Sociedade

Rixas entre grupos assombram moradores

Cristina Silva

Há duas semanas que o Bairro dos Combustíveis se encontra às escuras. Os moradores dizem tratar-se de má-fé da parte dos técnicos da ENDE, que cortaram a energia na zona, com o objectivo de realizar trabalhos de montagem de contadores pré-pagos.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Assaltos à mão armada e rixas entre grupos rivais de adolescentes, no Bairro dos Combustíveis, município do Ca- zenga, assombram os moradores. O Jornal de Angola apurou, no local, que as brigas acontecem no período nocturno, envolvendo os rapazes da localidade com outros provenientes dos bairros Paraíso, Mulenvos e Kamassende, todos do município de Cacuaco.

“Infelizmente, existem no bairro muitos quintais com residências desocupadas, que servem de refúgio para os meliantes”, denunciou uma idosa, que não quis ser identificada. Revoltada, a anciã afirma que no Bairro dos Combustíveis ocorrem muitos assaltos, e ninguém faz nada por isso.
Maria Soba vive na localidade há mais de 25 anos. A mulher avança que, devido à onda de assaltos e brigas violentas entre adolescentes, os moradores enfrentam dias de intranquilidade. “Neste bairro, os jovens que realizam assaltos à mão armada vêm de fora. Saem de outros bairros e assaltam as nossas residências sob indicação de alguns ex-moradores”, denunciou.

Lembrou que na rua Adelino, por exemplo, uma senhora, que se encontrava em casa, em repouso pós-parto, foi assaltada quando o marido estava no serviço. “Os bandidos sabiam que ela estava sozinha em casa. Os marginais levaram tudo”, disse. Neste momento, prosseguiu a moradora, é quase impossível an-darmos à vontade no bairro, sobretudo no período nocturno. Por falta de iluminação pública, à noite, as ruas ficam muito escuras. “Isso ajuda a promover as acções maliciosas dos bandidos”, disse.

Tal como acontece com outros moradores do bairro, Maria Soba conta que, também, já viveu momentos de agonia, numa das ruas da localidade. “Já sofri um assalto aqui no bairro. Uns jovens meliantes mandaram-me parar e revistaram-me de cima a baixo. Em plena luz do dia, me receberam o telefone e o dinheiro que tinha na mão”, lamentou.

“Não é um bairro problemático”

Quanto à criminalidade, a comandante da esquadra policial do Bairro dos Combustíveis, inspectora Conceição Manuel, garante que a localidade não consta da lista das áreas mais problemáticas do município. Explicou que, em média diária, o registo é de apenas um a dois crimes.
Segundo a oficial da Polícia Nacional, a falta de cultura de denúncia dificulta a actuação dos efectivos na zona. “Infelizmente, os munícipes não fazem participação dos crimes. Isso dificulta a nossa intervenção”, disse, antes de sublinhar que os roubos, assaltos à mão armada e ofensas corporais, são os crimes mais frequentes na zona.

“Estamos a trabalhar junto das comunidades e distribuir cartilhas, com informações que ajudam a orientar o cidadão, assim como os contactos telefónicos dos responsáveis das respectivas áreas, a fim de facilitar a intervenção policial”, acautelou.
Para a comandante Conceição, desde que o bairro saiu da jurisdição do município de Cacuaco, a localidade regista agora um maior abrandamento nas acções criminais. “Com relação à criminalidade na zona, no passado, a partir das 18 horas os moradores sentiam inúmeras dificuldades para circular. Mas hoje a situação é diferente. As pessoas andam a qualquer hora do dia, sem receio. Melhorámos a segurança pública no bairro”, disse.

Relativamente às rixas entre grupos rivais de adolescentes, a comandante fez saber que a Polícia, sempre que recebe uma denúncia, desloca-se ao local da briga e recolhe os meninos envolvidos. “Mas, por serem menores de idade, são inimputáveis perante à lei. A procuradoria coloca-os em liberdade. Neste momento, estamos a trabalhar com os pais e encarregados de educação de alguns adolescentes, catalogados pela corporação, para que não se envolvam em crimes”, proferiu a comandante.

A inspectora Conceição Manuel manifesta-se preocupada com a fraca autoridade que muitos progenitores têm sobre os filhos. “As crianças não ouvem os pais, e há encarregados de educação que não sabem o que fazer com os meninos que não param de aprontar, que estão sempre envolvidos em problemas”, alude.

Refúgio dos meliantes

A comandante desdramatizou as informações postas a circular pelos moradores, sobre a existência de casas abandonadas na zona e que servem de abrigo para os meliantes. A inspectora Conceição Manuel explicou que no bairro não existe nada disso. “Existem quintais com vários quartos por arrendar, que nesta altura estão desocupados e não abandonados, como muitos dizem”, esclareceu.

De acordo com a responsável, é normal que as pessoas procurem por melhores condições de vida noutras localidades. “Ninguém no bairro abandonou a sua residência, o que acontece é que as pessoas conseguiram construir em outras zonas e resolveram arrendar os seus compartimentos. Mas, infelizmente os problemas de falta de acessibilidade, sobretudo no tempo chuvoso, faz com que muitos saiam da localidade”, lamentou.

Conceição Manuel disse que a auto-profissionalização seria um dos caminhos para ajudar na integração dos jovens e adolescentes do bairro. Para ela, a construção de um centro de formação técnico-profissional contribuiria para a redução da delinquência na zona.
“Muitos jovens estão desocupados. Não existem centros de artes e ofícios para a sua auto-profissionalização. Pelo menos 85 por cento das famílias são de baixa renda e existem aquelas que agregam mais de 15 pessoas na mesma casa, e apenas uma trabalha, vende no mercado informal. Tudo isso constitui preocupação”, aponta.

Falta de energia

Há duas semanas que o Bairro dos Combustíveis se encontra às escuras. Os moradores dizem tratar-se de má-fé da parte dos técnicos da ENDE, que cortaram a energia na zona, com o objectivo de realizar trabalhos de montagem de contadores pré-pagos.

Os dias passam, o bairro continua sem energia eléctrica e ninguém diz absolutamente nada. Com isso, a acção delituosa pode aumentar. “Já não estamos habituados a ficar muitos dias sem energia. Os alimentos estragam-se nos frigoríficos e os marginais já começaram a fazer das suas. Estamos muito preocupados com isso. Pelo menos deviam manter os postos iluminados”, lamenta Pemba Maria, que está cansada de viver na escuridão.

“Eles prometeram e agora não estão a cumprir. Querem mudar o sistema de pagamento da energia, de pós-pago para pré-pago, mas acho que não é necessário nos castigarem dessa forma. Nós não temos dívidas, liguem a energia, por favor”, implora outro morador.

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