O meu frango grelhado é muito procurado. Mas, acho que além do tempero, a qualidade do fogareiro que uso tem contribuído muito para o meu sucesso”, explica sorrindo.

Próximo da serralharia, há uma residência onde o almoço está prestes a sair. O fumo e o cheiro do peixe grelhado purifica o ambiente, e o mestre Simão gaba-se que o fogareiro em uso também é da sua “lavra”.

Muitas famílias utilizam o fogareiro à carvão para poupar o gás butano, en-quanto outras acham que as carnes e peixes grelhados, neste tipo de equipamento, ficam mais saborosos. Nas zonas rurais, é mais utilizado que o fogão a gás.

História do fogão primitivo

O fogão primitivo era formado por um pequeno buraco no solo onde se acendia o fogo e se colocavam as panelas. A descoberta de que o fogo num espaço aberto tinha mais força, levou a utilização de pedras como suporte para as panelas, ou os próprios troncos a arder.

Mais tarde, o homem aprendeu a construir fogões de barro e, posteriormente, de metal, que eram mais eficientes que os anteriores. No entanto, este tipo simples de fogão ainda é utilizado, principalmente pelos pobres em todo o mundo, mas mesmo os menos pobres ainda preferem este tipo de fogão, muitas vezes chamado fogareiro – para certo tipo de cozimento, principalmente os grelhados, quando não possuem uma churrasqueira.

Com a Revolução Industrial, os fogões passaram a ter um aspecto mais parecido com os de hoje, ou seja, uma espécie de móvel grande com um compartimento semi-fechado para o fogo e várias aberturas no topo para utilizar ao mesmo tempo várias panelas; por vezes, esses fogões tinham até um pequeno forno e uma caldeira para ter sempre água quente.

No século XX ainda havia destes fogões, embora a lenha tivesse já sido substituída por carvão. Com a descoberta da refinação do petróleo, foram inventados fogões a nafta (geralmente os industriais, de que ainda devem existir alguns exemplares em antigos hospitais ou prisões) e, mais tarde, a petróleo e depois a gás de cozinha, estes ainda muito utilizados hoje. Entretanto, foram também inventados os pequenos fogareiros e candeeiros a petróleo e a gás, que ainda hoje se usam, principalmente pelos campistas.

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