Sociedade

Quilunda encerra mitos e tradições

Guimarães Silva | Bengo

Há muitas maneiras de se descrever a Lagoa Quilunda, no entanto, há um adjectivo que lhe assenta como nenhum outro, por corresponder à primeira impressão que ela provoca ao visitante que se desloca para lá da Funda: é grande. A imensidão  da Quilunda sobressai à medida que dela nos aproximamos. A lagoa é grande, e essa dimensão é dominada por contornos naturais que a tornam  única, pelos enfeites da flora que a cercam.

Fotografia: Jornal de Angola

Respeitar a Quilunda é um  dever que poucos  dispensam. A sua presença é mítica. A  geografia  é ímpar, porque   colocada  entre a Funda e Icolo e Bengo, dois marcos incontornáveis da província de Luanda,  pelo potencial agrícola que dá origem à cintura verde da grande capital.
A  lagoa, em si, absorve cultura. Ela acolhe pessoas de vários pontos do país, sobretudo gente que se multiplica em esforços e faz da agricultura e da pesca artes de sobrevivência. Em grande parte porque produzem e pescam alimentos tão necessários à Funda, Caop, Cacuaco e Luanda.
Os fins-de-semana são de movimento intenso. Tanto a localidade da Quilunda, como qualquer outra ribeirinha, são  pontos apetecíveis para quem parte à procura de uma paragem de sonho.
Do alto da torre de comunicação instalada pelo desenvolvimento, ao lado do posto de saúde da localidade, é possível observar a lagoa no seu todo. Ela despe-se e apresenta todo o seu esplendor. Encerra-se, mostrando parte das suas 66 saliências, segundo José Paulo, o coordenador da localidade do Muculo.
Do morro da terra branca nota-se que a vaidade dela é singular. É bígama, porque a natureza a apetrechou de vantagens: a de ter ligação íntima ao verde das margens com vegetação luxuriante e ao azul do céu com o qual, por força da coloração, se funde e confunde.
A Lagoa Quilunda, um capricho da natureza, é venerada pelas populações locais, alimentando hábitos e costumes de gentes da localidade da Quilunda,  Cananga, Muculo, Hengo, Km 52, Km 56, Mihinge, Cadianzala, Quingongo e Fotosacala. De todos estes  locais periféricos a visão é diferente, mas o denominador é comum: a lagoa faz parte das suas vidas, com o contributo para a agricultura e a pesca. Nas suas margens cultiva-se banana, batata-doce, feijão, quiabo, cebola, tomate, e outros produtos da terra.
Quanto ao pescado, as espécies fazem  inveja. A foca, que segundo Cordeiro Miguel Domingos, um ancião da localidade de Fotosacala, tem na lagoa um dos lugares de acomodação predilecto,  o cacusso, a taínha, o mussolo e o bagre. O sempre temível jacaré habita por lá. Neste local  com margens irregulares e vegetação  luxuriante, o réptil gigante anda sempre  à coca do seu, para um festim licencioso.

Interesses na Quilunda

Contornar  a lagoa é uma maravilha. Cordeiro Miguel  Domingos  contou ao Jornal de Angola que percorrendo-a no seu todo, tem 34 quilómetros de extensão. Dos contornos, de Fotosacala  tem-se uma visão diferente.  A grande proximidade convida a um mergulho, mas o conhecimento do respeito à  kianda (sereia) freia as intenções. “Gente estranha não pode tomar banho no mesmo dia que chega”, diz a sabedoria popular. De Cadianzala, o contacto com ela é inevitável. Tudo passa pela lagoa, a conversa, a lavra, a colheita, a pesca. De Cabiri, à distância, um rasgo cristalino sobre a terra revela a sua presença. Aí, tons do verde da vegetação sobressaem, num casamento perfeito com o cristalino da água. Sempre contornando, agora de Quingongo, ela apresenta uma configuração maior.  Desta posição tem-se a impressão  de ter o plano com maior comprimento e  os  espaços estampam-se em relevos, mostrando os montes que a contornam e as margens irregulares, um espectáculo à parte, que a Quilunda oferece a quem a visita. Do Muculo da Quilunda, uma localidade de imigrantes, com  5.715 habitantes,  o prazer do mergulho está à mão de semear, mas aqui, também, todo o cuidado é pouco. De novo a sereia, respeito e veneração.  Coisas da maior  lagoa de Luanda, um espaço que só o Atlântico faz parecer minúsculo.
As suas gentes têm nomes. As famílias mais importantes das aldeias ribeirinhas são  a Cabanga, Paquete, Santana de Jesus, Dias dos Santos, Lourenço Marcial, Sardinhas e Salamanca.

Lendas e histórias

Da lagoa em si conhece-se pouco a sua origem, história e afins. As lendas são várias.     Os mais velhos dizem que quando nasceram já a encontraram, “sabemos apenas que o nome dela é este, Quilunda. Esta palavra vem do português inundar”, começa assim a conversa com Agostinho Paquete, o coordenador da povoação com o mesmo nome.
“O espaço onde hoje está a lagoa era agrícola. Uma tempestade  inundou-a, passando ao estado actual”, adianta. O interlocutor  revela que no aportuguesamento da conjugação inundou, segundo testemunho oral, os nativos foram dizendo ilunda primeiro, e depois Quilunda, “nome que ultrapassou gerações e sobrevive até nós”, frisou.
Todas  as lagoas  têm  histórias  contadas e para contar. Têm dimensões, configurações  e mitos  para a própria unicidade. Cada uma merece  elogios  e a tradição (sempre ela) revela motivos  de interesse inimagináveis. A Lagoa  Quilunda  tem  todos estas particularidades. Aliás, acresce  a si mais uma: a presença da Kianda. De cada aldeia  ribeirinha contam-se cenas, umas horripilantes, outras de amor e crença, sobre as sereias. 
A mais recente e sonante foi a de uma senhora cá do continente, da região, que com os bolsos do “black empowerment” queria comprá-la. Dizem que por a achar demasiado azul e só, sem o toque e charme do século XXI, com bungalows e SPAs, restaurantes e afins. Em contactos ribeirinhos, disseram-lhe que a dona da lagoa vivia bem dentro, por sinal  no centro. A informação foi nefasta, porque a pretendente, conhecedora de estórias de África, arredou pé rumo a Luanda, acto contínuo Joanesburgo. Conhecia estórias de algo semelhante na parte mais a sul do continente.
Outra lenda remonta aos anos 60 do século passado, segundo Cordeiro  Miguel Domingos. “Antes de 1961, os colonos fizeram um grande canal para transferir a água toda da Quilunda para a lagoa seca da Banda, aqui ao lado, na Funda. O canal de passagem encontra-se lá até hoje.  Queriam fazer fazendas agrícolas, mas não conseguiram, a própria água não deixava”, comentou o ancião Cordeiro Domingos de  65 anos, que merece o respeito dos seus cidadãos.
As chuvas de Fevereiro e Março aumentaram muito a capacidade de armazenamento  da Quilunda. O canal de abastecimento  pelo Rio Bengo, conhecido por “tula tuanee”, em Fotosacala, é outro ponto de fornecimento de água que não pára. Nisto, segundo Agostinho Paquete, “os níveis da lagoa subiram e as águas invadiram as lavras. “Teremos  problemas na época de colheita”, diz o coordenador da localidade da Quilunda, de 7.350 habitantes.

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